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O mundo da tecnologia gira por 4 dias na WebSummit

Eu não sou um escritor, nem pretendo ser. Esse texto é apenas a forma que encontrei de registrar essa última semana, onde estive na WebSummit de Lisboa, considerada a maior conferência de tecnologia do mundo. Dessa forma, aqui tampouco encontrarão uma cobertura da conferência ou do que melhor aconteceu, mas sim a minha experiência, o que vi, aprendi e recomendo para as próximas WebSummits.

Primeiramente, a WebSummit não se resume aos 4 dias de presença física na Feira Internacional de Lisboa (FIL) – um enorme pavilhão construído para a Expo 98 – e Altice Arena – talvez a maior arena coberta para shows de Portugal. A experiência começa muito antes, na compra dos caros ingressos. Após a conferência de cada ano, são colocados a venda bilhetes 2×1 a €850. Essa promoção acontece umas 3x durante o primeiro semestre do ano e vale a pena se juntar a mais uma pessoa para comprar. O preço regular de €850 por pessoa começa a partir do meio do ano e vai até 1 mês antes do evento, onde o preço sobe para astronômicos €2.000, até serem esgotados. Tudo isso para bilhetes de entrada normal. Se você é uma startup pode se cadastrar para expor seu negócio, participar de pitches para investidores, receber mentoria e levar até 3 pessoas por €850. Se você é investidor, VIP, premium, platinum, whatever, tenha certeza que existem modalidades para todos vocês também, com direito a eventos exclusivos, lugares privilegiados, bons restaurantes e menos fila.

A experiência previa ao evento continua na comunicação muito eficiente por email, que te guia para uma preparação necessária de agenda para escolha de conferências, palestrantes, startups a visitar, roundtables e uma infinidade de opções de eventos. Depois percebi ser mais importante do que eu imaginava. A Websummit não é o tipo de evento que você vai e deixa ser levado. Quem não sabe do que se trata e só aparece na hora fica completamente perdido. A conferência exige preparação, muita preparação. Primeiro, são 25 conferencias temáticas em 4 dias. Pelo menos 10-15 palestras acontecendo em paralelo durante todo o evento, e nenhuma com mais de 20 minutos de duração. Ou seja, piscou perdeu. Existem basicamente 3 formatos de apresentação: palestras individuais, entrevistas 1-1, bate-papo com 3-4 pessoas em um sofá. Eu particularmente achei mais interessante os dois primeiros formatos, que permitem absorver mais conteúdo rapidamente, pois os debates em pouco tempo não conseguem fugir muito do obvio, pois cada um teve não mais que 4-5min de fala.

O palco central (Altice Arena, com capacidade para 20.000 pessoas) é onde, em teoria, são as apresentações das estrelas. A noite de abertura, contou com algumas das pessoas que se apresentariam nos dias seguintes, mas o grande momento foi a palestra surpresa de Stephen Hawking, trazendo de forma muito clara sua preocupação com a segurança humana dada a rápida evolução da Inteligência Artificial – tema da moda que Elon Musk vem levantando a bandeira também. E que Zuckerberg disse que “não há com o que se preocupar”. A comissária europeia para competição Margrethe Vestager também foi encurralada por uma jornalista sobre as altas multas aplicadas a Google, Amazon e agora Apple na Europa, trazendo a discussão da centralização e benefícios das grandes empresas de tecnologia.

Também foi neste palco os grandes anúncios da WebSummit nos dias seguintes. Na corrida pelo carro autônomo, o CEO da Waymo John Krafcik anunciou na terça-feira que a Waymo passa a ser a única empresa a colocar nas ruas um veículo com nível 4 de autonomia. O serviço de transporte de passageiros vai ser oferecido em Phoenix, Arizona, sem um motorista de resguarda por de trás do volante. Mas não demorou muito para que no dia seguinte, Jeff Holden da Uber anunciasse em primeira mão o serviço uberAIR, uma espécie de drone de transporte, 100% elétrico e com consumo de 1/3 da energia de um helicóptero graças ao seu design inovador de turbinas giratórias. Aliás, muito ressaltada a parceria na construção das aeronaves com a brasileira Embraer (direito a foto dos CEOs das empresas juntos no Brasil). Mas os testes vão começar apenas em 2020 em Los Angeles. Vamos ver quem vai ganhar a disputa!

Passaram também pelo palco central os CEOs da Intel, Oracle, Microsoft, Slack, Asana, Reddit, Tinder, Tumblr, Ofo, e altos executivos de Amazon, Google, Facebook. Excelentes palestras sempre trazendo novidades, demonstrações e criando impacto no público. Das celebridades, além de Caitlyn Jenner (btw ótimo speech sobre diversidade), a modelo portuguesa Sara Sampaio e Wyclef Jean, eu fico com o discurso de encerramento do evento feito por Al Gore. Que poder de oratória! Fiquei impressionado. Muitos palestrantes tinham seus speeches no telepromter, mas ele não. Com uma eloquência impressionante, ele recrutou as 20.000 pessoas presentes no palco central para lutarem pela sustentabilidade nos negócios. E foi além, disse que os EUA iriam sim cumprir as metas do acordo de Paris “in spite of President Trump”.

