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Muitas vezes, escutamos uma música ou assistimos a um comercial na TV e temos a sensação de já termos visto algo parecido antes. Recebemos influências diversas o tempo todo, assim como artistas e profissionais de áreas criativas e, às vezes, tudo parece muito entre si. Não falo sobre plágio, que trata-se de um cópia descarada. Falo da cantora que faz versões da mesma música para marcas diferentes, de artistas que vivem de copiarem a si mesmos e coisas do tipo. Mas a grande mágica acontece quando recebemos essas influências, absorvemos e transmutamos em inspiração. Criamos algo novo, capaz de ser por si e, então, ser também um parâmetro para os demais. Na era dos influenciadores, a charada parece ser como tornar-se referência.

Van Gogh, pintor holandês dos famosos girassóis, produziu uma arte de vanguarda, inovadora, desruptiva – para usar um termo da moda. Seu estilo único ganhou o mundo após a sua morte e foi capaz de transformá-lo em um dos maiores ícones da história da arte. Mesmo sem saber nada de artes plásticas, todo mundo já ouviu falar dele.

Grande parte de sua obra veio da observação. Seu quarto, o retrato de um médico que virou amigo, os campos de trigo, os comedores de batatas e, meus preferidos, os autorretratos. Esse jeito tão peculiar de ver a realidade à sua volta foi sendo construído ao longo de sua produção e recebeu a influência da arte japonesa. Apesar de nunca ter ido ao Japão, Van Gogh era apaixonado pelo estilo tradicional nipônico.

Bom, ele era um homem de sentimentos profundos e intensos, é verdade. Então, quando eu digo apaixonado, eu quero dizer que ele comprou cerca de 600 gravuras japonesas de um comerciante alemão por centavos, grudou-as na parede de seu estúdio e estudou-as com afinco. Uma a uma.

E é aí que reside sua genialidade. No final do século XIX, o Japão estava na moda nas rodinhas dos impressionistas europeus. Outros artistas tiveram contato com essa onda oriental. Mas Vincent estudou-a. Entendeu os elementos, as cores, as formas. Produziu peças e evoluiu sua percepção sobre a arte japonesa dentro da sua realidade, até que a incorporou ao seu modo de ver o mundo. Em carta para seu irmão Theo, em 1888, ele diz: “Depois de algum tempo a sua visão muda, você vê com um olhar mais japonês, você sente a cor de forma diferente”. Grandes clássicos de sua produção apresentam o japonismo introjetado, transmutado pela sua criatividade.

O Quarto (1888), registro de seu próprio quarto. Inspirou-se nas cores fortes e no plano japonês, além de excluir as sombras.

O Museu Van Gogh, em Amsterdã, inaugurou dia 23 de março uma exposição sobre o japonismo e Vicent. A mostra ‘Van Gogh & Japan’, que vai até 24 de junho, reúne obras do artista e cerca de 500 peças daquelas 600 que ele comprou para mergulhar no universo japonês, além de outros trabalhos. Para quem não puder viajar e aproveitar esta oportunidade, o museu preparou um especial virtual, explicando a trajetória desta relação de amor entre um artista europeu e a arte oriental. Vale ver e inspirar-se para, quem sabe, fazer diferente.

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