O SPFW e a Teoria do Circo

Do tempo em que eu trabalhei em parceria com o Marcelo Rosenbaum não sobrou muita coisa em pé. A Teto fechou, o Namesa também. Mas o que sobrou foi bacana: A Banca de Camisetas e a Teoria do Circo.

A Banca todo mundo conhece, mas a Teoria do Circo (TC) ficou obscura durante todo esse tempo. Até hoje, pois é meu dever revelar a teoria aqui e agora.

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Naqueles tempos, o Marcelo andava muito solicitado (deve andar ainda mais hoje) e atendíamos, quando era o caso dele precisar de um designer gráfico, todo tipo de demanda – das mais glamurosas até as mais esquisitas.

E foi numa dessas que a Teoria do Circo surgiu.

Belo dia o Marcelo me liga perguntando seu eu poderia ir com ele em uma reunião em que trataríamos de uma repaginada geral no Bar do Elias, tradicional bar ligado ao futebol e especialmente ao Palmeiras, pela sua proximidade com o Parque Antártica, na Pompéia.

Fomos. Chegando lá, uma reunião que lembrava o casting de um filme do Almodovar juntou, numa mesma mesa, o Marcelo, eu, o dono do bar (filho do Sr. Elias que, doente, já não tocava mais o estabelecimento) e um certo consultor de marca cujo nome eu lamento demais em não lembrar. Mas vamos tratá-lo, aqui, como Dr. Fantástico.

Dr. Fantástico falava de maneira muito gentil e empolada, usava um óculos com lentes assustadoramente grossas e um blazer com amplas ombreiras, no estilo Didi. Dr. Fantástico era o líder do processo de reforma do Bar do Elias, e depois de um breve preâmbulo sobre a história e a importância do bar para a região, nos apresentou sua proposta de reposicionamento para  o tradicional estabelecimento:

O tema para o novo Bar do Elias será… CIRCO.

A justificativa desse conceito é justamente o que se tornou a Teoria do Circo, e o raciocínio, aqui resumido, demanda um minuto de sua atenção. Acompanhe:

  1. Bar -> Bebida
  2. Bebida -> Amigos
  3. Amigos -> Descontração
  4. Descontração -> Arrelia
  5. Arrelia -> CIRCO

Se eu e o Marcelo já não estávamos entendendo nada, já com uma certa sensação de que o chopp da casa estava misturado com algum tipo de chá de cogumelo, imagina a cara do coitado do palmeirense dono do bar.

Foi a nossa primeira e única reunião com o Bar do Elias. E eu nunca mais tive notícias do Dr. Fantástico.

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Hoje começa o SPFW.

Já tive muita intimidade e afinidade com o evento, fruto dos 3 anos em que fui responsável pela comunicação institucional da franquia. Hoje não sei mais o que acontece por lá, e ainda não reparei, na mídia, o conceito que eles adotaram para essa temporada – que eu sei que é França, pelo menos.

Eu, apesar de acreditar e respeitar muito o trabalho que o Paulo Borges e a Luminosidade desenvolveram e desenvolvem ao longo desses 12 ou 13 anos de história do evento, acho que hoje em dia o SPFW está saturado em termos de influência real para a produção da moda brasileira, que ainda é um reflexo tropicalizado do que se faz fora, e também saturado em termos de crítica e jornalismo especializados. Hoje, quarta-feira, os jornais já nos brindam com as mesmas pautas, as mesmas gírias e maneirismos, a mesma superficialidade e nenhum questionamento.

Mas tem uma coisa: o SPFW se tornou um grande negócio, que hoje é a primeira e única plataforma de apoio para as marcas e anunciantes que querem se apropriar da Moda como chamariz para a sua comunicação, indo de frigobares a aparelhos celulares, passando por carros, provedores de internet e meios de comunicação. Basta ver o grande interesse dos tubarões da publicidade no evento.

Hoje o SPFW é a vitrine para marcas que investem no tema Moda para conseguirem retorno em visibilidade (não acredito que tenham algum benefício institucional real), e que hoje, bem ou mal, financiam o glamour periférico que adorna a moda brasileira.

E a disparidade entre essas marcas e a Moda me lembra um pouco da Teoria do Circo desenvolvida pelo Dr. Fantástico. Na medida em que, nessa época do ano, todas as marcas procuram sua relação com o tema, a Teoria da Moda toma forma e se torna muito útil para marcas e anunciantes.

Se você não tem ainda a sua marca relacionada à moda, ou o seu tipo e negócio não permite o link, ofereço agora uma ajudinha da Teoria do Circo para o seu reposicionamento, em alguns exemplos mais críticos.

Botecos e Bares

  1. Bar -> Coxinha
  2. Coxinha -> Sergio K
  3. Sérgio K -> MODA

Auto-Escolas

  1. Auto-Escola -> Aluno
  2. Aluno -> Barbeiro
  3. Barbeiro -> Hair & Makeup
  4. Hair & Makeup -> MODA

Transportes Públicos

  1. Transportes públicos -> Ônibus
  2. Ônibus -> Corredores exclusivos
  3. Corredores exclusivos -> Rebouças / Eusébio Matoso
  4. Rebouças / Eusébio Matoso -> Passarela
  5. Passarela -> MODA

Esportes Olímpicos

  1. Esportes Olímpicos -> Atletismo
  2. Atletismo -> Salto
  3. Salto -> Manolo Blahnik
  4. Manolo Blahnik -> MODA

Tudo é possível quando falamos de moda se usarmos a Teoria do Circo. Vc tem alguma sugestão para ajudar os nossos amigos publicitários que, nessa época do ano, recebem o cabeludo e óbvio briefing de ligar seus clientes anunciantes com a moda?

Se não, vamos ter que localizar o Dr. Fantástico.