Tive a oportunidade de ir umas sete ou oito vezes ao Festival de Cannes.

Nas duas primeiras, agi como um iniciante ávido por aprendizado, assisti a todos os filmes, fiz anotações de tudo que me chamou a atenção, fui a todos os eventos e festas, à cerimônia final. Um aluno exemplar.

Com o tempo, fui percebendo que o Festival de Cannes era mais um ego-trip, misturado com construção de networking e malho de vendas das agências e produtores, fornecedores em geral.

Continuei indo ao Festival, mas agora para jogar vôlei de praia com meninas de top-less, alugar um carro e passear pelo sul da Itália e/ou Mougins e arredores, pelo prazer da viagem e da gastronomia. Reservava os últimos dias para assistir apenas ao short-list e à cerimônia final.

Depois, desisti de ir e mandava gente talentosa da minha equipe no meu lugar. Fazia mais sentido, era mais estimulante e produtivo pra eles.

Numa das minhas últimas idas ao Festival de Cannes, em 1985 ou 1986, então já como Diretor de Criação para a América Latina, fui com o Márcio Moreira, todo poderoso Diretor Intergalático de Criação da McCann Mundial, e o Carlos.

Carlos era um profissional de criação argentino, um talento puro e, como todo argentino com talento puro, era teimoso e resistente a ser contratado por uma agência multinacional com o perfil da McCann. Mas queríamos o Carlos pra comandar a Criação da McCann-Argentina.

Pra seduzi-lo, viajamos juntos na primeira classe, de São Paulo a Paris. Alugamos um puta carro e fomos descendo ao Sul, até Nice e Cannes. A ideia era levarmos dois dias, chegarmos a tempo pra festa oficial da McCann em Cannes, da qual Márcio era o anfitrião, para o short-list e a cerimônia final.

Mas levamos cinco dias. Fomos pelas estradinhas vicinais mais remotas do Interior da França, La Campagne.

Parávamos em botecos, casas de frios e embutidos caseiros, em pequenas boulangeries de famílias, nos entretínhamos com as iguarias locais, vários tipos de comida de verdade, quiches, queijos, presuntos, salames, pães e vinho, muito vinho.

Acabávamos dormindo num daqueles hotéis de charme ou numa acolhedora pousada popular mesmo. Inclusive passamos um dia inteiro numa praia de nudismo, algo extremamente embaraçoso e constrangedor pra nós três, latino-americanos metidos a machistas, mas que afinamos diante de tanta gente pelada.

E assim se passaram os dias, e assim chegamos a Cannes atrasados, bem no final. Mas deu tempo de o Márcio abrir e fechar a festa da McCann, participar da cerimônia de entrega dos prêmios.

Foi ótimo, minha melhor viagem ao Festival de Cannes, mesmo não estando lá.

E o Carlos recusou o convite de contratação pela McCann.


Texto publicado originalmente no Blog do Perci

Published in Articulistas, Cannes

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Percival Caropreso
66 anos. Desde 1970 atuando em Marketing e Comunicação, Estratégia, Criação e Produção, Posicionamento, Identidade, Imagem & Reputação, Construção de Visão, Missão, Valores & Princípios, Cultura Interna em agências e empresas. Entre 1991 e 2005: Gerente Geral e Diretor de Criação da McCann-Erickson-Brasil e América Latina. Em 2005, fundador da Setor 2 ½, a fusão estratégica entre o Segundo e o Terceiro Setor: consultoria para dar sentido estratégico, otimizar a integração do capital econômico-financeiro, o capital humano, o capital social e o capital ambiental.

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