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Coito Mental Interrompido | O Efeito Zeigarnik

Ah, o tédio. Sempre contribuindo com a evolução humana, como bem sabia Dorival Caymmi.

Voltemos pois para 1927, quando Bluma Zeigarnik , essa bonita russa da foto, almoçava sozinha em um restaurante em Viena. Entediada, começou a reparar nos garçons e percebeu uma dinâmica interessante. Os pedidos em andamento estavam sempre sob controle. Mas parecia que os pedidos entregues simplesmente evaporavam da memória dos garçons.

Bluma era psicóloga e resolveu explorar isso um pouco mais a fundo. Chamou umas pessoas e pediu que fizessem uma série de tarefas como contas, quebra-cabeças, etc. Algumas dessas tarefas eram interrompidas no meio. E depois de alguns dias, eram justamente as inacabadas que as pessoas lembravam logo de cara. Eram pelo menos 2x mais lembradas que as outras.

Assim nascia o Efeito Zeigarnik que talvez você não reconheça pelo nome, mas é um velho conhecido seu. É um dos truques mais antigos da indústria do entretenimento. Acho que a primeira vez que vi foi num episódio do Batman. Ele e o Robin amarrados, a serra giratória chegando devagarzinho, e de repente… “continua no próximo episódio”. Como assim? Aaargghh!  Pronto, a cena interrompida boiando na minha cabeça por uma semana.

Depois, sofri com esse Zeigarnik muitas e muitas vezes. Em novelas, seriados, samples de livros na Amazon. E no Lost então? Lost devia se chamar Zeigarnik.  É um passo além do  teaser, porque além de gerar o suspense, deixa a gente provar um pouquinho. É a técnica do traficante.

Entre o pessoal de TV e cinema, o Zeigarnik é conhecido como CLIFFHANGER (uma alusão ao clichê do escalador que cai, a imagem congela + mensagem “to be continued’).

Charles Dickens usou o truque quando escreveu Oliver Twist (originalmente distribuído em capítulos) e ficou famoso por causar frequentes multidões de leitores no Pier de NY esperando os navios ingleses chegarem com as sequencias do livro.

Hoje o fenômeno é usado e estudado não apenas para amarrar gente (a paciência acaba uma hora) mas principalmente como um componente motivacional. É o poder do “unfinished business” e dos “open loops”. E é forte.

Vingança? Unfinished Business. Crimes passionais, vidas doentias dedicadas a questões que ainda não foram fechadas.

Terapia? Unfinished business.

Fantasmas? búú… dizem que também é.

Jumps em posts? Clica! Clica!

Já se sabe, por exemplo, que um coitus interruptus com uma de nossas “obsessões vigentes” simplesmente URRA para não ser interrompido. Quantas vezes não ficamos bravos porque o corpo não aguenta mais e precisa fazer algo totalmente dispensável como, sei lá, dormir? Como assim corpo? Justo agora que apareceu esse monte de links com uns bootlegs raríssimos da turnê de 84 do Zappa? (opa, peraí. Esse sou eu, desculpe).

A russa bonita sacou tudo em 1927.

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Escrito por Wagner Brenner

Fundador e editor do Update or Die!

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