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Joybubbles, a incrível história do cego que hackeava telefones com seu assobio

Joy Bubbles era um cego que usava seu assobio para hackear linhas telefônicas.

Na década de 60 e 70, toda a rede de telefonia americana funcionava através de sinais sonoros.

E com 5 anos de idade, o pequeno Joybubbles (que na época ainda era Joe Egressia), descobriu que ao apertar uma sequencia de teclas no telefone da sua casa ouvia um sinal sonoro, que aprendeu a reproduzir, assobiando.

Ele não sabia, mas tinha nascido com a habilidade da afinação perfeita e conseguia assobiar exatamente na mesma frequencia do telefone: 2.600 Hz.

Logo percebeu que seu assobio derrubava e conectava ligações com outras pessoas, um tipo de hack telefônico chamado Phone Phreaking, apesar dele nem imaginar o que estava fazendo.

Foi uma das poucas alegrias de uma infância prá lá de complicada.

Como se a cegueira não fosse um problema grande o suficiente,  Joe foi abusado sexualmente por uma freira (!) na escola de deficientes visuais que frequentava. Mesmo dentro de casa sua vida era muito ruim, porque seus pais brigavam constantemente. Os sons, muito mais presentes e marcantes por causa da cegueira, eram terríveis. Gritos, discussões, tapas, pratos e copos quebrando.

O telefone passou a ser seu melhor amigo, uma forma de escapismo dessa realidade barra-pesada, um porto-seguro, uma ancoragem típica de criança em um processo traumático.

“Eu costumava colocar o telefone no ouvido para ouvir o sinal da linha. Aquele som suave e contínuo, estava sempre lá. Que coisa maravilhosa é um telefone”.

[audio:http://artofhacking.com/files/sounds2/DIALTONE.MP3]

O que Joe não sabia é que tinha nascido também com uma inteligência privilegiada e cresceu aprendendo tudo muito rápido. Na década de 60, entrou para a Universidade da Florida e ganhava dinheiro fazendo ligações interurbanas para os colegas, por 1 dólar, sempre na base do assobio. Virou o “whistler”. Em 1971, uma telefonista descobriu seu truque e depois de ser monitorado pelo FBI, Joe foi suspenso da universidade e foi parar na prisão, onde cumpriu uma pena de 6 meses.

Em 1982, provavelmente por uma overdose de situações traumáticas, resolveu fundar sua própria igreja, chamada “Church of Eternal Childhood” (Igreja da infância Eterna), que incentivava as pessoas a resgatarem e re-viverem suas infâncias. Passsava os dias lendo histórias para crianças em bibliotecas e passou a fazer ligações telefônicas diárias para crianças doentes, em estado terminal, no mundo todo.

Em 1988, mudou seu nome oficialmente para Joybubbles e declarou ter 5 anos para sempre. Uma coisa meio Michael Jackson.

Passou um mês inteiro em um projeto pessoal na Universidade de Pittsburgh assistindo centenas de episódios do programa infantil Mr. Roger’s Neighborhood, financiado com dinheiro que juntou participando de testes de olfato e odores, cheirando estrume de porcos.

Dizia que adorava o cheiro de cloro em piscinas e o som de persianas balançando ao vento.

Virou uma figura pública. Deu entrevista para Esquire, que abriu as portas para muitas outras. Steve Wozniack declarou que Joe foi um de suas primeiras inspirações (por causa do Blue Box). Serviu de inspiração também para o personagem “whistler” no filme  Sneakers.

Nos seus últimos anos de vida, criou um programa chamado “Stories and Stuff” (ouça alguns aqui), que transmitia usando uma secretária eletrônica. Bastava ligar para ele, e ouvir. Foi o primeiro podcast da história.

Criou uma linha chamada “Zzzzyzzerrific Funline”, para ser o último número da lista telefônica e mais fácil de achar (SEO!).

Mas no meio de tanta coisa bizarra na vida desse cego de Virginia, nos Estados Unidos, o que sobra mesmo é uma história de superação de solidão e de deficiências. Um ser humano que nasceu algumas décadas antes do que teria sido o paraíso para ele.
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Hoje temos Skype, voip, mensagens instantâneas, podcasts e redes sociais.
Joybubbles ficou 6 meses preso por hackear ligações telefônicas, que hoje fazemos de graça.
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Hackeou o mundo de dentro da sua casa, há mais de 50 anos, usando apenas o telefone, uma secretária eletrônica e a elegância de um assobio perfeitamente soprado à 2600HZ.
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Abaixo, um programa do RadioLab dedicado a Joybubbles:

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Escrito por Wagner Brenner

Fundador e editor do Update or Die!

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