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O século XX tem uma dívida com Les Paul

Para nós, que vivemos no meio da cultura pop, é simplesmente impossivel imaginar como seria o mundo se Lester William Polsfuss não tivesse aparecido em 09 de junho de 1915. Músico e inventor, criou equipamentos e processos sem os quais não existiria a gravação em estúdio tal como a conhecemos. Não foi o primeiro a desenhar a guitarra elétrica (embora tenha bolado um sistema de amplificação em 1939), mas desenvolveu no inicio dos anos 50 um modelo de corpo sólido que hoje é um clássico, e abriu uma fábrica para produzí-lo. É ela, a guitarra Gibson Les Paul, quem divide com a Fender o lugar de mais icônico fetiche do rock’n’roll – e sem ela o som gordo do rock definitivamente não seria o mesmo.

Pois hoje ela está chorando, já que morreu seu criador, aos 94 anos, vitima de pneumonia. 94, mas ainda tocava nos bares e casas noturnas de Nova York, especialmente o Iridium, na Times Square (“tocar me dá um bom motivo para levantar da cama”). Isso apesar de Les Paul ter tido artrite tantas vezes que, no fim da vida, tocava praticamente com apenas 2 dedos na mão esquerda. Dizia que a artrite o obrigara a reaprender seu instrumento 3 ou 4 vezes, do zero. O que não deve ter sido mais dificil do que bolar e executar a miríade de artimanhas que definiram, tecnicamente, o que viria a ser um estúdio moderno: o sistema de gravação em multi-pistas (separando os instrumentos – antes tudo era gravado em mono), o overdubbing (técnica de gravar a si mesmo em camadas, uma sobre a outra, em uma soma de takes), o equalizador por bandas de frequência (para compensar as perdas na região dos agudos, que ocorriam nos overdubs – thanks, Nuno!) ou efeitos como o delay (ou eco, conseguido inicialmente através de um mini-gravador de fita rodando em loop, o tape delay) e o phaser (uma espécie de delay com centésimos de segundo de atraso). Só pra se ter uma idéia, sem o sistema multi-pistas não existiriam os Beatles (pelo menos não as genialidades de George Martin). Sem o delay não existiria o dub jamaicano (e consequentemente boa parte da música eletrônica, do pop contemporâneo e do remix). E sem a Gibson Les Paul, bem…

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Escrito por Marcos Azambuja

é músico, compositor e produtor musical

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