OS INDISCIPLINÁVEIS


“E para ignorar, passar ao largo, superar a pressão social, é preciso coragem, muita coragem. Nervos de aço e um caráter forte, difícil de educar, cultivar, resguardar haja o que houver.” – Zygmunt Bauman

arya-stark

Game Of Thrones é um marco indiscutível na criação cinematográfica. De todos os tempos, creio eu. Demorei um bom tempo para me permitir entrar nesse mundo. Acreditava ser apenas mais um movimento típico de alguma moda passageira. Estava meu singelo pensamento draconianamente equivocado. Deveras. R.R. Martin criou todo um universo que exigiria muitas páginas e a colaboração de todo o seu exército de fãs para começar a explicar sua obra.

Fernando Pessoa, considerado um dos escritores que definem o mundo moderno, afirmou que “os homens só aprendem o que seria útil aos seus avós”. Intrigante isso. Estaríamos sempre atrasados no processo de compreender o mundo? Seríamos sempre a resposta tardia de algo que deveria ter existido num tempo passado?

Nesse humilde recorte que pretendo fazer, vou colocar a lente da câmera sobre a mocinha mais sem explicação da saga. Ela é inegavelmente intrigante. Quase indefinível. Arya Stark é parte da pergunta que não quer calar: como terminará essa história e pelas mãos de quem? A menina que já provou ter um espírito elevado, com personalidade indomável e caráter único, vem percorrendo cada um dos episódios, desde a 1ª temporada, levando porrada de todo mundo, sem perder o brio e a coragem, traços marcantes de sua identidade.

Disciplina. Desde o primeiro episódio, Arya já se mostrava independente e autêntica. Intensa e cheia de uma energia “esquisita” (única, extravagante, sofisticada, rara). Para quem acompanha a série, já percebeu que ela não é o tipo de pessoa que aprecia regras, mesmo tendo buscado vários tipos de aprendizados disciplinadores, sem sucesso. Ela acabava sendo traída pelo seu instinto selvagem. Sua alma é do tipo insubordinável.

Juro que me identifiquei imediatamente com essa pirralha.

Mihaly Csikszentmihaly (que nomizinho complicado) diz que cada um de nós tem a liberdade de controlar a realidade de nossa própria subjetividade. Para ele, quem foge às regras, como heróis, santos, sábios, artistas, poetas, e até os loucos e criminosos, buscam coisas diferentes muito mais que a maioria das pessoas. “A existência dessas pessoas prova que a consciência pode ser designada nos termos daquilo que desejamos, baseada nas intenções”, afirma. A saga GoT (Game of Thrones) tem isso impregnado em cada linha de seus roteiros.

A produção mais comentada da atualidade é um épico, ambientado num período semelhante à idade média. Não há tecnologias semelhantes às nossas. Nem de longe. O email mais sofisticado possível é escrito com penas, em frações de papéis rústicos e levados por corvos carniceiros. É um ambiente sombrio. Todos conspiram contra todos. Reinos caem. Exércitos trucidam uns aos outros. E qual seria o segredo de seu sucesso?

Talvez o fato de que as pessoas estejam sendo o que elas sempre foram: pessoas.

Não importa a época, sempre seremos vítimas da inquisição do mundo. Seremos questionados sobre quem somos, de onde viemos, quem desejamos ser e para onde queremos ir. E as respostas serão muitas. Infinitas. Uns terão respostas prontas. Outros apenas um olhar tão intrigante quanto a resposta que poderiam dar. Uns abraçarão a forma que o mundo lhes impõe, outros cuspirão fogo sobre a ideia de se conformar com a realidade que duvidam ser aceitável. Uns se devotam à disciplina, outros serão sempre indisciplináveis, prontos para criar a sua própria versão de um mundo, teoricamente, impossível.

Published in Do Leitor, TV & Séries

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William Barter
Amo a vida... literatura, gastronomia, cinema, viagens e um bom vinho. Conversar: adoro a terapia do diálogo. Falar de assuntos diversos, questionar as coisas e encontrar novas possibilidades de percepção. Uma excelente companhia para mim seria alguém que goste de aprender, investigar e, mais que isso, divertir-se dentro da busca.

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