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Uma vez um grande amigo e mentor (naquela época também meu chefe) me disse: “acho muito bonita toda essa força das novas gerações querendo mudar o mundo. Mas nos seminários em que participo, sempre que entramos nesse assunto, eu faço questão de perguntar: ‘pra você, o que significa esse ‘mudar o mundo’? Ou melhor: como você imagina o mundo após a mudança?’ E nesse momento se desencadeia uma gagueira generalizada de argumentos vagos”.

Essa anedota sempre me chamou muito a atenção, principalmente, pelas escolhas profissionais que fiz. Sou formado em design de produto em um instituto técnico de ênfase em processos industriais e desde os tempos de calouro eu acreditava que o mundo da indústria não seria o meio no qual eu gostaria de me aprofundar por não ver nele maneiras claras de “mudar o mundo”. E, obviamente, sempre o demonizei, criticando que estava tudo errado e que não poderíamos continuar assim.

“Mas e aí?”, diria meu chefe, “se não podemos continuar assim, como deveria ser?”

Escrevo esse texto em um momento de grande complexidade e tensão no mundo. Ontem, após percorrer cerca de 500 km, a lama tóxica causada pelo rompimento das barragens em Minas Gerais chegou ao mar, comprometendo a fauna e flora de uma extensa região.

Acabamos de ver Paris, a cidade-símbolo do amor, assaltada e destruída a golpes de extremismo munido de ódio. Um mundo no qual aumentam todos os dias as taxas de suicídios, depressão, onde o crescimento demográfico é inversamente proporcional à qualidade das relações interpessoais que temos. Parece que estamos em um barco conduzido por uma espécie de inércia destrutiva rumo a uma altíssima cascata que nos extinguirá.

Ótimo mundo para acordar de manhã cedo, não é mesmo?

O motivo que me leva a escrever e compatilhar esse texto é que sempre procurei explicações sistémicas em relação aos motivos que nos conduzem a todos esses problemas. Encontrei algumas muito profundas de reflexão filosófica (como o modelo caórdico), outras muito mais superficiais (como o “tá faltando amor no mundo”). Mas talvez por ignorância da minha parte foram poucas as claras, objetivas e principalmente práticas que encontrei.

Tive a oportunidade de seguir nos últimos meses juntamente com outros colegas um curso on-line guiado pelo professor Otto Sharmer (MIT), chamado: “ULab: Transforming Business, Society, and Self”, baseado nos livros precedentes de Sharmer e principalmente na teoria de mudança desenvolvida por ele, a UTheory.

Theory U Method Drawing “Apresentamos uma nova tecnologia social para conectarmos com uma fonte mais profunda de conhecimento para mudar realmente o seu contexto.”

Em linhas gerais essa teoria compreende parte do cenário que descrevi alguns parágrafos antes, chamado modelo EGOssistemico de desenvolvimento, que tem como sintoma três grandes desconexões da nossa sociedade: a primeira é com o meio ambiente, o que nos faz precisar atualmente de 1,5 planeta terra para manter nosso modo de produção; a segunda desconexão é do individuo com o coletivo, que se demonstra em segmentação de classes, violência, conflitos e pobreza; e a terceira e última é a desconexão de nós com nós mesmos, chamada por Scharmer de desconexão espiritual.

Até aqui nada de absurdamente novo, não é mesmo?

O interessante é que esse diagnóstico é estruturado utilizando a metáfora do Iceberg, já puída de tão utilizada hoje em dia, mas que diz que esses três grupos de problemas são somente 10% da bagunça.

Faltam os outros 90% dos motivos que nos fazem entender que o atual sistema egossistemico tem como caracteristica a maximização da perspectiva individual em detrimento à perspectiva coletiva, e a dificuldade de lidar com esses pontos de vista diferentes. A escassez gera concorrência, que gera apego ao nosso ponto de vista, e que finalmente nos cega em relação a tudo e a todos.

Nesse ponto, ligaria meu chefe perguntando: “Beleza. Mas e aí? Como deveria ser então?”

Nosso carismático professor do MIT sugere um percurso. Uma jornada individual que permita emergir o futuro que queremos passando de um EGOssistema a um verdadeiro ECOssistema. E essa jornada consiste em abrir a mente, o coração e a vontade.

Abrir a mente significa silenciar aquela voz na nossa cabeça que, enquanto uma outra pessoa fala, pensamos no que concordamos, discordamos e como tínhamos certeza que uma pessoa com uma blusa daquelas deveria ser um hippie viajandão. Abrir a mente significa usar a sua opinião como uma jaqueta, que pode ser tirada do seu corpo, analisada de fora pelos outros, mas também por você.

Abrir o coração significa gerar empatia, colocar-se na pele de outra pessoa. Conectar-se sem preconceitos através de perguntas sinceras, ver com novos olhos um cenário e, principalmente, aguçar uma sensibilidade táctica que temos, mas na qual não confiamos.

E a vontade aberta significa desapegar de algo (um sentimento, uma visão) permitindo que algo novo possa nascer. Isso faz com que o aprendizado não seja baseado exclusivamente nas experiências passadas mas também em um futuro emergente.

Para cada um desses novos comportamentos, Scharmer propõe ferramentas aplicáveis nos âmbitos mais diversos, das relações afetivas, com clientes ou consigo mesmo.

Talvez a pergunta do meu chefe não tenha uma resposta imediata, talvez devemos apenas estar abertos para que ela possa emergir. De qualquer modo, uma mudança de perspectiva é fundamental para uma verdadeira transformação interna e esterna.

Durante a nossa história elas foram fundamentais para o ser humano e acredito que sejam também para o nosso futuro. A sensação de mudar completamente o ponto de vista que experimentaram os primeiros astronautas que, na década de 80 saíram da terra em direção a lua (chamada Overview Effect), foi um fenômeno tão interessante que eles se questionaram se o maior objetivo alcançado teria sido realmente chegar na lua ou olhar para trás e perceber o que significava o mundo em que viviam.

Deixo que eles mesmos contem para vocês com o vídeo aqui embaixo:

https://www.youtube.com/watch?v=UqFmBRGyb5s

Ao mesmo tempo pergunto: quais foram as jornadas em nossas vidas em que, somente alcançando a distância certa, conseguimos olhar para trás e ver as coisas de um outro ponto de vista?