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Em NY, você anda.

Anda muito.

Você vê pessoas. Muitas pessoas.

Você esbarra nas pessoas. Você conversa com as pessoas e, principalmente, enxerga as pessoas. Em cada esquina a erupção cultural é vista, ouvida e sentida.

Recebi o filme acima do próprio autor/diretor e, enquanto escrevia, achei melhor pedir para que o próprio escrevesse um pouco sobre todo o processo criativo.

Recebi isso aqui:

Litefeet – A generation in Movement por Rafael Kent

Esse filme apenas aconteceu. Não existiu um processo certo que tenha ajudado a acontecer. E, acredito que o fator mais importante tenha sido a nossa conexão. Foi definitivamente a parte mais importante desse trabalho, a experiência foi maior que o filme em si. Poder ter sido um deles, um verdadeiro New Yorker pela primeira vez, durante algumas horas. NYC não é uma cidade americana é uma cidade do mundo, por isso mesmo essa conexão foi tão bacana, eles vem da cidade, são fruto das ruas, da expressão do cotidiano urbano, do Brooklyn e do Bronx.

Eu estava nos EUA a praticamente 3 meses e havia conhecido muita gente. Na verdade o objetivo dos poucos meses “sabáticos” foram poder me desconectar de algumas coisas e aumentar meu network na América. Até aquele momento não havia produzido nenhum material realmente relevante e confesso que também não estava mais tão preocupado. Passei 2 meses em Los Angeles e e esse era meu último mês na América. A grande diferença de NYC pra Los Angeles é que literalmente você ANDA pela cidade, as pessoas não tem carro, elas se esbarram, se vêem e interagem umas com as outras. Andei praticamente o mês inteiro com a câmera no pescoço, coisa que é praticamente impossível de se fazer no brasil, e captei muitas imagens da cidade no geral.

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Eu já havia ouvido falar sobre os “dançarinos” do metrô mas até o momento não havia visto nenhum deles performando. Já era sexta feira e eu iria viajar na segunda feira a noite de volta ao brasil. Saí com a minha namorada para assistir o show do rapper brasileiro Josbi no Webster Hall, nós estávamos ficando em Bushwick, na casa do Carlinhos Feitoza. Saímos do show e fomos em direção ao metrô. Engraçado é que nesse momento eu não estava com a minha câmera de filmar, estava somente com a 5D (que hoje só uso pra fotografar). Entramos no vagão do trem e o Dree apontou pra minha câmera e me perguntou “- YO, are you a professional?”… Achei engraçado e disse que estava tentando ser um, levei na esportiva, eu sabia que ele de alguma maneira estava me tirando (conhecendo ele depois eu tenho mais certeza ainda). Ele me perguntou se eu podia enviar pra ele algum trabalho meu e eu lhe disse que mesmo que enviasse pra ele e ele gostasse não havia tempo hábil de se fazer nenhum tipo de material, eu era brasileiro e estava voltando ao brasil na próxima segunda. O papo se encerrou por ali.

Voltei a conversar com a Tânia quando de repente um deles começou, ” – What time is?”, “- It’s show time!” alguém ligou o som e BANG, a coisa toda começou a acontecer bem na minha frente e com o trem em movimento. Não pensei duas vezes, comecei a fotografar sem parar, eu estava realmente maravilhado, coisa de turista, mas mais do que isso, de turista que sabe o que está presenciando.

Na mesma hora disse pra Tânia, esquece domingo, nada de turismo, não vou sair se não for pra filmar esses malucos. Abordei eles, com meu sotaque de brasileiro maluco, e disse que trabalhava com filmes no brasil e que precisava muito filmar todos eles. Na verdade, grande parte do material que eu vinha fazendo pelas ruas eram sobre o metrô e pensei que aquele tipo de material seria o desfecho final. Obviamente, como reais new yorkers, acharam o convite meio estranho, ainda mais vindo de mim, o “profissional não profissional”… Trocamos contatos de forma frenética, porque eles precisavam ir embora , e fiquei pensando sobre o que havia acabado de acontecer. Ficamos semi combinados de que nos encontraríamos no domingo as 4pm em uma das estações.

