Guest Post | Escrevendo para MSP50 por Fábio Yabu

Ao longo da carreira, Mauricio de Sousa formou um círculo de amizades que preencheria uma ala inteira de um museu. Will Eisner, Dick Browne, Joe Kubert, Milo Manara, Stan Lee, Osamu Tesuka. Esse verdadeiro panteão de artistas acalentou os sonhos de milhões de crianças e adultos nas últimas gerações, cada um com seu estilo e personagens inesquecíveis. E influenciou a obra de Mauricio, que, aos 74, ainda é caçula entre os que continuam desenhando por essas bandas.

Mas a maior contadora de histórias que Mauricio conheceu não teve fama internacional, não era quadrinista nem escritora. Residente à rua Ipiranga, em Mogi, ela se chamava Benedita Maria de Jesus – Vó Dita, para os mais chegados e fãs do Chico Bento. Com suas histórias de assombração, folclore e contos de fada, foi ela quem inspirou o neto a criar suas tiras e personagens.

Mais de seis décadas depois, o menino se tornou um ícone. Para comemorar em grande estilo seus 50 anos de carreira, foi formado um outro “panteão” de 50 amigos e contadores de histórias, que reinventaria seus personagens, cada um à sua escolha e maneira. Entre os convidados do álbum MSP 50 (Mauricio de Sousa por 50 Artistas), estavam Ziraldo, Laerte, Angeli e Fernando Gonsales. E, para minha surpresa, eu.

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Foi como largar uma criança sozinha numa loja de brinquedos vazia. Eu não sabia para onde olhar, nem o que escolher. O mar de opções e o peso da responsabilidade me deixaram confuso, aflito, até perceber que a pergunta não era “qual” personagem escolher – mas “por quê”.

Por quê, a essa altura do campeonato, escrever uma história da Turma da Mônica? Em 50 anos, Mauricio de Sousa imortalizou sua filha e a levou a lugares inimagináveis. A dentuça já viajou no tempo e no espaço, já fala chinês e mais dezenas de idiomas, e hoje divide sua existência entre a eterna infância e a adolescência tardia. Incansável, ela ensinou a ler boa parte desse país.

Percebi que, com tanta bagagem, as opções não eram tão variadas assim. Numa encruzilhada criativa, a saída não foi criar uma história, mas uma profecia: como seria a Turma da Mônica daqui a meio século, quando a revista Bidu nº 1 completar 100 anos? Que tipo de inovações a turminha, que sempre foi antenada com seu público, utilizará? E em que tipo de mundo ela viverá?

Surgiu então a história “O que aconteceu com a menina mais forte do mundo?”, que mostra um futuro sombrio para a turma, adulta e envelhecida num mundo destruído. Na minha versão, o posto de vilão é disputado entre dois senhores da guerra: o “Dono da Lua” (Cebolinha), governante do nosso satélite, e o inescrupuloso cientista Jinn Farah (anagrama para Franjinha), soberano de nosso planeta. No meio do conflito, os rebeldes Lia Gam (Magali) e Jonni Ha (Anjinho) buscam desesperadamente a única pessoa poderosa o bastante para por fim à guerra: a menina mais forte do mundo… mas ela está desaparecida há décadas.

A história é um caldeirão de referências: primeira, à própria tradição de Mauricio de parodiar outras mídias. Por isso a relação direta com o conto criado por Alan Moore em 1986, “Whatever Happened to the Man of Tomorrow?”, que mostra os últimos dias do Super_homem. Também revisitei as encarnações anteriores da Turma, começando por uma Mônica coadjuvante do Cebolinha em 1963, passando por sua versão “jovem” de 2009 até chegar àquela que considero sua versão definitiva.

Em tom sombrio que se mantém até a penúltima página, a história inicialmente assusta aos fãs puristas. Mas para o meu orgulho, o “anivelsaliante” e o público adoraram o final redentor, ao perceberem algo que a Vó Dita certamente já sabia: mais importante que a trama absurda ou os personagens propositadamente decaracterizados, está a relação de confiança, a brodagem, o “colo de vó” invisível entre contador e espectador.

É essa jornada conjunta que faz uma história valer a pena. Deu certo por meio século, e espero que continue por pelo menos mais meio, quando, aos 79 anos, vou conferir o MSP 100, e saber se minha profecia estava correta.