A utilidade (ou não) da morte versão pop

“Quem ensinasse os homens a morrer os ensinaria a viver”. (Montaigne)

Antigamente, quando as pessoas morriam em casa, havia um convívio natural com a morte. Depois, quando a morte foi terceirizada, exportada para os hospitais, isso parou de acontecer e, pela lógica de Montaigne, paramos de aprender sobre a vida. Ouvi isso certa vez em um debate de cientistas sociais (não lembro se sociólogos ou antropólogos, nem lembro quando e onde, perdão). Ocorre especialmente no Ocidente, onde a ordem é excluir a morte do nosso pensamento pelo maior período de tempo possível. (Um monte de gente pulará este post, por exemplo, e eu não condeno porque provavelmente faria o mesmo, porque tendo a fugir do assunto como dizem que o diabo foge da cruz; o problema é que essa negação, além de aumentar nosso medo inconsciente da morte, talvez nos faça viver pior do que podemos.)

No entanto, de alguma maneira, parece que a morte volta a fazer parte das nossas vidas. E, melhor, como retomada da lei de Montaigne, uma retomada iniciada talvez, de maneira tímida e passiva, com os livros de “coisas para fazer antes de morrer” e que agora ganha mais força com instalações urbanas interativas como essa “Before I die” da Candy Chang em Nova Orleans, EUA, e em sites interativos como o Before I die I want to. No site, que é de 2008 ou anterior até, as pessoas registram, em foto polaroid legendada, o que querem fazer antes de morrer, e os idealizadores do site se comprometem a conferir em cinco, dez, quinze anos etc., se os quereres prevaleceram.

O que quero dizer é que isso pode ser um resgate da morte em nossas vidas. (Nem é o resgate da morte em si, acho; é o resgate da consciência da própria mortalidade – nossas células morrem todos os dias, afinal; vivemos morrendo e morremos de vida, alguém disse. Talvez essa consciência nos ajude a usar a morte em benefício da vida. Xis.)

UPDATE: Na infância, lembro de ter ouvido a expressão “Fulano morreu de morte morrida”. Acho que só agora entendi todas as suas profundezas (intencionais ou não). Vai ver que, com o revival pop do Montaigne, daqui a um tempo se dirá “Fulano morreu de vida vivida”.

Depois do jump, mais uma observação despretensiosa e um vídeo sobre o site mencionado.

A observação: a morte a distância, encenada nos filmes ou vista em imagens jornalísticas na TV – de gente comum, como os japoneses nesse trágico terremoto, ou de ídolos (incluindo a morte épica de ídolos jovens), não contribui em nada para aumentar o nosso convívio com a morte, na linha do que tinham nossos antepassados. E é pouco provável que haja uma volta à morte doméstica, não em escala, pelo menos – o que há são esses sistemas de home care para os dias finais.

O vídeo: eis o youtube sobre o site da morte pop que resgata Montaigne…
[youtube]http://www.youtube.com/watch?v=uvMaiftVT5Q[/youtube]

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Série do UoD que traz sempre um convidado especial para fazer um update que vale por um upgrade.

7 Comments

  1. post fantástico! fantástico! as pessoas tem medo do desconhecido e fogem de medo da morte. n param um segundo para pensar sobre o que vai ser dps disso. adriana, parabéns! 😉

  2. Valeu, Chantinon e pessoal: estou para fazer um post sobre uma pesquisa maluca que acabou de ser concluída, após 20 anos, pela Universidade da Califórnia, e esse assunto vai continuar. Nos falamos em breve.

  3. Post maravilhoso!
    Infelizmente muita gente distorce isso de viver intensamente, já que esquecemos Montaigne, mas queremos ter uma vida de BBB. Chega uma hora que esses zumbis acordam e decobrem que o intenso que viveram foi só para parecer uma propaganda de cerveja ou refrigerante. A vida é um pouco mais que isso 🙂
    Isso me lembrou “Six Feet Under”, o seriado mais macabro e cheio de vida que já vi. Pura realidade.

  4. Esta ação entra na minha categoria: Coisas que gostaria de ter feito. Belo post Dri!

  5. Difícil mesmo falar sobre a MORTE e principalmente vivencia-la, mas todo ser vivo está sujeito a isso e muitos esquecem. Já cheguei a pensar em diagnosticar todo mundo com uma doença terminal, e talvez assim muitos viveriam melhor…trabalhariam menos até tarde, passariam mais tempo com as pessoas que amam, curtiriam VIVER de fato.

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