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Porque as pessoas adoram fazer um drama

Raciocínio de Kurt Vonnegut, novelista americano.

As pessoas escutam estórias fantásticas desde o começo dos tempos. O problema é que elas acabam achando que a vida real tem que ser como essas estórias. Vejamos alguns exemplos.

Cinderela.

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Começa com uma vidinha besta, esfregando banheiro e com umas  irmãs totalmente do mal. Aí ela recebe um convite para um baile e as coisas começam a melhorar. Até surge uma fada para fazer um extreme makeover, pô, sensacional. Chegando lá, rola uma valsinha com ninguém menos que príncipe himself. Não dá pra ficar melhor. Mas aí bate meia-noite e ela tem que voltar a vidinha ordinária de sempre (um pouquinho melhor pela experiencia). E quando o conformismo parece ser a única possibilidade, din-don! , o príncipe chega para o resgate e viveram felizes para sempre.

Agora, vamos avaliar outro estilo bastante popular, o desastre, o mundo-cão (as TVs abertas fazem milhões de reais todas as tardes com esse tipo de estória, contadas por grandes storytellers do submundo, os Datenas da vida e seus clones). Funciona assim:

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Um dia comum, numa cidade comum. Uma criança cai dentro de um poço. A cidade inteira se mobiliza para salvá-la. Diferenças são deixadas de lado e todos trabalham em sintonia. A criança é salva e tudo volta ao normal, um pouquinho melhor do que antes,  pela experiência coletiva.

O problema é que a vida real é um pouquiiiiinho diferente. É assim:

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Uma vida normal, com seus altos e baixos. Mas que em 99% do tempo não tem nada tão maravilhoso ou tão terrível que possa ser transformado em uma estória  a ser repetida por milhares de anos. Porém,  como crescemos cercados por essas narrativas intensas e maravilhosas (cinema, tv, livros, propaganda, gente showing-off, etc, etc) a gente acaba achando que a nossa vida também deveria ser assim. Então, pra não achar que as nossas estórias são flats, o negócio é colocar drama onde não tem.

Claro que o artigo não é uma crítica, nem é pra ser levado a sério como se fosse uma tese acadêmica. E claro que tem um monte de gente vivendo verdadeiros dramas, diariamente. Mas o artigo não é sobre isso, tem apenas a pretensão de ser um raciocínio interessante sobre a vida ordinária, comum. Afinal, difícil negar nossa expectativa por finais felizes em tudo. Até o budismo, por exemplo, também explora isso colocando sofrimento como causa direta de expectativas e apegos exagerados. Acho que os gráficos são divertidos, nem que seja para se concluir que a vida não precisa ser uma montanha-russa de emoções para ser intensa. E melhor ainda: que as coisas mais maravilhosas e realmente importantes têm muito mais a ver com o significado que nós mesmos damos a elas.

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Escrito por Wagner Brenner

Fundador e editor do Update or Die!

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