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O Cannes Lions é, desde sua criação (em 1954), o maior evento da comunicação publicitária no mundo. Virou o maior evento da criatividade internacional, muito além de só propaganda, mas sofreu as dores do crescimento desenfreado – leia-se ganância de acionistas sugando todo lucro possível – a ponto de correr risco de vida.

De tanto explorar o fato de que “é obrigatório estar em Cannes”, com pouca evolução de modelo e valores cada vez mais abusivos, o festival viu o Publicis Groupe, terceira maior holding de comunicação do mundo, declarar em junho que não participaria mais do festival, alegando muito dinheiro desperdiçado e preferência em investir numa plataforma própria de inteligência artificial. O WPP, a maior de todas, também decidiu repensar seus investimentos no evento, o que poderia decretar não só enorme perda de relevância de Cannes, mas o início do fim de uma história que completa 65 anos em 2018.

Felizmente, o caso acabou rendendo o maior exemplo de “update or die” deste ano. Afinal, não adianta ser referência em tendências, futuro e criatividade e manter-se num modelo ultrapassado simplesmente porque ainda dá lucro – até porque, quando isso para de ser verdade absoluta, geralmente é tarde demais para se renovar. Para garantir-se no posto de maior encontro global da indústria criativa, Cannes anunciou hoje mudanças significativas, que deixará o festival mais dinâmico, objetivo e, principalmente, mais barato.

Primeiro, uma revisão completa de suas categorias. Ainda há uma enormidade delas – inclusive aumentaram de 24 para 26 –, mas agora mais organizadas, em 9 pilares principais: entre eles Comms, com as áreas mais tradicionais, como as de Filmes, Rádio, Mídia Impressa etc; Reach, com foco em Relações Públicas, Marketing Direto e novidades como “Social & Influencer”; Innovation e Entertainment, que eram mini-festivais separados e agora fazem parte do grande evento; e Experience, com a remodelação da categoria de Promo, agora Brand Experience & Activation, e a nova Creative eComerce Lions).

Festival ficará mais curto e dinâmico, indo além das palestras e do Palais

Depois, mudanças no sistema de premiação, garantindo que prêmios relevantes (os famosos Leões de Ouro e Grand Prix, por exmplo) valham mais que uma penca de finalistas (acabou a mamata); a morte de mais de 120 subcategorias desnecessárias; limite de inscrições em no máximo seis diferentes categorias (sim, tinham trabalhos inscritos em mais de 20, para garantir mais chance de prêmio); e a clara separação entre trabalhos para marcas e aqueles feitos para ONGs e caridade – afinal, é indiscutível a maior liberdade em arriscar criativamente para trabalhos sociais, enquanto quem paga as contas são os anunciantes de verdade.

Mas a maior mudança, indiscutivelmente, é a melhora na experiência de quem sai de sua cidade para gastar preciosos euros na Riviera Francesa. Ele está menor: de oito dias corridos para cinco, de segunda a sexta. Os passes clássicos de delegados terão seu valor reduzido em € 900, passando dos indecentes mais de € 4 mil (quase R$ 16 mil!) para pouco mais razoáveis € 3.249. E ao invés de apenas liberar acesso ao famoso Palais des Festivals para seminários, exibições e cerimônia de premiação, ele trará benefícios muito além do prédio, como wi-fi ao redor da Croisette (principal avenida de Cannes), menus com preços convidativos em mais de 50 restaurantes, valores de hospedagem congelados e tarifas especiais de táxi – tudo isso com exclusividade para quem ostentar o tradicional crachá no pescoço.

Evento vai se apropriar da cidade inteira, incluindo praias e praças

O festival finalmente vai se apropriar da cidade inteira – antes que marcas, empresas de mídia e outros players façam isso de vez, como já vinham tentando. Um feliz aprendizado provavelmente vindo de concorrentes indiretos, como o SxSW. Telões exibindo conteúdo exclusivo, trabalhos premiados, palestras e cerimônias de premiação estarão espalhados pelas praias, praças, ruas e espaços temáticos, garantindo a conexão do público com o evento mesmo longe do Palais. Será quase impossível estar em Cannes e não respirar o festival – o que muita gente vinha fazendo nos últimos anos, aproveitando apenas os eventos secundários e o networking nos hotéis, reuniões de board, restaurantes e festas privativas.

Cannes é um evento sensacional, instigante, provocativo, que transforma carreiras e forma de pensar (acredite, já fui 10 vezes e não faltam bons exemplos). Ganhar Leões muda a vida de profissionais, de agências, de clientes e, consequentemente, de toda a indústria. Seria triste ver tudo isso se dividir em eventos menores, numa disputa voraz para ser “o novo encontro global da publicidade” em diferentes metrópoles caóticas e novas empresas atrás de lucro. Até porque, convenhamos: celebrar a criatividade com rosé nacional na Riviera Francesa é sempre mais interessante. :)

 

A gente se vê por lá em 2018!