O que vem depois do Design Thinking Quando todos forem problem-solvers, quem serão os problem-finders?


Hoje já não se desenvolve uma solução sem antes ouvir os usuários potenciais que se beneficiarão dela, não é mesmo?

O Design Thinking é uma das metodologias mais populares para esta finalidade e sua aplicação alcança áreas de atuação cada vez mais distintas.

Assim, já é possível encontrar, não apenas designers, mas profissionais das mais diferentes áreas do conhecimento trabalhando em iniciativas fundamentadas na empatia com público final, geração de insights a partir das suas necessidades não-atendidas, além da prototipação e validação de hipóteses para a produção de soluções melhores e mais eficientes…

É o paraíso dos Designers, certo?

 

Etapas do Design Thinking

 

Pode até ser, mas você parou para pensar qual será o papel dos designers num contexto em que a preocupação com a experiência de quem utiliza as soluções está tão disseminada que se tornou um commodity e já não é um diferencial?

Ou, ainda mais desafiante, onde estarão os designers no futuro próximo em que inteligências artificiais dominarão a maior parte do trabalho que hoje é realizado por estes profissionais?


 

Há quem diga que tais indivíduos se tornarão designers de produto. Ou mesmo que a evolução do UX Design é o CX Design, ou seja, o design da experiência do consumidor como um todo (customer experience), que leva em consideração pontos de contato online e offline. E, para complicar ainda mais as coisas, outro caminho seria o Service Design, que em essência é semelhante ao CX. Complexo, não?

[ironia] Basta mudar uma letra no Linkedin para se tornar especialista [/ironia] (imagem da Kyvo)

 

Na verdade, estas hipóteses se concentram na mesma perspectiva, em que a natureza do trabalho do designer não mudará profundamente e ele continuará sendo um solucionador de problemas (“problem-solver”). Porém, na nova realidade em que o Design Thinking está disseminado, todos são “problem-solvers” em potencial, de não-designers a inteligências artificiais.


A era dos “Problem-Finders”

E é neste contexto que será necessário que os designers se reinventem, transformando-se cada vez mais em “problem-finders” (algo como “identificadores de problemas”), profissionais capazes de identificar e propor novos direcionamentos para dificuldades/oportunidades tão impregnadas no dia-a-dia que passam despercebidas para a maioria das pessoas.

Tais “problem-finders” serão aqueles indivíduos que conseguem extrapolar o cotidiano, aprendendo com o passado e interpretando a psique humana a partir de sua essência, para fazer inferências e previsões que apontem para o futuro e para melhorias na experiência humana que transformam vidas e negócios.

Entre as características de um “problem-finder” estão:

  1. Profunda sensibilidade no que se refere à condição humana;
  2. Inconformismo com o status quo;
  3. Forte poder de síntese para sumarizar e cruzar referências de diferentes fontes do passado e do presente;
  4. Visão estratégica e de negócios no sentido de identificar o potencial de valor dos desafios analisados;
  5. Habilidade de mobilização para fomentar a construção de novas soluções;
  6. Afiada capacidade analítica para adaptações e correções de rumo ao longo do percurso.

Ou seja, enquanto os “problem-solvers” se concentram na dimensão da solução de um desafio, o trabalho dos “problem-finders” é anterior, pois foca primordialmente na identificação e entendimento deste desafio ou oportunidade a ser solucionado.

Em sua crítica ao Design Thinking, a consultoria global de design e inovação Fjord reconhece o valor de tal metodologia, mas ressalta a necessidade de complementá-la com o “Design Doing” (para gerar soluções exequíveis e adaptáveis que se conectem emocionalmente com as pessoas) e com uma “Design Culture” (que combina diversidade e individualidade em espaços que estimulem a criatividade e o aprendizado contínuo). Sem dúvida estas considerações são importantes, entretanto, ainda são preocupações que se concentram na dimensão da solução, enquanto que o trabalho de um “problem-finder” mergulha na dimensão do problema, buscando identificar, contextualizar e encaminhar o desafio para possíveis soluções.


 

Métodos para “Problem-Finders”

Assim como o Design Thinking engloba um conjunto de procedimentos pré-existentes, também é possível identificar diversos métodos e organizações cujas abordagens podem ser empregados pelos “problem-finders”, tais como o Futures Thinking do californiano Institute for the Future (IFTF), as Decision Fictions propostas pelo autor de ficção científica Bruce Sterling, o Critical Design da consultoria britânica Dunne & Raby, ou ainda a abordagem técnico-ambientalista da holandesa Next Nature Network (NNN).

