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Estupidez Artificial Com ou sem máquinas, o ser humano se vê refém de suas emoções

Estupidez artificial ou natural?

“O homem sensato se adapta ao mundo; o insensato insiste em tentar adaptar o mundo a si. Portanto, todo progresso depende do insensato.”
GEORGE BERNARD SHAW

 

Lembro do verão de 1985. Eu e meus colegas de sala fomos convidados para conhecer uma grande novidade que havia chegado à cidade. A primeira impressão foi de espanto total e completo. Paixão à primeira vista. O CP500 que estava bem diante de mim era uma máquina espetacular. Como algo tão fantástico poderia existir? — me perguntava, incessantemente. Minha primeira experiência com um computador pessoal foi memorável. Para uma criança de 11 anos, na década de 80, aquilo parecia um ser vivo.

Trinta e três anos depois, não existem máquinas jurássicas como aquelas, talvez apenas em museus. Foram atualizadas e conectadas à Internet. A máquina que deslumbrou aquela inocente criança tinha uma tela monocromática minúscula, e nenhum HD. Um smartphone atual tem mais poder de processamento que todos os computadores usados para levar o homem à lua, nos anos 60. No século 21 a tecnologia tem dificuldades em deslumbrar as pessoas. Ela já faz parte de nosso dia a dia. Virou parte da paisagem “natural”. Hoje, crianças já nascem com câmeras coladas em suas carinhas sujas de sangue. Estarão online bem antes de mamarem pela primeira vez. A memória total de um CP500 tinha algo em torno de 64k, mais ou menos um décimo do tamanho de uma foto média, publicada no Instagram atualmente.

Numa sociedade na qual circula tanta informação, talvez não haja tempo para o deslumbramento.

Em um artigo muito intrigante, a revista The Economist fala sobre uma importante mudança que está ocorrendo neste momento. O petróleo cedeu seu lugar para a informação como a commodity mais valiosa do mundo. O combustível que nos permitiu viajar a 110 km por hora, de acordo com a legislação brasileira, perdeu seu lugar para algo que nos faz viajar à velocidade da luz. Pelo menos a informação pode. E o que é a informação, senão um retrato fiel de tudo o que somos e fazemos. Quanto mais registramos nossos dias, mais dados geramos para o mundo. E cada informação sobre cada pessoa neste planeta é útil para a tomada de decisões das máquinas que, de muitas formas, já nos governam.

A presidente da Microsoft Brasil, Paula Bellizia, em artigo para a edição especial Inteligência Artificial da Revista Exame, afirma que “toda empresa está se tornando uma empresa de tecnologia, não importa o mercado em que atue”. A Internet e os dispositivos móveis tornaram abundante um volume incrível de dados. Informação onipresente e cada vez mais valiosa. —Não importa se você vai correr ou assistir TV, ou mesmo ficar parado no trânsito, praticamente todas as atividades criam um traço digital – rica matéria-prima para as destilarias de dados — The Economist. Gigantes como a GE e a Siemens, dentre muitos outros, agora se vendem como empresas de dados.

Estamos cada vez mais monitorados. Todos somos geradores de dados; empresas e pessoas comuns são a nova lavoura de onde saem as sementes que alimentam máquinas famintas por doses cavalares de informação. Quanto maior for o volume de dados processados, mais fácil será fazer previsões, e mais inteligentes serão os sistemas que os processam. A velocidade da luz iluminou a estrada do futuro, e agora viajamos por um caminho que, aparentemente não tem limites.

Às vezes, eu me pergunto — por que as máquinas ficam cada vez mais potentes e sofisticadas?

Quanto mais perguntas fazemos, mais repostas conseguimos. E cada uma delas precisa ser armazenada em algum lugar para que a história das perguntas possa fazer algum sentido. E para administrar o acesso a essas informações, precisamos de recursos tão sofisticados quanto o volume de informações que geramos. Um CP500 armazenaria uma versão simplificada de apenas uma única foto em preto e branco. E isso seria injusto com a história de qualquer pessoa, por mais tímida que fosse.

Seria estupidez negar a nossa sede por novidades. Seria ridículo negar que somos apaixonados por criar momentos e relembrá-los. E essa necessidade de resgatar lembranças nos obriga a ter HD’s cada vez maiores. A necessidade de viver momentos cada vez mais emocionantes, e não perdê-los, colocou a criatividade humana em perspectiva. O que move nossa caminhada rumo ao progresso são nossas emoções, e não seríamos humanos sem elas.

A máquina é estúpida. E também artificial. A máquina foi criada para guardar a versão bruta e crua de nossas vidas. São apenas zeros e uns. Números, aparentemente sem nenhum sentido. Não acessados são incapazes de gerar emoções. Inacessíveis são inúteis. A máquina sabe cada vez mais sobre nós. Tanto, a ponto de fazer perfeitas previsões que soam inacreditáveis. Escolhemos máquinas para armazenar cópias de nossas lembranças porque não caberiam todas, intactas dentro de nossas mentes.

O desafio na era da informação seria o deslumbramento. Não o daquela criança de 1985, quando conheceu um computador pré-histórico. Mas, talvez, daquela criança que todos nós conhecemos um dia, que adorava fazer perguntas. Que adorava explorar o mundo. Quer você queira ou não, todos os seus passos já estão sendo gravados. Feliz ou infelizmente, o mundo precisa disso para funcionar. Resta bom senso meu e seu para fazer boas escolhas. Mas, aí você me pergunta — como fazer boas escolhas? Bom, normalmente seria fazendo más escolhas.

A vida é isso aí. Com ou sem máquinas, o ser humano se vê refém de suas emoções. E esse será o próximo desafio da tecnologia: criar máquinas sensíveis. Serão como nós? Difícil responder. Mas, isso não nos impede de continuar seguindo em frente, usando a poderosa criatividade humana para criar novas perguntas e arrumar onde guardar todo o resultado disso. Não acho que haveria problemas em conviver com máquinas inteligentes, de forma alguma; problema de verdade seria conviver com gente que nega as suas próprias emoções: um tipo de vida estúpido e artificial. Que não valeria as próprias fotos e HD’s onde seriam armazenados.

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