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1929, quebra da bolsa de valores de Nova York, também conhecida como a Grande Depressão. É aí que começa essa história de mistério envolvendo magia, sacrifícios humanos, deuses antigos e dinheiro. Muito dinheiro.

Durante as primeiras horas da manhã, antes da bolsa quebrar pra valer, um magnata é servido por seu mordomo. De repente, o magnata começa a sangrar pelo nariz, deixando o serviçal muito preocupado.

– Senhor – diz o mordomo. – Você está sangrando muito.

– Não sou eu, seu imbecil. É o dinheiro.

Sim! Era o dinheiro que estava sangrando.

O que se segue é uma sequência de sacrifícios rituais para alcançar um equilíbrio de energias e deixar o dinheiro em uma boa situação novamente.

Já ouviu aquela história de que um monte de gente desesperada se atirou das janelas dos prédios logo depois da quebra? Pois então, aqui elas não se atiraram. Elas foram arremessadas pelos próprios colegas de trabalho.

Isso tudo serve para nos apresentar a um mundo no qual famílias de feiticeiros muito antigas controlam o poder global ao controlar a grana (se você alguma vez já suspeitou que os muito muito muito ricos deviam ter algum tipo de pacto, você estava certo). É como um Harry Potter muito mais sombrio onde você vai pra Wall Street ao invés de ir para Hogwarts.

Para se manter no alto, essas famílias matam, chantageiam, manipulam e exploram.

Sim, é uma metáfora poderosa e eu não sei como ninguém pensou nisso antes. Ainda bem que Jonathan Hickman está aí para ter esse tipo de ideia maluca e nos brindar com uma história original, assustadora e da mais alta qualidade.

The Black Monday Murders vai nos inserindo aos poucos nesse universo, nos mostrando acontecimentos em diferentes linhas temporais. Temos um crime bizarro no presente, enquanto vemos detalhes sobre as famílias de magos e seus relacionamentos no passado. Intercalando tudo isso, Hickman e o ilustrador Tomm Coker nos brindam com diagramas e esquemas ocultistas que explicam o (complexo) funcionamento da magia e alguns documentos censurados que ajudam a mergulhar mais fundo na trama.

É um conto noir moderno, mas que não tem medo de abraçar o sobrenatural e apresentar conceitos que vão fazer o seu queixo cair. Quer ver?

Ninguém pode servir a dois senhores, porque ou há de odiar um e amar o outro ou se dedicará a um e desprezará o outro. Não podeis servir a Deus e à Mamon.

O deus que os magos adoram aqui é Mamon, aquele citado na Bíblia e que é a representação do dinheiro/riqueza… na verdade, dizer que ele seria um deus não é o correto, sendo que Mamon não é um ser que está conectado ao dinheiro. Ele está mais para uma encarnação do próprio poder. E todos bem sabemos que, no mundo de hoje, o que é o dinheiro senão o poder em forma física e mensurável?

Sendo assim, um mago adora e recebe bênçãos do dinheiro em pessoa. Foda, né?

Outra passagem que me deixou de olhos arregalados foi uma em que um mago mais experiente está explicando a um grupo de sócios menores como eles devem fazer para conseguir riqueza.

O primeiro passo diz respeito a pagamento. Você paga com as suas horas, seu suor, sua juventude, sua saúde, suas relações familiares.

Só que há um limite do quanto você pode enriquecer com esse tipo de coisa. Quando você quer acumular poder pra valer, ganhar dinheiro de verdade, você precisa se apoiar nas costas dos outros… sejam filhos, escravos ou funcionários, você sacrifica os outros.

Por fim, o último passo. Bem, o último passo tem que ficar para outra ocasião, porque ainda não estamos preparados para aprendê-lo.

Assustador.

The Black Monday Murders é uma das melhores HQs que li nos últimos tempos, com uma arte impactante, um cenário original e personagens instigantes. O ritmo é um pouco lento e o esquema todo é intrincado o suficiente para fazer você perder detalhes se não estiver atento, mas vale muito a pena.

Essa é uma história que exige comprometimento do leitor, mas, como ensinam esses magos endinheirados, se você estiver disposto a pagar o preço, sairá mais rico da experiência.