Geração Dumbo, culpa de quem?
Nicholas Carr acaba de lançar um novo livro – The Shallows -, título que remete à ideia de superficialidade. Em resumo, ele acha que esse mundo de hiperlinks e buscas rápidas faz com que a gente se detenha pouco em cada assunto e que essa superficialidade toda nos emburrece – e enfraquece. Na verdade, Nick já tinha dado a dica de que pensava assim, quando escreveu, em julho de 2008, o artigo “O Google está nos tornando estúpidos?”
De verdade verdadeira, o Nick chegou atrasado à discussão. Em junho de 2008, Mark Bauerlein, professor da Universidade Emory, já tinha lançado um livro inteiro a respeito, chamado “The dumbest generation: How the digital age stupefies young americans and jeopardize our future” (que me inspirou o “Geração Dumbo” do título deste post). Para o Mark, a tecnologia ligou os jovens de uma forma tão intensa que seu relacionamento com adultos diminuem. Resultado: estão cada vez mais imaturos, prolongando a adolescência até os 30 anos ou mais. Além disso, crianças e adolescentes leem cada vez menos textos longos (e livros nem pensar).
Mark, no entanto, também chegou atrasado. Porque a TV, nos anos 1950, já ia emburrecer todo mundo. Antes da TV, o rádio. Antes do rádio (o salto no tempo é para o texto não ficar longo demais rsrs), a prensa de Guttenberg. E antes desta, a escrita. Um sujeito inteligente como Sócrates, o grego original, teve medo de que a ESCRITA pudesse reduzir a capacidade de pensar do homem.
Porém o mais atrasado de todos nessa conversa foi o updater Ricardo Cavallini, que escreveu ontem “A luz do sol me incomoda, então deixa a cortina fechada” em seu blog, o Coxa Creme. Só que ele disse o exato contrário dessa turma toda: “Sendo curto e grosso, as pessoas não ficaram mais idiotas com o Orkut, Twitter, Facebook e afins. As pessoas são idiotas.” E disse mais: ” A rede (leia-se a internet) permite que a inteligência e a cultura, que também ficavam distantes, proliferem. Traz poder para o indivíduo e um monte de outras coisas boas. E serve de lupa, para enxergarmos o óbvio. …. ainda precisamos evoluir muito. Como sociedade e como seres humanos.”
Na minha opinião, todos os outros erraram e o Cava acertou. Na mosca. (E não é corporativismo updater.) O problema não é a tecnologia, nunca foi e nunca será. A gente é doidinho para arrumar bode expiatório. Na minha opinião (talvez rasa como um pires, talvez profunda como a camada do pré-sal), o problema é o que o Chico Buarque começou a intuir em 2009, quando afirmou: “A imaginação já não existe mais, agora tudo está no Google”. Isso foi precipitadamente interpretado como saudosismo por alguns, mas eu desconfio que ele mandava o seguinte recado: “A expectativa de que já existem todas as respostas para todas as perguntas é o que faz com que as pessoas se acomodem”. Só que tais respostas não existem, né? Reparem quanto problema tem para resolver…
do dark flow à impotência sexual masculina, passando pelo enorme desafio climático, o político e o de inclusão socioeconômica que vivemos. De onde veio essa ideia ABSURDA de que não tem mais nada por fazer?
E quem identificou o problema por trás desse problema (de acharem tudo pronto) foi o Robert Redford (sim, o ator): conforto demais. Ele disse, na HSM Management: precisa de rusticidade para desenvolver a imaginação. A internet tira a rusticidade? Cabe aos pais e educadores proporcionarem um ambiente rústico de outras maneiras. Sendo curta e grossa, à la Cava: a culpa não é da tecnologia; a culpa é das pessoas. E a geração Dumbo pode até voar, ok?
As coisas acontecem como o Michel Serres falou.
PS1: Já há pesquisas mostrando que estamos lendo mais, e não menos, com a internet. Depois acho links.
PS2: Eu sei que o Nick Carr tinha afirmado que a internet tirava a concentração das pessoas no “Big Switch”. Mas o livro não era SOBRE isso, que eu me lembre.
PS3: E o Clay Shirky andou falando sobre o assunto também.


