O que acontece quando você fica elogiando a inteligência de uma criança

381183 views 427 Comments
gabriel3

Gabriel é um menino esperto.
Cresceu ouvindo isso.

Andou, leu e escreveu cedo.

Vai bem nos esportes.

É popular na escola e as provas confirmam, numericamente e por escrito, sua capacidade.

“Esse menino é inteligente demais”, repetem orgulhosos os pais, parentes e professores. “Tudo é fácil pra esse malandrinho”.

Porém, ao contrário do que poderíamos esperar, essa consciência da própria inteligência não tem ajudado muito o Gabriel nas lições de casa.

– “Ah, eu não sou bom para soletrar, vou fazer o próximo exercício”.

Rapidamente Gabriel está aprendendo a dividir o mundo em coisas em que ele é bom, e coisas em que ele não é bom.

gabriel3

A estratégia (esperta, obviamente) é a base do comportamento humano: buscar prazer e evitar a dor. No caso, evitar e desmerecer as tarefas em que não é um sucesso e colocar toda a energia naquelas que já domina com facilidade.

Mas, como infelizmente a lição de casa precisa ser feita por inteiro, inclusive a soletração, de repente a auto-estima do pequeno Gabriel faz um… crack.

Acreditar cegamente na sua inteligência à prova de balas, provocou um efeito colateral inesperado: uma desconfiança de suas reais habilidades.

Inconscientemente ele se assusta com a possibilidade de ser uma fraude, e para protegê-lo dessa conclusão precipitada, seu cérebro cria uma medida evasiva de emergência: coloca o rótulo dourado no colo, subestima a importância do esforço e superestima a necessidade de ajuda dos pais.

A imagem do “Gabriel que faz tudo com facilidade” , a do “Gabriel inteligente” (misturada com carinho), precisa ser protegida de qualquer maneira.

Gabriel não está sozinho. São muitos os prodígios, vítimas de suas próprias habilidades de infância e dos bem intencionados e sinceros elogios dos adultos.

Nos últimos 10 anos foram publicados diversos estudos sobre os efeitos de elogios em crianças.

Um teste, realizado nos Estados Unidos com mais de 400 crianças da quinta série (Carol S. Dweck / Ph.D. Social and Developmental Psychology / Mindset: The New Psychology of Success), desafiava meninos e meninas a fazer um quebra-cabeças, relativamente fácil.

Quando acabavam, alguns eram elogiados pela sua inteligência (“você foi bem esperto, hein!) e outros, pelo seu esforço (“puxa, você se empenhou pra valer hein!”).

Em uma segunda rodada, mais difícil, os alunos podiam escolher entre um novo desafio semelhante ou diferente.

A maioria dos que foram elogiados como “inteligentes” escolheu o desafio semelhante.

A maioria dos que foram elogiados como “esforçados” escolheu o desafio diferente.

Influenciados por apenas UMA frase.

O diagrama abaixo mostra bem as diferenças de mentalidade e o que pode acontecer na vida adulta.

graf

O Malcom Gladwell tem um ótimo livro sobre a superestimação do talento, chamado “Fora de Série” (“outliers”). Lá aprendi sobre a lei das 10 mil horas, tempo necessário para se ficar bom em alguma coisa e que já ensinei pro meu filho.

Se você tem um filho, um sobrinho, ou um amigo pequeno, não diga que ele é inteligente. Diga que ele é esforçado, aventureiro, descobridor, fuçador, persistente.
Celebre o sucesso, mas não esqueça de comemorar também o fracasso seguido de nova tentativa.

UPDATE : Apenas alguns esclarecimentos a alguns dos comentários…

01. Não, eu não estou dizendo para não elogiar as crianças. E não, também não estou dizendo para você nunca dizer para o seu filho que ele é inteligente. É apenas uma questão de evitar o RÓTULO.

02. Evidentemente não sou o autor dessa tese/teoria, muito menos desse estudo citado no post. Escrevi justamente SOBRE essa linha de pensamento. Quem escreveu essa teoria foi Carol S. Dweck / Ph.D. Social and Developmental Psychology / Mindset: The New Psychology of Success(http://news.stanford.edu/news/2007/february7/dweck-020707.html) como foi citado acima e nos comentários também.

03. Gostaria de aproveitar o update e agradecer pelos inúmeros comentários e likes, o que prova o quanto esse assunto é fascinante. Obrigado!

[img by Shutterstock]


Author Bio

Wagner Brenner

Fundador do Update or Die, editoria e criação.

