Twitter com anabolizante

“A idéia do Twitter não é somente seguir pessoas interessantes para ficar por dentro de suas atualizações, mas também se auto promover e tornar-se uma pessoa interessante de ser seguida, e para isto, nada melhor que sair adicionando(seguindo) todo mundo. Afinal de 100 pessoas que você segue, pelo menos 50 delas vão te seguir também, isso é fato. Mas sair adicionando todo mundo manualmente é trabalhoso e exige muito tempo, então desenvolvemos este script para habilitar tal função no Twitter.”
Retirei esta frase do site de Danilo Salles, um programador carioca que criou um script que “segue” usuários em massa no Twitter. O script baseia-se numa prática muito como de retribuir o “follow”. Ou seja, se você me seguir, eu sigo você. Valendo-se deste script você pode rapidamente ter um crescimento exponencial no número de “followers”.
A ferramenta, ao contrário do que muitos usuários afirmaram no Twitter, não é nociva a ninguém. Apenas àqueles que se preocupam com os “rankings” de seguidores. Estes se sentiram traídos. A verdade é que o resultado deste crescimento exponencial é ruim apenas para os servidores do Twitter, que passam a ter muito mais trabalho. Exponencialmente mais.
Não quero, portanto, posar de guardião da ética, mesmo concordando que o programador fez uma molecagem, baseado numa fragilidade real do sistema.
Coisa alias, que não é nova, taí o spam.
Lamento, sim, dois fatos:
O primeiro é que, mais uma vez, o Brasil mostra para o mundo seu lado mais nefasto. Mais uma vez, a gente torce a ética para tirar vantagem. Mais uma vez, a gente finge que é assim mesmo e “quem mandou” não pensarem nisso.
O segundo é que uma jornalista relativamente famosa se valeu dessa ferramenta para turbinar o número de seguidores a título de realizar uma “experiência”.
Por que é grave que alguém da imprensa multiplique artificialmente o seu número de seguidores?
Porque ao validar esta atitude eticamente questionável, atitude de quem não sabe brincar, ela estimula uma infinidade de outros usuários a fazerem o mesmo. E assim, aos poucos, lá se vai a via de duas mãos do Twitter.
Em sua página do Twitter está a seguinte afirmação:
“Observe. Ninguêm [sic] comenta sobre (nem se importa com) nicks desconhecidos no ranking de Alhos & Bugalhos.”
Uma jornalista da velha mídia que – apesar de estar há muito tempo online - parece não se sentir confortável com a conversação das novas mídias.
Inflar artificialmente o número de seguidores tem apenas essa função: transformar o que era diálogo, em monólogo.
Não importam os 15 mil que ela segue. O que importa são os que a seguem de volta. Vale tudo para conquistar audiência.
A jornalista não se dá conta que nas ferramentas colaborativas, ao tentar driblar a regra do jogo, ela também se transformou em só mais uma, no mar de opiniões. Proporcionalmente tão [ir]relevante quanto era, antes de tomar o anabolizante do Danilo.


