Afinal quem começou com essa história de duas mãos no backhand?

Aproveitando que hoje tem a final do Rio Open, um post sobre um marco na evolução do tênis, interessante para tenistas e não tenistas.

Quem tem menos de 35 pode achar que um backhand é com duas mãos, obviamente.

Mas os mais velhos devem se lembrar de uma época em que era justamente o contrário: bater a esquerda com duas mãos era esquisitíssimo.

O primeiro nome que vem à cabeça é o Bjorn Borg, um dos maiores tenistas de todos os tempos, com seu estiloso penteado de He-Man.

Um belo dia ele começou a fazer uma invencionice na quadra, um backhand usando as duas mãos. Que isso Borg??? E ainda soltava a mão esquerda no final do golpe. Na época, muita gente sacaneava, entregavam livros de “como jogar tênis” pro pobre Borg.

Mas, claro, não foi Bjorn Borg que inventou o backhand com duas mãos.

Basta entregar uma raquete para uma criança de 5 anos e você vai perceber que é natural porque a raquete pesa.

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Mulheres e crianças sempre jogaram com duas na esquerda, mas quem aprendeu tênis na minha época acabava indo para o single hand com o tempo.

Só que nos últimos 30, 35 anos a proporção foi se invertendo, porque  todo mundo percebeu o mesmo que o Borg.

Bater com duas não é coisa de quem não aguenta o peso da raquete. É coisa de quem quer bater mais forte. E também de quem tem pressa em ficar competitivo porque bater com uma demora bem mais pra calibrar (leia esse artigo sobre isso).

O Borg fez isso: botou moral e poder na esquerda. E depois o Jimmy Connors, o Agassi. E mais: eles perceberam que o backhand é, na verdade, um golpe feito pelo braço não-dominante usando o dominante apenas como guia.

Quem bate a esquerda com duas mãos, na verdade usa os dois braços no jogo e não apenas um.

Antes da época do Borg o tênis era um laboratório. Muitas técnicas e cada um acabava desenvolvendo a sua como, por exemplo, o maluco do Pancho Segura que fazia o FRONTHAND com duas.

Achou engraçado? O cara foi número um do mundo, treinou um monte de gente, entre eles, o Jimmy Connors.

Outro maluco é o Alberto Berasategui  que bate a esquerda e a direita com a mesma face da raquete, uma empunhadura chamada de “havaina”, famosa por detonar pulsos. basicamente, é o mesmo forehand de todo mundo, só que virado 180 graus.

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Na verdade, se o Borg foi o consagrador do backhand com duas mãos, a crescente conectividade do planeta nos últimos tempos foi a grande responsável pela inversão, porque a técnica tem se uniformizado. O próprio Djokovic batia a esquerda com uma e teve que reaprender a bater com duas para ficar mais competitivo no circuito.

Hoje, os single hand são franca minoria e, se resistiram até agora é por puro talento. Aliás, como representante da velha guarda do tênis, acho o backhand com uma mão bem mais bonito, e ver o que o Federer faz com uma mão (força, angulação, spins, slices, drops, esticadas, etc) é absolutamente mágico. E, para poucos. Gasquet tem uma esquerda esplendorosa, linda, mas não tão mágica.

Se você joga seu backhand com uma mão, faça um favor para você mesmo e assista esse video toda noite antes de dormir durante uns 3 anos. Só assista, seu cérebro faz o resto. Vai por mim. Olha que coisa linda e fluída.

Enfim, hoje tem a final do Rio Open e é uma ótima oportunidade de prestar atenção neste golpe tão importante. E ficar imaginando qual será a próxima invencionice do tênis. Eu adoraria ver alguém tentando um saque “viagem ao fundo do mar”. Será que pode, Arnaldo?

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