Tédio

[su_heading size=”26″ align=”left” margin=”0″]Não me lembro de ter sentido tédio nos últimos 10 anos. Pensei nisso quando recebi o convite para o texto e achei interessante.[/su_heading]

O caminho óbvio seria escrever sobre a quantidade enorme de estímulos que recebemos hoje.

E nesta pseudo causa — a de excesso de estímulos — automaticamente cair nas também óbvias pseudo consequências: a falta de atenção, de capacidade dos jovens para se concentrar, do desaparecimento do ócio criativo e até mesmo a falta de resiliência da geração Z (profundo e charmoso este).

Mas não sei. Esse lance do tédio ter morrido. Não sou parâmetro. E acho que boa parte das pessoas que, assim como eu, gostam de um lugar cujo nome é Update or Die, também não.

Desconfio que adolescentes continuam sentindo tédio, mesmo com Netflix, iPod, iPad, PS4 e, sem esquecer, acesso fácil a pornografia.

Desconfio que muitos continuam sentindo tédio diariamente, trabalhando em um lugar que não os estimula recheado daquelas reuniões sem sentido.

Desconfio que milhares de alunos continuam sentindo tédio, frequentando aulas com professores e matérias que não evoluiram no último século.

Concluo então que discutirmos sobre tédio seja apenas nosso lado velho com dificuldades para entender a enorme mudança que a internet trouxe nos últimos 10 anos.

Talvez o tédio tenha morrido em mim. Mas ainda assim não consigo ver relevância no tema.

Acredito que essa preocupação com o tédio é similar a muitas outras que surgiram nos últimos anos, naturais em uma curva de aprendizado e aceitação do mundo novo.

O problema é quando discutimos temas importantes apenas com olhar antigo, disfarçando com maturidade o que é apenas resistência ao novo.

Nesta levada, vejo muitos discutindo como o Facebook e aplicativos de iPhone colhem nossos dados e poucos discutindo questões mais profundas de privacidade como a comercialização ilegal de dados da Receita Federal, Detran etc.

Vejo mega discussões sobre o risco de escutarmos apenas o que queremos ouvir porque excluímos quem diz o que não gostamos na timeline do Facebook e porque o Google só nos mostra o que ele acha que vai gerar cliques. E geralmente o interlocutor é alguém que vivenciou uma época que só tinha meia dúzia de revistas, jornais e emissoras de TV, que determinavam até mesmo o nosso senso estético.

Reclamamos de como a discussão política está binária ao invés de enxergarmos a beleza (e oportunidade) de termos pela primeira vez no Brasil, mais de cem milhões de pessoas de praticamente todas as classes se interessando e discutindo política.

Semana passada soube de um grupo de mães que surtaram no zapzap ao descobrirem uma tal de deep web. A maioria correu para uma solução de software que promete bloquear todos os perigos, como se a deep web fosse um vírus. Aposto que a maioria nem sabe que pelo menos 10 crianças na mesma classe usam o Snapchat e que para essa idade talvez isso seja mais arriscado que a deep web. Poderia inclusive apostar que a maioria nem mesmo sabe o que é Snapchat.

Não vejo em grupos similares ninguém tentando entender como os pais poderiam se relacionar mais com seus filhos e participar do processo de educação e das inúmeras dificuldades em se fazer isso hoje. Gente que escolhe com muito cuidado o cinema ou o destino das férias dos filhos preocupados com a educação mas nunca assistiu um “episódio” do youtuber favorito do filho. Limita o tempo de jogo mas nunca jogou uma partida do jogo preferido do filhote.

Saímos da época onde só precisávamos saber onde estava o peixe. Quando a pauta da semana era ditada pelo Fantástico, Veja e Manchete. Não era um defeito nosso, as grandes mudanças demoravam 60 anos para acontecer. A internet tem uns 30 anos. Comercialmente falando, tem 20. Porém, a grande mudança veio nos últimos 10. E enquanto tentamos digerir isso, muita gente (eu inclusive) está propagando uma nova onda. As próximas ondas serão igualmente rápidas e disruptivas. Agora precisamos aprender a pescar, mas nem ao menos conseguimos perceber isso.

O tédio pode ter morrido, mas se você for no velório, vai encontrá-lo mais vivo do que nunca.

Sugiro ocuparmos nosso tempo com outra discussão.

 

Ilustração: Marcelo Braga

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Ricardo Cavallini
Cavallini é fundador do Makers, plataforma de educação e inovação focada na prototipagem e desenvolvimento de produtos para a nova Revolução Industrial. Autor de 6 livros que abordam comunicação, negócios e tecnologia, sua atuação abrange várias áreas, disciplinas e indústrias. Fundou a primeira agência digital do Brasil, foi Diretor de Mídia da F/Nazca Saatchi & Saatchi, Diretor de Operações da Euro RSCG 4D, Diretor de Planejamento da W/Brasil, Diretor de Engenharia da Organic inc. e Vice Presidente de Convergência da WMcCann.
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