O fim do Kodachrome

Outro dia, conversava com amigos e surgiu na mesa uma nostalgia coletiva que até então pensava ser assunto quase particular. Estávamos os três tentando resgatar uma memória olfativa de infância, o cheiro tão característico do revelador e do fixador. Sim, porque antes as fotografias precisavam ser reveladas e fixadas e esse processo todo tingia o ar de um cheiro maravilhoso. Hoje, o revelador nada mais é que a telinha da câmera digital e o fixador, o backup do arquivo no computador.

E eis que um tradicional laboratório americano, Dwayne’s Photo, afirma em seu site que revelou o último rolo de Kodachrome no dia 30 de dezembro de 2010. O filme, lançado na década de 30, mas com a aura colorida e saturada dos anos sessenta e setenta, pode ser considerado um dos grandes clássicos da Kodak e da história da fotografia com F maiúsculo.

Assim, quase que junto com útlimo pouso da Discovery, o último Kodachrome (que já não é fabricado há anos), revela seus contornos finais. Não é de se espantar, em uma época tão novidadeira – quando um iPad de menos de um ano de vida torna-se instantaneamente obsoleto com a chegada de sua versão 2.0 – que tantas coisas sejam veladas e enterradas. A fila anda.

Nos anos 50, Ansell Adams produzia suas imagens icônicas do Parque Estadual de Yosemite, na Califórnia, sua máquina fotográfica era uma engenhoca de madeira e fole de couro, mas que o resultado final continha 100 vezes mais informação (resolução) que uma câmera SLR top de linha dos dias de hoje, como a Canon EOS 5D ou a Nikon D3.

Muitas das Leicas fabricadas durante a Segunda Guerra Mundial ainda funcionam perfeitamente, enquanto que câmeras digitais de pouco mais de cinco anos já estão obsoletas e incompatíveis com os nossos computadores novos. Quantas câmeras digitais completarão dez, vinte ou cinquenta anos? Suas baterias resistirão à prova do tempo?

Mesmo assim, a fotografia do grão de prata vai dizendo adeus. Rei morto, rei posto. A fotografia morreu, viva a fotografia. Quando surgiu a foto com pixel, dizíamos que havia a fotografia e a fotografia digital. A partir de agora, a história muda. Temos a fotografia e aquela outra, a fotografia analógica.

(Este texto foi postado originalmente aqui, mas achei que uma versão um pouco modificada seria legal no UoD também.)

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Série do UoD que traz sempre um convidado especial para fazer um update que vale por um upgrade.

5 Comments

  1. Maravilhoso o texto, James! Por mais que eu racionalize e pense que nada é para sempre, dá tristeza, pois fotografia é nossa memória, uma das coisas mais sentimentais que possa existir (falando de hoje em dia, pois esse papo não faria sentido para alguém vivendo há 160 anos atrás, tempo em que a pintura e a literatura concentravam os afetos das pessoas).

  2. Pronto, Lorenzo. Deu até para incluir umas piadinhas. Vê se melhorou! hehe

  3. Vou ver o que faço por você, Lorenzo.

  4. james, sei que dá trabalho…
    mas seria excelente ums hyperlinks pra algumas das imagens, nomes, etc… rola? rs…

  5. Bem, alguns de nós ainda chutamos com os dois pés – com Rebel XS e com Lomography.

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