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O fim (propósito) dos Simpsons Como a crônica de uma família americana venceu o tempo

O que mantém um programa vivo por tanto tempo?

“fim”: s. m. 1. Termo, conclusão, remate. 2. Extremidade, limite de espaço, extensão ou tempo. 3. Intenção, propósito. 4. Escopo, alvo, objeto, fito, mira. 5. Morte.

No dia 17 de dezembro de 2019, o garoto mais sem noção da história da TV vai completar 40 anos. Bartholomew Simpson ou, como Matt Groening preferiu chama-lo, Bart Simpson, é o filho do meio em uma típica família de classe média americana. “Típica” seria puro eufemismo. Na verdade, Groening, a pedido de James L. Brooks, criou uma série para ser exibida em horário nobre, e usou como inspiração suas próprias experiências domésticas, trocando apenas o nome do garoto. Bart, suas duas irmãs, Lisa e Meg, a mãe Marj e o paizão Homer, são os protagonistas da combinação mais explosivamente improvável da história televisiva. Em 2019, serão trinta anos no ar. A série mais longa já produzida até hoje.

O que mantém um programa vivo por tanto tempo?

Adultos, jovens e crianças conhecem as figuras amarelas dos Simpsons. A velha série está mais jovem do que nunca. Não porque os personagens nunca envelhecem, mas porque os criadores conseguiram conectar o conceito inicial e contextualizar a proposta a todos os fatos temporais que ocorreram durante esses quase trinta anos. Fala-se de tudo, sem preconceito algum. Sexo, drogas, política, dinheiro, relacionamentos, racismo, futebol, homossexualidade, educação, sexismo, etc., etc., etc. Eles são um buraco negro invertido, de onde vêm todos os tipos de leituras inesperadas da realidade. Haja criatividade para oferecer saúde a um programa de televisão.

Bart está no quinto ano há décadas. Claro que ele é refém de uma elipse temporal que o aprisionou nesse espaço tempo, mas há uma mensagem de evolução em seu personagem. O quarentão tapado, de QI questionável, já provou para todos que o acompanharam “crescendo” que medir a inteligência das pessoas por simples métricas pode ser uma perda de tempo. Pesquisas tem insistido em dizer que a inteligência das pessoas tem diminuído. Pode ser que, como a tecnologia faz mais e mais tarefas para nós, nos tornemos menos inteligentes. É possivelmente devido a mudanças em como matemática e línguas são ensinadas, ou até porque nós gastamos muito tempo em smartphones e computadores. Quem sabe?!

A crítica cortante, que está explícita em cada linha dos roteiros, faz dessa família um marco inesquecível da cultura pop. Esse é um tempero que os diferencia do que foi produzido antes, durante e, certamente, depois que eles partirem. Que o pensamento crítico é um catalizador da criatividade muita gente sabe, mas combinar elementos aparentemente desconexos e tirar daí uma história divertida, sedutora e, muitas vezes, educativa, faz dessa ideia uma marca que, dificilmente, será esquecida.

Experimentei todos os tipos de emoções assistindo aos Simpsons.

Adoro assistir aos episódios antigos, porque me realçam os tempos de adolescência. Resgatar a energia dessa época de alguma forma me renova. Para mim, almoçar ou jantar na companhia dessa família é muito revigorante. Às vezes, me incomoda saber que as crianças têm mais de trinta e seus pais estão acima dos 60. Não importa. No entanto, é difícil não se render à ideia de imaginar que existem tantas camadas existenciais dentro desses seres amarelados. Décadas acumuladas de tantas experiências, em mais de 600 episódios, de 29 temporadas, que parecem infinitas.

Pesquisas provam que a longevidade humana tem se ampliado cada vez mais. No entanto, alguns pesquisadores tendem a acreditar que o fator mais preponderante para ir em frente é a forma como escolhemos seguir nossos caminhos. Gente que vive mais intensamente, aprendendo coisas novas e oferecendo a si mesmo experiências diferentes, em momentos improváveis, tem mais chances de ir além e estender o fim da vida. Enfim, quem tem propósitos está a fim de chegar mais longe.

O fim (propósito) dos Simpsons se desenvolveu e se transformou com o tempo. Talvez eles acabem na 30a temporada, talvez durem para sempre, talvez nos surpreenda de muitas outras formas. Talvez. O fim dessa série está nas mãos das novas gerações de roteiristas que podem trazer novo fôlego a ela. Ela começou inspirada nas experiências de Groening, mas, com certeza, possui pouco do DNA original que a criou. Se ele não tivesse permitido essa diversidade criativa, dificilmente teria atingido seu imenso sucesso. O fim dos Simpsons dependerá da coragem em continuar a ler a realidade, oferecendo perspectivas, às vezes prevendo o futuro, em meio às mudanças que acontecem, hoje, cada vez mais rápidas.

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