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Pesquisar games, como em toda esfera investigativa, requer processos, metodologias e abordagens que auxiliem o percurso e o olhar em busca de respostas objetivas e com caminhos bem sinalizados para conclusões que contribuam para o campo dos estudos lúdicos. Nessa área, uma de minhas maiores inquietações sempre foi em relação à abordagem qualitativa referente a estudos de games. Nos grupos de playtest que participei ou organizei (tanto de jogos de minha autoria como de outros autores ou empresas) sempre me preocupou a falta de um modelo metodológico adaptado para filtrarmos opiniões de jogadores sobre o game.

Organizar um diálogo entre diferentes tipos de jogadores é uma excelente porta de entrada para caminhos mais amplos em determinados processos de game design. Certos feedbacks de jogadores, dados em entrevistas bem conduzidas após as sessões de beta test, são guias fundamentais para aprimorar mecânicas, dinâmicas, narrativa, componentes e layout de um game, seja ele digital ou analógico.

Sobre este tópico, Cote e Raz (2015, p.104) nos ensinam como escrever um guia de entrevista qualitativa bastante intuitivo e adaptado para o universo dos games, as autoras destacam os seguintes pontos:

1.Crie um roteiro introdutório para abrir a entrevista com o jogador e lembre-o sobre os objetivos da pesquisa. Por exemplo: esta entrevista visa avaliar a jogabilidade e aspectos de design gráfico do jogo X que você acabou de jogar. Deixe bem claro os objetivos para que o assunto não tergiverse por outros aspectos do game; se a ideia é avaliar mecânica, exponha claramente que não se está tratando de aspectos de layout.

2.Elabore “questões de aquecimento” para colocar o entrevistado à vontade e pronto para colaborar com a elaboração do seu relatório. Alguns bons exemplos de questões desse tipo são: “Faz quanto tempo que você joga video games?”, “Quais são seus games (analógicos e digitais) favoritos?”, “Qual sua lembrança afetiva favorita com games?” etc..

3.Estruture questões para coletar em profundidade informações para o jogo. Esta é a parte nuclear deste processo de entrevista, aqui o jogador deverá fornecer respostas sobre a interface do game, entendimento da mecânica, clareza das regras, problemas que ele encontrou ao jogar, design dos componentes, relação dinâmica com outros jogadores e outros aspectos que estão ligados ao objetivo principal determinado na etapa 1. Se o que está sendo pesquisado é o comportamento das regras e mecânicas do game, elabore questões como: “As regras do jogo ficaram claras durante a explicação das mesmas?”; “Você teve algum tipo de dificuldade para aplicar as regras durante a partida?”; “Em relação aos outros jogadores, você achou o jogo balanceado ou desbalanceado?”; “O conjunto das regras e dinâmica com os outros jogadores foi divertido/envolvente?”; “Fale sobre pontos positivos/negativos da mecânica”; “Fale sobre a duração da partida.” etc..

4.Por último, se for necessário, elabore algumas questões de caráter demográfico ou psicográfico para descrever idades, sexo, escolaridade etc. em seu relatório final da pesquisa.

Este tipo de entrevista com jogadores após as sessões de beta-test vão, pouco a pouco, fornecendo inputs que permitem um processo de ajuste e melhoria nos games que é bastante importante. A lógica de receber diferentes opiniões de jogadores variados fornece um aporte bastante rico para pensarmos na qualidade do produto final.

Cada vez mais as produtoras, editoras, estúdios e desenvolvedoras independentes estão se conscientizando da necessidade de criar grupos de pesquisa para obter feedbacks múltiplos sobre seus produtos lúdicos. A necessidade de adaptar um modelo do mercado de comunicação para a área de games é constante e, principalmente em um mercado brasileiro em crescimento, veremos cada vez mais empresas especializadas nessa modalidade oferecendo serviços para aprimorar este tipo de produto.

Para um maior entendimento de diversas técnicas e modalidades de pesquisa para o universo lúdico, recomendo fortemente o download gratuito do livro Game research methods: an overview , que foi a base de construção deste breve texto e tem me acompanhado a cada sessão de playtest de game design que tenho participado.

#GoGamers

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

COTE, Amanda; RAZ, Julia. In-depth interviews for game research. . IN: LANKOSKI, Petri; BJÖRK, Staffan (Eds.). Game research methods: an overview. Halifax: ETC Press, 2015. p.93-117.