Loading Facebook Comments ...
427 Comments
  1. Pingback: Elogiar é bom, mas evite excessos ao educar seus filhos…

  2. MelanieSchlenke

    01/01/15 at 6:59 AM

    I’m amazed, I have to admit. Rarely do I come across a blog that’s both equally educative and interesting, and let me tell you, you have hit the nail on the head. The issue is an issue that not enough people are speaking intelligently about. I’m very happy I found this during my search for something regarding this.

  3. Pingback: Direito à educação feminina | Cynthia Semíramis

  4. Jorge Potyguara

    20/06/14 at 4:50 PM

    Extremamente interessante!

  5. Pingback: Saúde: O Que Acontece Quando Se Elogia Muito a Inteligência De Uma Criança | words of leisure

  6. Pingback: Donald Ladner

  7. Manoel Felipe

    01/02/14 at 9:54 AM

    Mto interessante o efeito que uma única frase pode provocar no desenvolvimento de uma criança!

  8. Jefferson Maravilha

    01/02/14 at 8:01 AM

    Carol Silva

  9. Erika Brandão

    01/02/14 at 2:10 AM

    Marcelo Junqueira

  10. Natanael Medade

    31/01/14 at 10:29 PM

    Dâmarys Medade

  11. Guto Achcar

    31/01/14 at 9:17 PM

    Isabela Pires

  12. Kairon Sarri

    31/01/14 at 8:51 PM

    Fernanda Sarri

  13. Rafael Castelhano

    31/01/14 at 7:49 PM

    Essa material eh bem antiga e particularmente discordo totalmente

  14. Willames Yano

    31/01/14 at 7:09 PM

    deve-se elogiar o esforço e não a inteligencia.

  15. João Victor Nicodemos Pildervasser

    31/01/14 at 7:05 PM

  16. Cristina Nogueira

    31/01/14 at 6:46 PM

    Anderson Felipe Oliveira Nogueira

  17. Diego Ribeiro De Aguilar

    31/01/14 at 6:30 PM

    Renata Magalhães

  18. Larissa Queiroz

    31/01/14 at 6:22 PM

    Rosangela Assunção Jack Alex Adrielly Lazaro Day Lazaro Rose Lazaro Keylla Corrêa Kerlei Correa Alline Farias Lazaro Marcos Assunção Fernanda Cristina

  19. Thiago Pelli

    31/01/14 at 6:12 PM

    Marcela Duarte Plantier Rinaldi Pelli

  20. Bernardo Santana

    31/01/14 at 6:11 PM

    Muito bom! Leiam papai Diogo Santana e mamãe Ana Paula Akaishi Santana

  21. Eliane Mendes

    31/01/14 at 6:10 PM

    Para refletir Márcia Cortez

  22. Armando Wünsch

    31/01/14 at 6:04 PM

    Karoline Wunsch

  23. Viviane

    11/10/13 at 2:47 PM

    Eu fui uma criança assim, todo mundo me achava muito inteligente, mas eu sempre me senti uma fraude, porque não era fácil conseguir aquelas notas, não tão fácil como faziam parecer, com frases do tipo: “nossa se a vivi não conseguiu ninguém mais consegue”. Sempre me senti mal com o fracasso e com o tempo parei de tentar várias coisas. E tudo isso se reflete na minha vida adulta, eu não paro em um emprego e divido minha vida entre empregos muito imbecis para mim e empregos muito complicados nos quais foi impossivel ficar, mas a verdade é que eu nem tentei.

  24. Pingback: Inteligência ≠ Sucesso | Prisma Científico

  25. Anonymous

    21/09/13 at 8:39 PM

    Na verdade, trata-se justamente do contrário: esforçar-se em superar suas fraquezas, e não o da acomodação.

  26. Pingback: Saiba como elogiar o seu filho | terapia para mães

  27. CAETANO

    18/09/13 at 5:47 PM

    Gostei da ideia geral do texto e concordo bastante.
    Entretanto, pelo que eu entendi, a lógica do próprio texto segue a lógica estabelecida pela sociedade de que é preciso ter sucesso na sua carreira.
    Até aí tudo bem, mas se esse esforço em busca pelo sucesso acadêmico/profissional não for consciente, inclusive do ponto de vista ambiental, não concordo com esse aspecto do texto.
    Resumindo, como todo ser humano, eu procuro o melhor para mim,
    ou seja, prefiro ter qualidade de vida com pouco sucesso do que me esforçar para realizar algo sem sentido, somente pelo sucesso.

Leave a Reply

Your email address will not be published.

You may use these HTML tags and attributes: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>