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A faminta sociedade do espetáculo

capitExiste um conceito bacana chamado “information overload” (também referenciado como “infobesity” ou “infoxication”). Ele reflete a dificuldade das pessoas nos dias de hoje em processar (o que significa entender e poder tomar decisões a respeito) a quantidade de informação produzida no mundo – a expressão foi usada pela primeira vez em 1964 no livro “The Managing of Organizations”, de Bertram Gross – Obrigado Wikipedia! 🙂

De fato, desde que o fluxo de dados passou a ser conectado em rede, a quantidade de “coisas” que circula por aí cresceu absurdamente. Entre aspas pois não estou julgando a qualidade ou utilidade destas ‘coisas’, temos desde o impacto da descobertas de ondas gravitacionais a um gatinho tocando teclado.

Parem as prensas! Quer dizer, mudem o destaque da home!

Apesar do desafio em separar o joio do trigo no julgamento da relevância das informações, o ser humano insistentemente busca alcançar o estado de mundo mais recente, estar ali, coladinho com as últimas novidades, com o novo meme, com o bordão da semana (dia?).


Miooolos Conteúúúúdo!

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Isto gera uma corrida contra o tempo de ambos os lados; como zumbis em busca de miolos, muita gente querendo consumir informação constantemente (arrastando o dedinho na tela) e muita gente buscando gerar cada vez mais matéria-prima para a sociedade do espetáculo, sejam YouTubbers, bloggers, empresas de notícias (ou o gatinho, que aprendeu uma música nova no teclado).

Só temos dois probleminhas: primeiramente, o nível de “wow” das informações é como um vício em narcóticos, com o passar do tempo aquela mesma dose deixa de fazer efeito; a presumível solução dos publishers foi apelar para o sensacionalismo, ainda que o fato em si não seja em nada sensacionalista.

O segundo desafio está ligado à constante necessidade de estímulo. Em um momento filosófico, citando Jean-Paul Sartre, “Se você sente tédio quando está sozinho é porque está em péssima companhia“.

Os indivíduos perderam a capacidade de sentir tédio e, no entendimento do filósofo norueguês Lars Svendsen, em seu livro “Philosofy of Boredom” (Filosofia do Tédio, em tradução livre), o resultado é a compulsão; vícios que atuem nos neuroreceptores cerebrais (em especial a Dopamina), mantendo um nível de prazer mínimo esperado pelo organismo. E qualquer obsessão pode empurrar a fronteira do que é ético, moral – nas palavras de Svendsen, “Pessoas com baixa tolerância ao tédio têm mais chance de cometer atos violentos do que quem o tolera mais” –  ou, sendo menos dramático, supervalorizar o banal e a compulsão para julgar relevante aquilo que nem sempre o é.

Quando o trivial vira notícia

O jornalista norte-americano John Bogart é o autor de uma frase ensinada no pré-básico-maternal dos cursos de jornalismo: “se um cachorro morder um homem, não é notícia; se um homem morde um cachorro, é“.

E quando ficamos sem cachorros para serem mordidos?

Sejamos francos, em um mundo hiperconectado e voraz por histórias, a quantidade de fatos que merecem ser noticiados é menor do que as notícias em jornal de cidade do interior. A solução? Tornar o trivial, notável.

Todos devem se lembrar da foto abaixo, exaustivamente veiculada, onde o Sr. Shaun Cunningham, morador da Flórida, usou seu braço para proteger o pequeno e inocente Landon, de apenas 8 anos, de ser atingido por um taco de baseball que, inadvertidamente, voou em direção à arquibancada em um jogo entre o Atlanta Braves e o Pittsburgh Pirates.

Tenho que concordar, a foto é ótima! Mas esta atitude paterna “normal” se torna notícia quando há potencial para expandir a história além do fato central. O heroico (agora, sem acento) pai contou ao New York Times que, desde então, sua vida tem sido fora do comum em função do assédio da imprensa. Todos querendo saber o que mais pode ser explorado por este fato. O cuidado constante dos pais? O moleque usando o celular ao invés de ver o jogo? O risco dos bastões-voadores no jogo de baseball?

Pessoalmente, acho que o verdadeiro herói (esse tem acento) é este senhor, mestre Jedi, que, com seu domínio da força, afastou o taco sombrio da força…

Com sabedoria, usar a Força você deve.

Suas histórias podem estar ao seu redor

Para planejadores de conteúdo, todo fato gera ao redor dele uma série de outros temas secundários. É o que chamamos de ‘conteúdo orbital‘, ou seja, que orbita o fato principal, faz referência a ele, mas desenvolve toda uma nova linha de argumentação (e, em um mundo conectado, novas possibilidades de discussões e compartilhamentos).

No marketing de conteúdo, um produto isoladamente pode não ser nada interessante para comunicar (99% dos produtos são mais do mesmo, ou seja, não trazem uma inovação real reconhecida pelo consumidor médio). Mas, ao redor dele, orbitando este pedaço de ‘coisa’, existe um universo a ser explorado (e, por que não, apropriado) por marcas.

Os maiores desafios: ter conteúdo de qualidade e de maneira contínua

Se falta combustível para seu storytelling, avalie o que há ao redor de seu produto; que universo ele habita? Que relação ele tem com aspectos da vida diária de quem o consome?

A razão de existência de seu produto/marca pode estar orbitando o conjunto de metal, plástico e borracha que sua equipe de vendas e marketing está preocupada em empurrar goela abaixo de um público que já tem informação demais para lidar no dia a dia.

Ampliar a visão para além do umbigo aspecto direto relacionado ao produto pode criar novos horizontes para sua marca na busca pela razão de sua existência.

Ou você acha que a Coca-Cola realmente vende um líquido preto com gás dentro de uma lata?

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Contributor

Written by JC Rodrigues

JC Rodrigues (jcrodrigues.net) é mestre em Comportamento do Consumidor (com estudos sobre carros autônomos e seres artificiais), palestrante, especialista em storytelling, negócios digitais e impacto da tecnologia no comportamento humano.
Professor de Storytelling e do MBA em Comunicação Digital na ESPM, tem uma pug chamada Maya, publicou cinco livros sobre comportamento e tecnologia e, durante as crises de abstinência, escreve artigos despretensiosos a respeito da interação entre o ser humano e máquinas.

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