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Admirável Mundo Novo – Assustadoramente Atual

(Sim, a foto em destaque vai ser do Iron Maiden e foi o album que me fez começar a curtir heavy metal)

Quase todo mundo que leu Admirável Mundo Novo ficou estarrecido com a crueldade da seleção genética e do condicionamento, químico e subliminar, a que todos os embriões eram submetidos.

Essas medidas garantiam a estabilidade ao submeter cada pessoa a uma função para a qual era programada para aceitar, assim todo mundo era feliz.

Huxley o escrevia no começo da década de 1930 e o escrevia como uma crítica sombria ao emergente sistema comunista da União Soviética.

Hoje, 80 anos depois, parece que esse caminho em que cada um já faz parte da engrenagem do Estado antes de nascer sob uma administração comunista não é bem o rumo que o mundo tomou.

No entanto, é assustador ver no mundo real tantas das coisas que o livro descrevia e, mais assustador ainda, não têm nada a ver com regimes autoritários e totalitaristas.

Vamos lá:

1. O controle da população se dá pelo fluxo constante de entretenimento: em Admirável Mundo Novo, ou se está trabalhando ou se está fazendo alguma coisa. Não há tempo para parar e pensar, para descansar a cabeça ou só apreciar a natureza. É fluxo constante de informação, que entope os canos da cabeça e evita que ideias “perigosas” passem por lá.

Não faltam artigos e estudos sobre nossa fadiga constante ou os problemas do excesso de informação.

Olha que o Huxley nem teve a visão do que seria a internet!

2. “Sexo, Drogas e Rock ‘n’Roll” são meios de controle: o que mais me assustou desde sempre no livro é que o ideal da libertação da contracultura dos anos 1960 eram as ferramentas usadas para deixar todo mundo tranquilo. Hoje? Temos o Tinder, o Happn, um monte de substâncias para “ficar de boa” (e incluo aqui uma frase que ouvi de um profissional em começo de carreira: “Bebo no final de semana inteiro pra descansar da rotina pesada do trabalho”) e a música, bem, tem sido feita para ser consumida em alguns meses e depois ser substituída (como mostra o gráfico de decay dos plays dos hits recentes aqui).

3. A solidão é ruim; deve-se criar senso de comunidade: ok, eu realmente concordo com essa afirmação (alguém precisa ser louco pra discordar). Mas será que esse senso de comunidade realmente se alcança somente com redes sociais online? Muita gente tem se voltado para práticas comunitárias que lidem com esse mal sem nome dos dias de hoje e o curioso é a diferença de frentes que lidam com isso. Igrejas evangélicas, Raves, Tecnoxamanismo, até encontros de empreendedores, criadores, whatever…

4. O condicionamento para não lidar com frustrações e situações complexas: sempre paro pra assistir televisão com meu sobrinho mais novo e me incomoda a grande maior parte dos programas infantis da TV a cabo. São personagens infantilizados, preocupados quase que exclusivamente com sua aceitação pelo grupo (e de vez em quando em salvar o mundo) e que sempre se vêem em situações quase sempre preto no branco. Ou o episódio termina bem ou termina mau, não há espaço para interpretação. Poxa, quando eu era criança passava Animais do Bosque dos Vintens na TV, eram situações complexas todos os episódios, personagens queridos sendo deixados para trás…

Não saber lidar com uma situação gera frustração e se você jogar millenials+frustration vai ver como essa geração tão em foco lida com isso. É linda uma cena do livro em que Lenina tem um ataque de terror ao pairar de helicóptero com Bernard sobre as águas do mar: a simples contemplação, sem estar FAZENDO algo é inconcebível e terrível para ela.

5. mas não menos importante: O Selvagem, nossa medida de comparação poética da sociedade de Admirável Mundo Novo com nós mesmos, fica estarrecido ao notar que todos se comportam como crianças no mundo “civilizado”. Esse é um ponto delicado aqui, pois nenhum dos exemplos que eu vou dar é infantil e não é, INDIVIDUALMENTE, problemático )embora venha sendo problematizado). Gamificar tudo é legal e aumenta o engajamento? Sim. Fazer pessoas saírem de casa, andarem em parques e conehcerem outras pessoas caçando monstrinhos de videogame é incrível. Subverter a chatice e dificuldade de engajamento na educação escolar padrão ao transformar em um game também é algo muito bacana. Relaxar as regras do ambiente de trabalho para ser mais confortável é ótimo, mas tem gente que vai um pouco longe demais e o resultado me soa um tanto infantil. Temos canais e canais na internet que mastigam conteúdo mais complexo e difícil e o retrabalha com animações, linguagem simples ou tirinhas (Literatura para Apressados, Crashcourse, School of Life), adoro todos eles mas não deixo de pensar que são uma simplificação e perigosamente tomados como substitutos das obras originais por muita gente (eu incluso, não estou atirando pedra). Todas essas coisas incríveis juntas, apesar de incríveis, me levam a pensar que estamos tentando “planificar” as experiências para que não sejam difíceis e “simplificar” todo tipo de situação, para que não sejam difíceis nem tediosas. É legal mas vamos empurrando essa mentalidade pra TUDO e ISSO me parece infantilizador.

Claro, posso ser ranzinza e pessimista e estar completamente errado em toda essa visão (se eu estiver, aponte gentilmente nos comentários DESSE JEITO BONITO SEM DESPERDIÇAR) mas essa visão de Admirável Mundo Novo ainda não encontrei na Internet.

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Escrito por Leonardo Amaral

Formado em uma coisa que ninguém nunca ouviu falar, acabei escrevendo.

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