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Por que amamos os álbuns de figurinhas? Há algo nos álbuns de figurinhas que não só resiste ao tempo, como alcança os mais variados públicos em um processo que demanda paciência e dinheiro, mas que oferece uma recompensa emocional extremamente significativa.

Walter Zenga.

Se você é millennial, provavelmente não tem a menor ideia de quem seja ele. Busque por uma imagem e vai ver uma mistura de Ben Affleck com Steve Jobs que jogava futebol. Supondo, claro, que você conheça o Ben Affleck e o Steve Jobs.

Como goleiro da seleção italiana, bateu um recorde de 517 minutos sem tomar gol em uma Copa do Mundo, em 1990.

Já foi considerado o melhor goleiro do mundo por três anos seguidos.

Suas defesas impossíveis lhe renderam o apelido de Homem-Aranha.

Jogou por 16 anos no mesmo time, a Internazionale de Milão, se tornando técnico de diversos outros ao fim da carreira como jogador. Inclusive do lendário time sérvio Estrela Vermelha.

E um de seus sonhos tem bastante a ver com o Brasil: um dia treinar o Palmeiras. Pra ele, o clube é um revelador de grandes goleiros.

Tá bom, você deve estar pensando. Você é fã do Zenga. E daí?

O ponto é que eu não sou fã do Zenga. Nunca fui.

Essa obsessão por ele se deve ao fato dele ter sido a última figurinha que consegui no meu álbum do Campeonato Italiano da temporada 1991/92. Algo que levei dois meses pra conseguir. Fazia parte de um grupo de figurinhas especiais, com os grandes craques do campeonato. A imagem era do rosto dele sobre um fundo preto, com uma sombra cobrindo metade. Lembro até hoje.

Na época, com apenas 9 anos de idade, álbum de figurinhas era uma brincadeira muito popular. Lembro desse álbum específico do Campeonato Italiano que não tinha figurinhas, e sim cards, em papel grosso, que você colecionava dentro de um fichário com capas plásticas. Uma febre. Todos os meus amigos, e amigos dos amigos, e todo mundo que fosse possível conhecer em uma época sem redes sociais – ao menos não digitais, como veremos adiante -, colecionavam. Lembro de colecioná-lo por anos, e não só ele. Tinha o do Campeonato Brasileiro, da Copa do Mundo, e outros. Inclusive os que não tinham nada a ver com futebol, como o da Gang do Lixo (busquem novamente, millennials).

Cresci, e por um bom tempo nunca mais colecionei nenhum álbum. Não que eles tenham deixado de existir, pois ainda via crianças colecionando, e lembrava sempre com uma certa saudade dos meus.

Mas, de repente, comecei a ver jovens, da minha idade, colecionando. E com os álbuns da Copa do Mundo, vi adultos e até idosos participando da brincadeira.

Como vocês sabem hoje, o álbum de figurinhas nunca morreu. Fui eu que demorei a perceber que eles sempre estiveram presentes em todas as faixas etárias, e não são só uma brincadeira de criança como eu imaginava.

E hoje, qualquer millennial sabe exatamente o que é um, mesmo nunca tendo ouvido falar do Walter Zenga.

Mas o que, afinal, um álbum de figurinhas tem de tão especial que o faz sobreviver ao tempo?

Figurinha repetida

Essa pergunta faz sentido não só porque qualquer coisa que sobreviva ao longo dos anos desperta uma curiosidade especial ao respeito da sua longevidade. Especialmente hoje em dia, em que telas são onipresentes no cotidiano de crianças até idosos, o que um monte de pedaços de papel colados em um caderno igualmente de papel tem de tão especial e atrativo, e por que não, viciante?

Claro, a grande estrela dos álbuns de figurinha são os da Copa do Mundo, já que é algo que tem a atenção de bilhões de pessoas ao redor do mundo. Mas bastam somente algumas pesquisas superficiais para perceber que existem diversos outros temas, nichados ou não, que atraem igualmente crianças e adultos. Desde desenhos animados até super-heróis e esportes. A Copa do Mundo é a grande estrela, e vai ser sobre ela que falaremos ao longo de todo o texto. Mas sozinha não justifica o frisson.

