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Tudo começou em uma noite de domingo, naquele momento em que a tristeza do fim do final de semana bate e você se rende aos últimos momentos de não fazer nada jogada no sofá.

Entre um pensamento e outro, uma pausa, de forma automática, para scrollar todos os feeds de redes sociais, grupos do Whatsapp e mensagens. Era domingo de dia das mães e a timeline super ativa com declarações amorosas pras mamães, inclusive uma minha mesmo.

Nesse dia além do post fofo para a minha mãe no feice, minha vida social online estava bem animada: dei check-in pelo Swarm no meu restaurante preferido, postei uma foto no Instagram de uma visita ao museu e pra finalizar a noite postei uma frase engraçadinha no Twitter e no Facebook. Um dia daqueles felizes pra Bruna do futuro olhar no Timehop!

Muito amor pelas mensagens do Dinossauro do Timehop

Sim, você já pode notar que vivo como essas pessoas que não tiram os olhos do celular e uso ativamente uma diversidade de aplicativos sociais entre outros.

Mas voltando àquele momento deprê no sofá, em um momento de auto análise parei para pensar que não tenho mais tempo sozinha com meus pensamentos (eu moro sozinha e estava sozinha no sofá) exatamente por essa conexão instantânea com as pessoas através das redes sociais. Mesmo se você não está falando com ninguém elas estão lá, curtindo seus posts, comentando ou simplesmente postando as coisas delas. No primeiro sinal de solidão agarramos nossos celulares e nos sentimos conectados.

Eu sempre achei esses momentos sozinha muito produtivos, pois são neles que conseguimos olhar pra nós mesmos, analisar coisas boas e ruins que estão acontecendo e tirar aprendizados. Além de ser nesses momentos em que temos aquelas ideias milionárias que não saem do papel mas que estimulam a nossa criatividade e sonhos.

Ok, hipótese criada: As redes sociais têm me deixado tão ligada na vida dos outros e de forma tão automática que não tenho tido mais tempo de analisar a minha própria vida.

Agora vamos ao teste: Uma semana sem entrar nas redes sociais como o Facebook, Messenger, Instagram, Twitter e Whatsapp e tentar entender os hábitos ligados ao meu uso dessas redes e me afastar um pouco da vida alheia.

A luta contra o hábito

Posso dizer que o o hábito foi confrontado alguns minutos depois de ter apagado os aplicativos. Deitada na cama peguei o celular na mão e de forma automática meu dedo buscava os ícones pra clicar e dar aquela última conferida nas redes sociais antes de dormir.

Um estudo realizado nos Estados Unidos patrocinado pelo Facebook, Always Connected — How smartphone and social keeps us engaged, publicou que 4 de 5 usuários de smartphone checam seus aparelhos nos primeiros 15 minutos desde que acordaram, dessas pessoas 80% fazem isso antes de fazer qualquer outra coisa.

Bom pensar que não estou sozinha, porque além de sentir falta das redes sociais antes de dormir, também foi instantâneo pegar o celular de manhã com o intuito de entrar nelas.

Interessante que durante as pesquisas a respeito do assunto que fiz durante e depois da minha semana teste, percebi que muito se tem falado sobre nosso hábito e até mesmo vícios com esses produtos e serviços digitais.

Um hábito é por definição algo que você faz de maneira recorrente. Estudos do cérebro humano indicam que um hábito é algo que seu cérebro comanda sem que você se dê conta, é como um piloto automático dos seus comportamentos que são disparados depois de algum gatilho específico. O cérebro utiliza os hábitos para poupar esforços e otimizar o processamento de dados na realização de tarefas corriqueiras.

Um exemplo de como não prestamos atenção nos nossos hábitos foi que durante a semana teste, no trabalho, cheguei a fazer o seguinte movimento sem perceber: command+t e os dedos digitaram “fac” e já apertaram o enter. Isso aconteceu pelo menos umas 3 vezes e só na hora que a página estava carregando que eu me dava conta e corria para fechar a aba.

Dentro da área de User Experience muito tem se falado de como nós como profissionais podemos estimular a criação de hábitos dos usuários com nossos produtos e serviços. É inegável que esses produtos sociais de sucesso tem a formação de hábito como uma característica em comum.

Nir Eyal, autor do livro Hooked, explora esse assunto e explica em um modelo cíclico como produtos nos mantém engajados e fisgados. Segundo ele podemos desenhar experiências para conectar os problemas dos usuários as nossas soluções com uma frequência suficiente para formar um novo hábito.

Segundo o seu modelo do Hook, um hábito segue os seguintes passos: começa com um Gatilho que leva a uma Ação que gera uma Recompensa variável e através de um Investimento do usuário o ciclo vira algo recorrente, recomeçando com os gatilhos novamente.

Ciclo do Hook modelo criado por @nireyal

Gatilhos

Os gatilhos podem ser externos ou internos, sendo os externos que nos dão alguma informação no próprio item como um call to action, chamadas, promoções ou notificações. E os internos no qual a informação de o que fazer a seguir está na nossa própria mente, na nossa memória, como nossos sentimentos, desejos e vontades.