De todas estas abordagens, a mais sistematizada e longeva é o Futures Thinking, definido pelo futurologista estadunidense Jamais Cascio como:

Processo iterativo que combina dados, análise de tendências, intuição e imaginação para identificar um determinado problema e explorar seu conjunto possível, provável e preferível de resultados.

Embora um dos seus principais entregáveis do Futures Thinking se chame Previsão (“Forecasting“, no original inglês), não se trata de uma técnica de predição do futuro, mas, ao invés disso, este método oferece uma abordagem estruturada para compreender potenciais impactos gerados pelas ações e decisões de hoje.

Ainda em 2009, Cascio publicou na FastCo uma série de artigos sobre diferentes aspectos do Futures Thinking. Em resumo, este modelo engloba quatro etapas distintas:

  1. Formulação da Pergunta,
  2. Exploração do Mundo,
  3. Mapeamento das Possibilidades e
  4. Formulação da Próxima Pergunta.

 

Design Thinking e Futures Thinking

Enquanto o Design Thinking é uma espécie de seleção natural das melhores ideias para se conceber uma solução, produto ou serviço, o principal foco do Futures Thinking é inspirar, pensar de forma mais abrangente sobre oportunidades que podem (ou não) acontecer nos próximos anos, de tal modo que possibilite reduzir a incerteza inerente ao que está por vir com uma certa dose de humildade pragmática.

Sendo assim, não é de se estranhar que um processo de Futures Thinking abrace a divergência em seu final, oferecendo um conjunto de cenários possíveis sem definir uma previsão vencedora. Caberia, então, ao Design Thinking, que também se baseia em sequências de convergência e divergência, explorar estes cenários possíveis para finalmente convergir numa solução específica que pode ser testada, finalizada e oferecida no mercado.

Inspirado no comparativo entre Design Thinking e Futures Thinking, de Anna Roumiantseva

 

Outra diferença é que, para conceber esta solução concreta, o Design Thinking se inspira apenas no presente e passado recente, ao passo que a abordagem do Futures Thinking leva em consideração tendências dos últimos 10 a 15 anos para produzir previsões que podem se desdobrar por um período de tempo semelhante à frente.

Ou seja, enquanto o Design Thinking é mais focado, concentrando-se nas necessidades dos usuários, possibilidades tecnológicas e objetivos de negócio, o Futures Thinking, embora também considere estes fatores, é mais abrangente em sua abordagem, levando em considerações outros fatores como o meio ambiente, a sociedade, a economia, a política, etc.


 

Business as usual

Independentemente do método que se adote, seria ingenuidade pensar que esta transformação de “problem-solvers” em “problem-finders” visa apenas o bem da humanidade ou que acontecerá por causa de nossos “olhos azuis”. Como ressalta artigo da Forbes, “um bom UX é bom pros negócios” — e dá lucro: para cada dólar investido em UX há um retorno de 100 dólares, segundo levantamento realizado pela Forrester.

Assim, faz (muito) sentido para os negócios que os “problem-finders” abracem metodologias como o Futures Thinking para ampliar seu escopo de atuação e influência, além de favorecer a obtenção de melhores resultados. De tal modo que, sempre à frente e conectados à essência do ser humano, os “problem-finders” serão aqueles que apontam a direção para os exércitos de “problem-solvers” — os quais eles mesmos ajudaram a criar.

Admirável mundo novo?


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Comments 5

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  1. Olá Jeancarlo, muito legal seus textos. Sou Diretor de Arte ( daqueles que fazem cinema e tv — não publicidade ) e me identifico com seus assuntos, essas questões sobre design thinking, design disso, ou daquilo. Faço meus “designs” com muito thinking mas tambem muito intuition. Ou knowledge (?). Tenho milhões de perguntas que não cabem nesse espacinho, e adoraria — e me abriria muito a cabeça — se você pudesse responder. Desde “problem-solvers” até “porque então os problems não são solvers?”. De que forma posso te encaminhar minhas questões?

  2. Texto interessante, parabéns! Creio, porém, que o design thinking é mais assertivo na sua proposta, pois ao buscar a convergência de ideias tende a originar resultados mais tangíveis. Afinal, não basta apenas tentar compreender o futuro sem isto trazer algo mais concreto. Em síntese, me parece que o “futures thinking” é nada mais que o estudo de tendências que há tempos os trendsetters vem fazendo… Abraço!

    1. Obrigado pelo comentário, Diego. Entendo que meu ponto de vista é um pouco diferente. Não se trata de escolher entre um método ou outro, mas de aplicá-los complementarmente quando viável. Mais do que isso, não me refiro a estudos de tendências, mas, principalmente, à identificação de desafios e oportunidades.

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