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É sexta-feira (23 de março). São Paulo. Calor. Muito calor. Da estação da Sé o Maps do Google me direciona para a avenida da Liberdade. A caminhada é apressada. Aprecio a vista. Ornamentos japoneses estão por toda parte. Gosto do que vejo, mas não devia estar ali. Confiro novamente a localização. Estou na direção errada. Retorno. O suor começa a dar sinais.

Na praça da Sé, o movimento é intenso. Uma espécie de protesto reúne as pessoas na porta da Catedral Metropolitana de São Paulo. Uma grande faixa branca afirma: somos todos iguais. Sigo. O GPS erra mais uma vez. Desisto de usá-lo. Fico meio perdido. Mas finalmente encontro o Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB).

O prédio é histórico. Arquitetura incrível. Na entrada um neon de tamanho médio, que pode ser visto do lado de fora, mostra que estou prestes a encontrar um dos artistas mais intrigantes dos 80’s: Jean-Michel Basquiat. A moça da recepção com um belo sorriso faz meu cadastro. Pego o ingresso. Guardo a mochila. Embarco no elevador. Quarto andar.

Uma plaqueta indica a direção da sala de exposição. Cerca de 10 adolescentes de uma ong aguardam para entrar. Uma senhora simpática que organiza a entrada me dá um cartão de controle. Entro. A emoção impera. Os batimentos cardíacos aceleram.

A sala é climatizada, ideal para conservar as obras milionárias (talvez bilionárias) pertencentes a coleção de Mugrabi. Na parede a esquerda tenho meu primeiro contato com o trabalho de Basquiat. Na forma, as obras dele são comparáveis a desenhos infantis. Também se assemelham com rubricas feitas na antiguidade. Rabiscos. As análises são ilimitadas. Mas na arte o feio e o belo são inexistentes. O que existe é a verdade, que transmite mensagens com diversas interpretações. Depende da visão individual dos observadores – a “bagagem” cultural também conta.

Na saleta, os jovens também se conectam ao artista. Tiram suas próprias conclusões. Quatro garotos discutem sobre um quadro sem título, que parece ser um homem desenhado na forma de palitos – naquele modelo do jogo da forca.

-Parece que ele está jogando bolinha de gude. Não parece?
-Não, nada a ver!
-Ele tem razão, parece sim. Olha as bolinhas nas duas mãos dele.

A discussão segue. O cérebro funciona. Paro em frente à tela Lombo (Loin), de 1982. É tudo muito subliminar. Os símbolos chamam a atenção. Aliás, símbolos, animais e partes do corpo humano são elementos necessários nas obras de Basquiat. O fascínio pela anatomia humana surgiu após um período internado por conta de um acidente. Seu livro de cabeceira era “Gray’s Anatomy”, um presente de sua mãe. 

Uma menina comenta que o artista fazia uma crítica social através de seus desenhos. Outra afirma que é “difícil entender o que ele está querendo transmitir”. As duas têm razão. As inspirações do artistas vinham de “problemas” cotidianos: incêndios, assassinatos, acidentes. As gravuras intrigam. E Basquiat, conhecido nas ruas por SAMO, tinha essa intensão. “Acredite ou não, eu sei desenhar. Mas quase sempre tento lutar contra isso”, afirmou ele. O objetivo não era entregar algo de fácil assimilação. Te faz pensar. Refletir. Tentar descobrir algo.

Jean-Michel não estava disposto a seguir regras pré-estabelecidas. Fazia o que queria, onde queria. Era mais arte pela arte, do que arte pela grana. Por isso, ele fazia seus riscos em porta, papel, madeira. Usava tinta acrílica, juntamente com spray, bastão, colagem de papéis. Não havia limites. Aliás, a grana de fato só apareceu depois que ele se foi aos 27 anos. No New York Times, de 20 de setembro de 1985, Vivien Raynor escreveu que Basquiat “subtrai com sua imagem mais ou menos expressionista […], é claro – são grandes, brilhantes, sujos, cheios de piadas internas e inconclusivas”.

A forma singular de SAMO fazer arte chamou a atenção de Andy Warhol, um renomado artista da pop art que, de certa forma, também usava suas criações para protestar contra o “sistema”. Warhol se tornou mentor de Basquiat e o inseriu nas galerias de arte de Nova York. Tornaram-se amigos e parceiros artísticos. A junção deixou a classe artística ainda mais intrigada.

Ao entrar na sala do terceiro andar me deparo com o enorme painel amarelo, chamado de Alcatrão Amarelo e Penas. A mistura de acrílica, bastão de óleo, giz de cera, papel e penas coladas em dois painéis de madeira chama muita a atenção. A imagem é “caótica”. Difícil de decifrar. Não existe harmonia. Pessoas, coroas (uma das marcas que ele mais usa), cabeças, esqueletos, peso, cadeiras de roda. Pode ser que seja o reflexo da conturbada realidade dos moradores do subúrbio. Suposições. As crianças se identificam. O professor explica e rememora o que foi falado nas aulas.

– Os desenhos dele parece ou não com o de vocês?

A resposta é a afirmativa. O grupo de estudantes do ensino primário observa os detalhes de cada linha. O mestre explica os conceitos. A curiosidade faz com que alguns se aproximem mais das telas. Indagações não faltam: “O que será que tem atrás dessa tela?” Alarmes são disparados. Os sensores estão por toda parte. Por favor, não toque.

Mais adiante, seis pessoas aproveitam para “treinar” o frances. Analisam as pinturas. Apresentam suas visões. Procuram palavras no idioma europeu para descrever aquilo que vê. Um andar abaixo, um outor grupo externa suas opiniões. Apontam as diferenças entre os materiais que Basquiat usa. Até comparam a linguagem que o artista usa com as mensagens do RAP.

– É o rap na sua mais pura essência, diz um deles.

A comparação é boa. E realmente Basquiat e o RAP tem um qobjetivo comum: te fazer pensar. Não dá para simplesmente olhar. É necessário parar, observar o que os olhos muitas vezes não quer, ou não consegue, ver e digerir. Existem muitas simbologias nas entrelinhas. Pequenos sinais, palavras, traços, riscos. Basquiat é genial. O contato visual com suas obras nos faz viajar. Anos 80. Repressão. Racismo. Disco. Rap. Drogas. Descaso.

Aliás, um dos painéis que ilustram o segundo andar (se não estou enganado) chama a atenção das crianças. É uma foto icônica (da capa) em que Basquiat está sentado em seu estúdio segurando um pequeno pote de tinta e seu pincel. No entanto, a primeira vista os pequenos concluem que o pincel na realidade é um cigarro.

– Nossa, ele fumava!!
– Não, não é um cigarro é um pincel. Observe bem”, diz uma das monitoras
– hummm. Verdade.
– É um pincel mesmo.

A mostra é gigantesca. Mas revigorante. Satisfeito com tudo que vi e ouvi, deixo o CCBB de espírito renovado e com a mente transformada. Obrigado por me inspirar, Jean-Michel.

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