Segundo os estudos dos hábitos, os gatilhos internos são os mais fortes quando focamos na relação com as redes sociais. Como os sentimentos de solidão que nos fazem mandar mensagem para alguém ou entrar no Facebook, ou se sentir entediado nos faz scrollar quase sem prestar atenção nos diferentes feeds.

“Over time, users form associations with internal triggers so that no external prompting is needed — they come back on their own out of habit. For example, when we’re lonely, we check Facebook. When we fear losing a moment, we capture it with Instagram. These situations and emotions don’t provide any explicit information for what solution solves our needs, rather we eventually form strong connections with products that scratch our emotional itch.” Nir Eyal – The Psychology behind why we can’t stop messaging

Variabilidade da recompensa

A variabilidade da recompensa é para Nir um dos elementos chaves do engajamento forte com um produto, pois aumentam a frequência com que os hábitos ocorrem. Estudos científicos comprovam que somos bem parecidos com pombos de laboratório, que quando giram uma alavanca para receber uma recompensa, se essa alavanca as vezes entrega comida e outras vezes não, em uma programação variável, o número de vezes que os pombos tentam girar a alavanca é maior do que os que recebem em uma entrega constante.

Trazendo o caso dos pombos pra nossas vidas, é por causa dessa variação da recompensa que os News Feeds fazem tanto sucesso, por sua característica de atualização constante e variação dos conteúdos, temos a sensação de estar sempre buscando uma recompensa nova, que pode aparecer ou não.

Investimento

O investimento pode ser considerado como aquilo que produzimos dentro de uma rede. A minha foto postada no Instagram e minha frase engraçadinha no Facebook são investimentos meus nas redes que geram novos gatilhos para eu entrar no loop do hábito novamente.

Enquanto isso no nosso cérebro …

No livro, Os desafios à força de vontade, Kelly McGonigal- Ph.D em Psicologia da Universidade de Stanford, explora a neurologia por trás do autocontrole.

Ela conta sobre um estudo com ratos no qual, por acidente, descobriram o local no cérebro responsável pelos estímulos da recompensa. A promessa da recompensa libera no nosso sistema um neurotransmissor chamado dopamina que é um estímulo que chegou a ser confundido com felicidade, mas passou a ser entendido com um estado prévio de expectativa da felicidade que pode vir a acontecer.

Sim, somos como esses ratinhos que quando vemos algo que pode gerar uma recompensa liberamos essa substância que nos deixa na expectativa. E a tecnologia parece que nasceu para agitar essa nossa área do cérebro e nos deixar em uma constante espera pela recompensa que esta por vir.

O botão de atualizar, os sons de mensagens, as bolinhas das notificações e todos os outros gatilhos desenhados para chamar nossa atenção são efetivamente alavancas para nos deixar nesse estado de expectativa, criando uma sensação nunca saciada de quero mais.

É parte do design desses produtos criar esses gatilhos que nos engajem e pra isso acontecer eles têm que estar associados ao nosso sistema de hábitos e recompensas, podendo efetivamente nos tornar viciados nesses estímulos de expectativas.

Un-hooked

O Nir Eyal deu uma palestra falando dos próprios comportamentos com esses produtos viciantes e de como isso afetou a vida dele tanto no âmbito profissional quanto no pessoal.

No talk ele diz que foi fisgado pelo seu smartphone e que passou a notar que já não estava em total controle dos seus atos. Segundo ele, toda vez a tecnologia nos impede de fazer algo que melhore nossa vida, e que interfere na nossa qualidade de vida, devemos fazer algo a respeito.

A solução é encontrar formas de colocar a tecnologia no seu devido lugar. Veja abaixo o vídeo completo que explica o loop do hábito e dá dicas de como nos livrarmos dele.

Ta bom, e agora? Fujam para as montanhas?

(Só se nas montanhas tiver conexão wi-fi!)

Esse texto teve como objetivo compartilhar reflexões e analisar os meus hábitos de forma mais consciente, aproveitando para estudar mais sobre o assunto que é super relevante pra o trabalho de um User Experience Designer.

Depois dessa semana de teste assumo que não é possível retroceder a nossa relação com as redes sociais, elas fazem parte importante do nosso dia a dia tanto pessoal quanto profissional. Foram vários os momentos em que eu recorreria a uma delas para resolver alguma situação (tomei muitas broncas por perder conversas importantes e não saber a sala da reunião).

Porém, trazer a consciência e perceber nossos hábitos automáticos podem nos fazer construir uma relação muito mais saudável com os meios digitais. Não é todo em momento do meu dia que eu preciso estar acessível ou conectada.

É o ápice do clichê (e falar isso dá o passe livre pra usá-lo ;D) mas a busca do equilíbrio é algo que tem que ser constante na nossa nossa interação com as redes sociais e em qualquer outro hábito que interfira na nossa qualidade de vida.

Aprecie seus momentos desconectados. Seja na sua própria companhia ou na companhia alheia!

“Control technology as opposed to allowing technology control you” Nir Eyal

BONUS TIME — alguns recursos sobre o assunto

Livros: O Poder do Hábito e o Hooked

Blogs: Blog do Nir Eyal, Kelly McGonnigal, BG Fogg sobre Behavior Change