Podemos também pensar que há um prazer em algo essencialmente analógico, um saudosismo misturado a uma certa rejeição ao excesso de digitalidades atuais, como em uma brincadeira de pipa. Mas, um álbum de figurinhas poderia ser totalmente digital, sem grandes perdas, ao contrário de uma pipa, essa sim analógica por natureza. O analogismo tem seu valor, mas também por si só não explica tudo.

Há algo na estrutura de um álbum de figurinhas que não só resiste ao tempo, como alcança os mais variados públicos e prende a atenção das pessoas por meses, em um processo trabalhoso que demanda paciência e dinheiro, mas que oferece uma recompensa emocional extremamente significativa pra quem coleciona.

Como o parágrafo anterior é a descrição perfeita do resultado dos sonhos para o trabalho de qualquer publicitário, resolvi, entre uma figurinha e outra colada com minha esposa na casa dos meus sogros – vale dizer, o álbum é deles -, descobrir o porque do fascínio pelos álbuns de figurinhas e tentar traduzir isso pro meu próprio trabalho.

O resultado? Uma execução perfeita de conceito modernos e digitais e que raras vezes conseguimos aplicar a um produto, e que em um álbum de figurinhas são executados há anos com maestria.

Seguem abaixo as minhas descobertas.

O pai dos micropagamentos

Para completar o álbum da Copa do Mundo de 2018 é necessário desembolsar R$ 272,80, se você for a pessoa mais sortuda do planeta e não tirar nenhuma repetida, ou R$ 560,00 em média se você for um ser humano normal ¹. Alguns chegam a gastar acima de mil reais com a brincadeira. Mais caro que muito Lego por aí.

Com um custo tão grande por pedaços de papel, como é possível que tanta gente colecione as figurinhas da Copa?

Apesar de micropagamento ser um conceito recente, os álbuns de figurinhas sempre funcionaram dessa forma, embora a mecânica de venda não levasse esse nome. E é por isso que quem coleciona não considera o custo como um impeditivo, pois ele é tão diluído em tantas pequenas compras que sequer se chega a ter a dimensão do valor total a ser gasto.

Para o público infantil, é um facilitador na hora de pedir dinheiro aos pais pra brincar. Imagine pedir R$ 500,00 pra comprar figurinha? Nem pensar. Mas de dois em dois reais, todos nós colecionamos nossos álbuns por anos e anos. E pros adultos, o valor fica tão irrisório que sequer chegamos a pensar muito nele.

Muitos dos jogos rápidos atuais usam essa mecânica de monetização, aprimorando esse sistema básico com a possibilidade de comprar o acesso a fases novas, por exemplo, por uma pequena quantia. Que dada a facilidade e baixo custo, acaba virando um gasto muito maior a longo prazo.

No caso das figurinhas, ainda há a questão do excesso de figurinhas, as repetidas. Independente dos próprios fabricantes, os colecionadores sempre criaram redes de troca para que não seja gasto tanto dinheiro em compras frustradas de figurinhas que nunca vem. Em teoria, um grande problema pro modelo de negócio dos álbuns, mas que a própria fabricante – com uma ajudinha da economia – se encarregou de resolver.

Para evitar a redução na compra das figurinhas e a desistência dos colecionadores, as figurinhas mais desejadas – no caso do álbum da Copa, normalmente os grandes craques – são produzidas em menor quantidade, para que consegui-las se torne um desafio. E, como a lei da oferta e demanda mostra, quando muitos querem algo, aquilo passa a ter um valor maior. E para conseguir trocar figurinhas repetidas por uma rara, é preciso ter mais quantidade pra oferecer em troca. E lá vamos nós comprar mais e mais pacotes.

O que, de quebra, acaba construindo uma comunidade inteira ao redor da brincadeira para efetuar trocas e até jogar o famoso Bafo. De simples pedaços de papel em um caderno, o álbum de figurinhas vira uma rede que envolve dezenas de pessoas próximas conectadas, e milhões criando um grande grupo de colecionadores unidos em torno de um hobby e com uma grande sensação de pertencimento. O que me leva à segunda descoberta.

