Shows também não são a salvação?

Num dos últimos shows ao vivo que fui, me ocorreu que se as apresentações ao vivo são mesmo a salvação da indústria da música, já era hora de cuidarem melhor desse produto.
Não estou falando do show em sí. Mas de toda a experiência que vai desde a compra do ingresso até a saída do estacionamento depois do evento.
A revista The New Yorker traz esta semana, um longo artigo sobre o assunto: como nem mesmo os shows estão conseguindo dar uma esperança para esta indústria. O artigo é baseado no fato de que a Live Nation, a empresa responsável pela maior parte dos mega-shows nos EUA, reporta que 45% dos ingressos de seus shows não é vendida. E isso não tem nada a ver com a crise financeira. Tem a ver, na verdade, com uma série de problemas combinados.
O primeiro problema é o fim dos artistas capazes de atrair grandes multidões para os estádios. Michael Jackson já morreu e, convenhamos, não parece que estão surgindo bandas que substituam Stones, U2, Madonna, e mais uma meia dúzia de outras bandas, no quesito público suficiente para passar meses enchendo estádios pelo mundo.
Essas mega-turnês deveriam ser a galinha dos ovos de ouro das corporações que gerenciam o negócio de shows.
O que nos leva ao segundo problema. Como ensina Bill Graham, o lendário produtor de shows americano do fim dos anos 60, em seu livro “Bill Grahan Presents” (no Brasil “Bill Grahan Apresenta”, editora Barracuda), produzir shows deveria ser um negócio local, pequeno. Não deveria ser corporativo, não poderia ser um negócio de grandes empresas, porque a margem de lucro é estreita demais. Segundo John Scher, outro produtor de eventos musicais, para ter lucro é preciso controlar até “quando gelo o bar usa nas bebidas”. A consequência é que quando a produção de shows deixa de ser um negócio de empreendedores locais, para se transformar na salvação do negócio da música, grandes corporações tomam conta e quem sai prejudicado é o consumidor final. Preços altos do ingresso até a cerveja, passando por estacionamento impossível e dificuldades para a aquisição dos ingressos. Ou seja, a mágica do CBGB foi substituída por uma experiência que deixa a desejar.
E os problemas não terminam por aqui.
Tem também a dificuldade de conseguir ingressos. A TicketMaster, gigante dessa indústria, que deveria garantir que os ingressos fossem vendidos pelo valor de face, evitando cambistas, se associou com a TicketNow, que vende ingressos de “oportunidade”, sobras, ingressos para o dia, com preços negociados livremente, como ações no mercado financeiro. São como um cambista on line.
A The New Yorker conta um exemplo de como nefasta pode ser essa associação: num show de Bruce Springsteen, por exigência de Bruce, os ingressos estavam com preços baixos. Mais baixos do que a TicketMaster gostaria. Apenas 10 minutos após as vendas online abrirem, os ingressos estavam esgotados. Suspeita-se que a TicketMaster repassou a totalidade dos ingressos disponíveis para que a TicketNow revende-se, com preços livres.
Ou seja, os problemas se acumulam e qualquer um que já foi a um grande show sabe que muita coisa deveria melhorar.
Por qualquer aspecto que se discuta o assunto, existem problemas. Preços altos, cambistas, dificuldade para conseguir bons lugares, filas, estacionamentos difíceis, bebidas e comidas caras, trânsito impossível para sair após o evento.
Assim, no próximo show que você for e achar que o problema é do Brasil, relaxe. Tudo aquilo que pode parecer problema local é na verdade, mais uma ameaça à já tão sofrida indústria da música.


