Por mais dúvidas e menos certezas na timeline

[mks_pullquote align=”left” width=”300″ size=”24″ bg_color=”#000000″ txt_color=”#ffffff”]”Eu quase que nada não sei. Mas desconfio de muita coisa” Riobaldo[/mks_pullquote]Meu Facebook parece uma Enciclopédia Britannica em tempo real.

Aposto que o seu também.

Todas as timelines vivem abarrotadas de posts que parecem verbetes: cheios de certezas perpétuas, pensatas de nariz empinado e teses definitivas sobre o assunto do dia – pouco importa qual seja o assunto do dia. O suposto conselho virtual de notáveis pode não saber de nada, mas tem opinião sobre tudo.

Operação Lava Jato prende mais figurões? Fica tranquilo, o veterinário do seu gato acaba de publicar uma análise completa da conjuntura política. Com destaque para nuances do direito constitucional, independência dos três poderes e uma citação sobre a virtude atribuída a Aristóteles.

Os terroristas do Estado Islâmico atacam novamente? Ainda bem que você pode contar com o conhecimento de geopolítica do Oriente Médio e de religiões monoteístas daquele engenheiro civil, que por alguma razão desconhecida pediu para ser seu amigo e, por motivos ainda mais obscuros, você aceitou.

Começou a circular uma nova hashtag feminista? Pode se preparar para o rescaldo: uma interminável sequência de textões catequizadores. Todos se atacando mutuamente, sem que um se dê ao trabalho de tentar entender as razões do outro, ainda que todo mundo acabe citando a Judith Butler.

O tal vírus Zika assola o país? É a deixa para o pacato crítico de música pontificar sobre epidemiologia, transmissão vertical, florestas em Uganda, Aedes aegypti, políticas públicas de saúde e microcefalia. Se ele se atrapalha para identificar um dó maior, parece capaz de diagnosticar um caso de chikungunya com apenas uma nota.

Essa epidemia de sabichões também provoca encolhimento cerebral – ao menos metaforicamente. Afinal, o autoungido especialista e o tema em questão não se conheciam até dois links atrás.

Sim, basta um clique aqui e outro ali para acreditar que cursou uma pós-graduação stricto sensu instantânea. E tanto faz se foi no blog de um moleque de 11 anos do Arkansas ou na página de pesquisas do MIT. O que deveria ser um processo de aprendizagem se transforma num Miojão de palpite.

A abundância de informação é a melhor novidade destes tempos. Seu efeito colateral, a ansiedade de informação. O sintoma mais comum? Uma necessidade compulsiva de dizer publicamente o que se pensa sobre qualquer coisa – e, de quebra, enxovalhar quem tiver a ousadia de botar reparo no que foi dito.

Resultado: o rompimento da barragem do bom senso e um previsível rio de rejeitos mentais escorrendo por todo canto. Mas ninguém fica vermelho se a realidade, sempre ela, desmentir o que foi escrito: a foto do perfil vai continuar mantendo aquela pose de Mestre dos Magos em visita à Singularity University.

O mundo fica mais polarizado quando existe muita certeza e pouca dúvida, na sua timeline ou na vida como ela é. Duvide mais, duvide melhor.

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Fernando Luna

Na dúvida, Fernando Luna acha melhor duvidar. É jornalista, sócio e diretor editorial da Trip Editora, onde cria e desenvolve conteúdo para tevê, eventos, digital e revistas.

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Fernando Luna
Sócio e Diretor Editorial da Trip Editora, onde é responsável por publicações impressas e digitais como TPM, Trip, Gol, Audi, Itaú, C&A, Pão de Açúcar, Natura e Ambev, entre outras. Antes trabalhou na Editora Abril, nas redações de Veja, Elle e Capricho.

6 Comments

  1. Bruna Pontes Sobre o que estavamos falando um dia desses

  2. Aquela velha confusão: liberdade de expressão X necessidade de expressão.

  3. Aquela velha confusão: liberdade de expressão X necessidade de expressão.

  4. Aquela velha confusão: liberdade de expressão X necessidade de expressão.

  5. Aquela velha confusão: liberdade de expressão X necessidade de expressão.

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