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Passei o sábado inteiro pensando sobre essa sessão, estava bastante inseguro também, na verdade, diria angustiado, eram muitas idéias pra fazer em tão pouco tempo, que tipos de takes iria fazer, como que iria dirigir aquela galera e como seria filmar dentro do metrô de maneira “non stop”. Após emails praticamente monossilábicos e cheio de gírias acabamos realmente “marcando”. Eu, depois de 1 mês, ainda não sabia andar direito pelo metrô de NYC já que a minha guia, no metrô e na vida é a Tânia. Sai confiante da casa do grande amigo Carlos Feitoza, responsável pelo Sound Design do filme, e rumo ao incerto. Eu havia trocado mais emails com a Ty’asia (Ty da Shoota), que era quem mais respondia, portanto estava esperando por ela mais do que pelos outros. Acabamos nos desencontrando e quem apareceu primeiro foram o Dree e o Trey, que são irmãos. Eles ficaram dançando na plataforma enquanto esperávamos pelos outros. Depois de alguns minutos de dança, e de altos takes, eles resolveram seguir em frente. Pegamos nosso primeiro vagão, encontramos uma outra galera, praticamente constituída de crianças e outros jovens, que já estavam dançando por ali.

Logo depois nos encontramos com todo o resto e o Dree e a Ty da Shoota chegaram a discutir sobre o bolo que ela havia tomado. A coisa foi mais ou menos séria mas tudo acabou bem. A partir dai não paramos mais, eu era um deles, filmei tudo que podia, sem parar, pedi pra que eles fizessem alguns takes onde eu pudesse dirigir um pouco a cena e acabou sendo a menor parte do filme. Eles são jovens muito expressivos, qualquer take era um grande take e eu estava realmente extasiado. Passávamos de um vagão pro outro, com o trem em movimento, como nos filmes que eu sempre assisti. Era realmente um grande momento que eu estava vivendo e melhor, registrando.

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Fui pra casa sabendo que havia sido um grande dia, na real, grandes horas, devo ter ficado com eles durante umas 4 horas mais ou menos. Me encontrei com a Tânia em alguma estação que não me lembro e fui fazendo mais imagens do metrô que imaginava que iriam complementar o filme sobre o Litefeet. Na época eu nem sabia do nome direito, não sabia do que se tratava o movimento. A única coisa que eu sabia é que meu filme sobre NYC iria esperar, o momento agora era só deles, do Litefeet. Após a volta ao brasil pedi ao Carlinhos que fosse gravar uma entrevista com eles, obviamente mantiveram a desconfiança de sempre e com jeito conseguimos que todos encontrassem o Carlinhos em algum ponto no meio da rua, nada de troca de endereços e muito menos de telefone. A confiança ainda precisava ser estabelecida.

Enfim, quando viram o primeiro corte foi um momento muito legal. A segunda parte do processo foi convidar o Vidú Salles, grande designer e amigo, para que criasse os letterings e mais pra frente que a Aline Leite e a Priscilla Simonelli me ajudasse com a legenda. Com o toque final do audio que o Carlinhos fez o resultado está ai. Mais feliz impossível.

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É realmente um momento importante pra mim, é uma certa ruptura com relação ao Kent “diretor de clipes” pro Kent cineasta. Eu amo filmar, sou bastante conhecido por fazer clipes porque se trata de um cenário onde o autoral é bastante forte e isso me motiva bastante. Mas, no momento, o mercado de clipe anda bem ruim e sinto uma imensa vontade de expandir meus horizontes, desmistificar certos rótulos referentes ao meu trabalho e filmar tudo que puder e é claro, achar interessante. Vou começar a me dedicar ainda mais a projetos pessoais, nesse momento, estou trabalhando em uma séria de fotografias que em breve estará no ar também além de ter umas idéias de sinopses pra longa e um novo documentário, que também pretendo rodar em NYC. No brasil as pessoas estão mais preocupada em quanto vão ganhar do que o que vão realizar e deixar pro mundo. Muito difícil de fazer as coisas por aqui, se você abrir uma câmera que nem eu abri no metrô de SP te param no ato pedindo “autorização”($$$) e isso é uma pena, SP tem muita história pra contar.