Al Gore se apresenta no palco central da WebSummit

Não tem como fugir do palco central, pois lá que as grandes apresentações acontecem. Só não recomendo ficarem todo evento lá, pois a WebSummit é muito maior e com tanta coisa que ficar sentado no palco central é um desperdício. Ao final do evento notei que eu ia sempre nas primeiras e ultimas horas do dia, onde eram listadas as principais apresentações.

A Panda Conf, surge como o segundo grande palco do evento. São 3 dias dedicados a temática que circunda o mundo da tecnologia aplicada ao marketing: marcas, produtos, comunicação. Palestrantes de peso de grandes corporações, agencias e mídia. Muitos debates, mas confesso que não vi nada muito novo.

Gostei muito das conferências um pouco menores Criatiff (1 dia) e Future Societies (2 dias), com temas muito mais relevantes para o nosso mundo em transformação. A primeira focava em design e criatividade, onde assisti duas ótimas palestras seguidas. A primeira sobre a presença da Lego nas redes sociais e a segunda de como a IBM trouxe o design para o centro da organização, influenciando hoje toda estrutura organizacional e processos. A Future Societies discute os impactos da tecnologia na sociedade. Presenciei um ótimo debate sobre corrida espacial entre Nuno Sebastiao da Feedzai (uma das queridinhas startups portuguesas) e Mike Massimino (ex-astronauta e hoje professor em Columbia), onde eles colocavam de forma clara como a entrada de empresas do setor privado está acelerando a expansão do homem para o universo. E neste mesmo palco, presenciei um interessante debate sobre educação tradicional versus digital, com representantes da UNESCO, Universidade de Sidney, Coursera e Duolingo.

Também passei por outras conferências de forma mais rápida. No primeiro dia assisti a excelente palestra de Des Traynor da Intercom falar sobre desenvolvimento de produto Saas, no palco da Saas Monster. Nos outros dias, assisti o professor-celebridade Steve Blank falar sobre a evolução do Lean Startup (era o tema, mas deu pra entender que ele ainda vive no LS e não sabe qual é a evolução) no palco da Startup University. Vi o CTO da Amazon dar uma palestra super técnica para programadores AWS no palco Binate.io. Presenciei uma boa discussão com Tim Draper sobre criptocurrencies no palco da MoneyConf (fintechs). E conheci a chinesa Ofo de bike sharing, no palco da Autotech, dedicado ao futuro dos transportes.

Além desses, existem outros palcos temáticos de games, esportes, musica, saúde, direito, moda, robôs, etc. Tenho certeza que não vi 5% do conteúdo gerado nestes 4 dias. No começo bate um desespero por não conseguir ver tudo. Depois você entende que a conferência não foi desenhada para você ver tudo. E sim aproveitar o clima de tecnologia e inovação que gira em torno do lugar para cada um selecionar o que faz mais sentido e viver experiências diferentes.

Não foi a WebSummit quem não se entranhou pelas bancadas de startups para conversar com empreendedores e conhecer o que estão desenvolvendo. Você não precisa ser investidor para receber um “elevator pitch” de 30seg a cada 1 metro de bancada que cada startup tinha. Foi para mim o melhor momento de networking da conferência. Startups de todos os tipos de negócios e fases de vida. As chamadas Alphas eram desde ideias até pequenas operações com family money. As Betas já eram startups com seed money em expansão. As Starts já eram empresas formadas e em franco crescimento. Além disso, o Growth Summit era um pequeno palco onde as Starts apresentavam seus cases e em 4 palcos de Pitch as Alphas e Betas se apresentavam para jurados como um micro shark tank. Um evento privado de 150 Founders das top startups de tecnologia aconteceu em paralelo também.

Balcão de 1 metro para as startups apresentarem-se ao mundo

Importante ressaltar, por fim, a relevância do evento para Portugal. É o maior evento do país e o que mais traz pessoas de fora. Foram mais de 170 diferentes nacionalidades presentes, que impulsiona a economia local. Primeiro Ministro e o Prefeito de Lisboa abriram a conferência na segunda-feira e o Presidente Marcelo Rebelo de Sousa fez o último discurso de encerramento e agradecimento na quinta-feira. Não faltaram elogios da organização para a recepção feita por Portugal e muitas palmas, apesar da evidente baixa presença de portugueses no evento. Para os gringos, Lisboa é o paraíso, com sol e mais de 20˚C em novembro e em plena Europa. Lisboa ferve com jovens startups e desenvolvedores devido ao baixo custo de vida. A enorme quantidade de restaurantes, bares e casas noturnas deu conta do imenso fluxo externo de pessoas durante a semana. Inúmeros sides events aconteciam após as 18:00. Aceleradores fizeram rodadas de pitches de suas startups, a PubSummit levou muita gente para fazer networking entre copos no Bairro Alto, a Sunset Summit realizada pelo governo português promoveu um happy hour pós evento ao lado da arena, a Night Summit promoveu baladas todos os dias para os que ainda aguentavam depois de tanta coisa.

Secretário geral da ONU, o português António Guterres, discursa na abertura da WebSummit

Em resumo, a WebSummit foi uma experiência intensa. Recomendo muito a todos os interessados em tecnologia a virem alguns dias no começo de novembro/18 para Portugal. É aqui onde o mundo da tecnologia gira por 4 dias.