Pai, o que é um comercial?

Conta Patrick Rhone em seu blog do dia em que sua filha de 4 anos, Beatrix, se deparou com um comercial de TV pela primeira vez:
“Bom, na minha casa nós não assistimos ao que alguém da minha idade chamaria de ‘TV tradicional’. Nós temos, sim, uma TV de 15 anos atrás em nosso loft. Mas ela é raramente ligada. Nós também não assinamos TV a cabo. A TV está conectada a um DVD player não muito mais novo que ela. O conversor digital e a antena estão desconectados da TV já faz uns anos. Beatrix eventualmente se lembra que a TV existe quando nós colocamos algum DVD no player para assistir. É assim que usamos a TV.
Quando queremos assistir a algum filme ou programa de TV, usamos algum serviço de streaming como Netflix, Hulu, Amazon, iTunes ou direto de algum site. Dá até pra afirmar que, se um conteúdo não está disponível em um desses canais, nós provavelmente não o assistimos.
Contei tudo isso para mostrar como Beatrix nunca teve contato, até então, com o que chamamos de TV tradicional. E a primeira vez que isso aconteceu foi esclarecedora.
(…) Quando estávamos de férias em New Orleans na casa de minha irmã, em um dia chuvoso, pensamos em entreter Beatrix com um dos canais infantis que minha irmã assina em seu plano de TV a cabo. Naveguei pelo guia de programação e encontrei um filme que talvez Beatrix gostasse de assistir: Shrek.
Beatrix gostou da ideia e começamos a assistir ao filme. Alguns minutos depois, veio o primeiro intervalo comercial. A diferença de volume dos comerciais era gritante – chuto que 50% mais alto que o filme. Corri para pegar o controle remoto e abaixar um pouco…
- Por que você tirou o filme, pai? – Beatrix perguntou preocupada, como se ela tivesse feito algo errado e estivesse sendo punida por isso.
- Eu não desliguei o filme, querida, isso é apenas um comercial. Shrek vai voltar em alguns minutos – eu disse.
- O filme quebrou? – perguntou ela.
- Não. Foi só um comercial.
- O que é comercial?
- É como se fossem pequenos programas onde eles contam pra gente de outros programas, brinquedos e comidas, expliquei.
- Por que?
- Bom, o pessoal da TV acha que seria legal você saber sobre essas outras coisas também.
- Isso é chato! Eu quero ver Shrek.
- Eu sei, querida. Vai voltar em alguns instantes. Seja paciente.
O filme eventualmente voltou a passar. Peguei o controle remoto para aumentar o volume novamente. Claro, depois de alguns minutos, uma nova rodada de comerciais.
- Por que eles pararam o filme de novo? – perguntou Beatrix.
Ela não entende por que alguém gostaria de assistir a alguma coisa dessa forma. É chato e frustrante. Ela assistiu ao filme até o fim, mas depois não quis mais saber daquele tipo de TV; preferiu ir brincar. Nunca mais ligamos a TV nessas nossas férias.
Na volta para casa, paramos em um hotel e eu liguei a TV a cabo do quarto para entreter Beatrix. Estava passando um comercial.
- Isso é um programa, pai?
- Não. É um comercial, nós temos que esperar até que o programa volte.
(…) Agora eu percebo que ela não entende que todas as TVs funcionam dessa forma. Para ela, era a TV da minha irmã que estava quebrada e chata. Na cabeça dela, essa TV do hotel era outra TV e deveria funcionar de forma diferente.
Então apareceu um comercial/trailer do filme “O Mundo Secreto de Arrietty”.
- Esse! Eu quero ver esse, pai! – exclamou Beatrix.
- Não podemos, filha. O filme ainda não foi lançado. É só um comercial – expliquei.
Ela pareceu mais confusa ainda, então tentei uma analogia.
- Sabe quando a gente vai ao cinema e eles mostram trailers de filmes que ainda não foram lançados? É a mesma coisa.
- Ah… – não tenho certeza que ela tenha entendido muito bem, mas pelo menos parecia mais calma.
Quando o programa voltou, Beatrix perguntou:
- Pai, posso escolher o programa?
Ela ainda estava confusa. Ela pensa que deve funcionar igual na nossa casa, onde você escolhe o programa que quer ver, e vê. Uma coleção de centenas de programas, onde você pode escolher qualquer um. Expliquei novamente que não funciona assim nessa TV. Que você tem que assistir a aquilo que está passando, e se não tiver nada legal passando naquele momento, você precisa se conformar em desligar a TV.
Então fiz o que deveria ter feito desde o primeiro momento. Conectei o iPad à TV e deixei Beatrix escolher o programa que ela queria ver.
Ela abriu o aplicativo do Netflix, escolheu um programa e ficou feliz.
Isso, ela entende. Isso, faz sentido.”