Uma rede social analógica

Quem viveu no século XX sabe como era mais difícil reunir pessoas ao redor de um interesse em comum. Fosse qual fosse o hobby, seja o futebol dos amigos à noite ou a comemoração do seu aniversário, era difícil criar grupos verdadeiramente grandes por toda a dificuldade logística que isso trazia. As formas de comunicação era mais escassas, trabalhosas e caras, e por isso grupos maiores de pessoas eram algo complexo.

Os álbuns conseguiram romper essas barreiras e criavam verdadeiras comunidades antes mesmo do surgimento da internet, tornando o ato de colecionar figurinhas um precursor de uma verdadeira rede social. Não à toa muitas das estruturas construídas em torno do passatempo tiveram apenas pequenas adaptações depois do surgimento da internet.

Se hoje temos sites especializados em trocas, antes organizávamos eventos para que as pessoas pudessem trocar suas figurinhas repetidas. E conseguíamos nos reunir mesmo sem a facilidade de um evento virtual pra convocar.

Como? Graças ao influenciador da época, o jornaleiro. Ele não só avisava dos lançamentos como sabia quais era as figurinhas mais raras e as que saíam mais, como também informavam sobre eventos de troca.

Se hoje temos grupos no Facebook, as bancas cumpriam muito bem esse papel. Algumas chegavam a ter rankings dos colecionadores da região, apresentando pessoas e promovendo uma competição saudável.

Como você pode ver, uma grande estrutura montada com muito trabalho. Mas porque esse esforço todo por um simples hobby?

O bom e velho jogo

“Todo jogo é um esforço voluntário para superar obstáculos desnecessários”.

A definição de Bernard Suits, filósofo de jogos e um dos pioneiros a estudar o assunto a fundo, se aplica perfeitamente bem a um álbum de figurinhas, e isso explica boa parte do seu sucesso. Não fosse o ato de colecionar, um álbum seria a coisa mais maçante do mundo, um compêndio com informações sobre a Copa a ser lido por pouquíssimos aficcionados.

O obstáculo de comprar e colar as figurinhas é o que transforma todo o ritual em um jogo. Mas não só isso.

Jane McGonigal, designer de jogos mundialmente reconhecida, descreve em seu livro “A Realidade em Jogo” os quatro pilares básicos de um bom jogo. São eles: meta, regras, feedback e participação voluntária. E todos estão presentes em um álbum de figurinhas, embora nem sempre de maneira explícita. Vamos observá-los mais de perto.

Meta

Óbvio, não? Completar o álbum. Mas um álbum de figurinhas tem uma segunda meta implícita: completar ele antes dos seus amigos. Não à toa, algumas pessoas chegam a gastar mais de mil reais pra completar o álbum nas primeiras oito horas do lançamento ².

E pra chegar lá, o jogador acaba enfrentando um processo que parece contraditório, mas que na verdade torna o jogo ainda mais estimulante e saudável para os participantes: ele é colaborativo e competitivo ao mesmo tempo. Todo mundo quer completar seu álbum primeiro, mas sabe que precisa da ajuda dos outros jogadores na troca de figurinhas pra chegar lá mais rápido.

Regras

São bem simples, o que cria uma adesão maior das pessoas ao jogo. Basta compras as figurinhas e colar no lugar certo. Somente depois elas se desenvolvem mais, com as trocas de repetidas e até o já citado Bafo. Mas ainda assim, acessíveis a todos e ainda por cima divertidas.

Feedback

São simples, imediatos e prazerosos. A cada figurinha colada, a sensação de estar cada vez mais próximo do objetivo final. Além, claro, de todos os pacotes já abertos que mostram a longa estrada já percorrida até o momento, valorizando o esforço de cada jogador.

Participação Voluntária

Talvez essa seja a característica mais cara ao mundo publicitário, pois muitas vezes cobramos alguma tarefa do consumidor pra dar a ele a oportunidade de ganhar algo, participar de um evento ou ter acesso a algum conteúdo.

Todos os itens anteriores precisam ser estimulantes o suficientes para que a participação seja não só voluntária com algo desejado. Um bom motivo, regras simples e divertidas e retorno rápido e claro. Portanto, nada de oferecer prêmios duvidosos, regulamentos intermináveis e resultados obscuros na sua próxima promoção.

E além desses quatro elementos essenciais, há um quinto elemento que explica porque o álbum da Copa do Mundo é mais bem-sucedido que os demais: sua escala planetária. Ele consegue reunir as pessoas em torno de algo que mobiliza todo o mundo, um evento responsável pela maior audiência já vista na história da humanidade. Isso torna o simples ato de colecionar figurinhas em um jogo que faz parte de um acontecimento épico. Ele é a sua primeira conexão com o fenômeno global que uma Copa representa.

Com todas essas possibilidades, não à toa passamos tanto tempo na companhia de um álbum de figurinhas.

Comprando horas 

Quem joga videogame sabe que no Brasil os jogos chegam a preços caríssimos, na faixa dos R$ 200,00 por um único jogo. E ainda assim eles batem recorde de vendas. Por quê?

Quando comprei meu XBox e tive a mesma preocupação em relação ao preço dos jogos, um amigo me alertou: “Não pense no preço. Pense nas horas de diversão”.

Por mais que pareçam caros, cada jogo pode proporcionar incontáveis horas de diversão. Converse com um aficcionado em GTA ou Minecraft e verá que muitos deles jogam o mesmo jogo há anos, seja na história normal, nas side quests (missões paralelas à história principal), criando conteúdo ou até mesmo hackeando o jogo.

Pense bem: se você gasta R$200,00 em um jogo, e brinca com ele por três anos, o seu gasto mensal foi de menos de R$6,00, ou três pacotes de figurinhas da Copa.

O mesmo acontece com os álbuns, lançados de quatro a seis meses antes da Copa, cujo valor se dilui consideravelmente comparado ao tempo de diversão proporcionado. Com o adicional de que, depois de anos, alguns se tornam objetos de colecionador e são vendidos por valores muito acima do que foi gasto. Como o meu querido Walter Zenga, vendido com o restante do álbum por R$850,00 em 2012, vinte anos depois.

Conclusão (ou: o que fazer quando completar o álbum?)

Álbum completo. E agora?

Nem todo mundo tem a paciência – ou mania de guardar tudo por anos, como eu tinha – para transformar um simples álbum em artigo de colecionador. E os álbuns acabam sendo abandonados e virando lixo com o tempo, transformando esse conjunto de experiências ricas em informação morta.

Como fazer para que guardar o álbum completo seja também mais uma etapa da diversão para o jogador? É possível transformar uma experiência tão prazerosa em algo mais duradouro? Na minha opinião, sim.

E não falo aqui de usar realidade aumentada para ver os jogadores animados, o que pra mim é um mero truque visual em uma experiência tão rica de significados, como vimos. E sim de algo igualmente analógico com uma versão virtual totalmente adequada à essência da mecânica dos álbuns, que é a de colar figurinhas.

Por que não criar figurinhas extras, que são na verdade adesivos NFC para serem colados em cada página, em que o jogador pode gravar ali toda a sorte de informação que o álbum e a Copa do Mundo proporcionaram?

Funcionaria assim: juntos com as figurinhas tradicionais, figurinhas de história viriam nos pacotes também. Seriam colocadas na página de cada equipe e também nas páginas especiais do álbum. Ao final do campeonato, cada colecionador registra ali não só sua história colecionando o álbum como também a sua experiência naquela Copa do Mundo. E sempre que o assunto voltar à tona (“Lembra daquele gol do Neymar?”) ou quando a próxima Copa chegar, o histórico pode ser consultado aproximando o celular daquela figurinha específica. É possível inclusive que cada figurinha tenha seu próprio sensor NFC, dado que o custo extra seria muito pequeno e não chegaria a se tornar um problema.

E assim, cada colecionador transformaria seu álbum em um enciclopédia personalizada daquela edição do torneio, podendo subir os dados que registrou para uma plataforma e ajudar a construir a primeira enciclopédia colaborativa das Copas do Mundo.

Como diria Jane McGonigal, seria épico.


¹ https://gauchazh.clicrbs.com.br/esportes/copa-do-mundo/noticia/2018/03/saiba-quanto-custa-completar-o-album-da-copa-do-mundo-da-russia-cjfbiv4zz022v01pho8rwcx5p.html

² http://g1.globo.com/sp/santos-regiao/noticia/2014/04/jovem-gasta-r-1-mil-em-figurinhas-e-completa-album-da-copa-em-8-horas.html

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