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House of Cards, Netflix e a coragem do Branding

Ao contrário do que possa parecer, este foi o primeiro ano que a Netflix aparece no relatório top 100 da Interbrand. Está tímida, até. Lá na posição 78. Mas ainda assim, uma marca que tem mostrado sua relevância por ser disruptiva em um mercado pra lá de tradicional.

É clichê os empresários em reuniões estratégicas mencionarem as marcas UBER, AIR BNB e NETFLIX. O blá-blá-blá nesses encontros é sempre o mesmo: como marcas que nos são referência podem inspirar nossas ações.

Mas parece uma coisa de esquizofrênico: quanto mais se fala das marcas de referência, menos se inspiram nelas.

Já participei de dezenas de reuniões com este mesmo perfil. Anotei no caderno as diversas ações a serem tomadas, estratégias, planos… mas depois, a rotina demonstra que a inspiração fica com os pés grudados dentro da sala de reunião. Toda vez que se volta lá, voltamos a encontrá-la.

Branding é também coragem.

Existe um pensamento medíocre rondando as empresas que acredita que só as grandes marcas é que realizam grandes ações. Mas isso é absolutamente errado. Na verdade são com grandes ações que construímos grandes marcas.

E coragem é o que mais falta para tomar grandes decisões.

Mas o que a Netflix tem a ver com isso!?

Está rolando uma série de denúncias contra Kevin Spacey. O controverso e maléfico Frank Underwood de House of Cards não tem se mostrado flor que se cheire na vida real. As acusações são de assédio sexual, vindo de diversas fontes. Mas, além disso (já que a indústria de cinema está saturada desse viés sexual) o ator tem “criado um ambiente tóxico” no set de filmagem de House of Cards.

A Netflix tomou uma medida rápida em relação a isso. Demitiu (!) Kevin Spacey e disse que não trabalhará em nenhum projeto no qual ele esteja envolvido.

Mas aí, você me pergunta: e a tão aclamada série?
Pois é! Aí é que está a dose de coragem.

Netflix uma vez publicou os seus valores: produtividade, criatividade, inteligência, honestidade, comunicação, paixão, altruísmo e confiança.

Acontece que eles decidiram viver de fato esses valores (ao invés de apenas pendurar quadros bonitinhos para funcionários verem). Suas decisões baseiam-se em seus valores, e não o contrário. E mesmo com um produto (House of Cards) de tanto sucesso, receita, potencial para atrair novos clientes, alcance e relevância global… eles preferiram abrir mão do ator principal da série, a ponto de repensá-la por completo, para não abrir mão de seus valores.

Está aí uma coragem mais do que comprovada.

Enquanto isso, o empresário médio brasileiro não consegue abrir mão de um produto que vende, ou de tomar uma decisão focada, de assumir uma postura de protagonismo em seu mercado, demitir aquele gerente improdutivo, substituir pessoas tóxicas em seus ambientes, trabalhar o clima organizacional…

O máximo que conseguem fazer, quando trata-se de inovação, é imitar quando o concorrente foi lá e fez. Os diretores de RH, Comercial, MKT e Vendas apresentam ideias, e elas ficam lá, na sala de reunião, porque pensar não exige coragem, mas fazer sim!

A Netflix começou pequena, é verdade, mas grande em visão. Tem um SAC divertido e humano, é a 6ª no Brasil em satisfação de atendimento, e com passos corajosos vai alcançando relevância global.

Então agora, toda vez que você entrar naquele mesmo tipo de reunião que mencionarem a Netflix (de novo), você vai dizer o seguinte:

“Tá, mas quando é que a gente vai deixar de blá-blá-blá e ter a coragem de fazer as coisas que eles fazem?”

Das duas uma: ou você é demitido, ou aplaudido.

Se for aplaudido, tem uma chance boa de fazer aquela marca crescer.

E se for demitido?
Bem… será melhor assim.
Ninguém aguenta trabalhar com uma empresa que só tem discurso!

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Written by Thiago Balduino

Desde 2006 trabalhando com Branding. Não parece muito, mas porra! são 13 anos! E como eu amo o Branding! Todo meu trabalho é para que ele me ame de volta!

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4 Comments

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  1. Se as acusações de assédio tivessem acontecido, por exemplo, entre a primeira e a segunda temporada de House of Cards, será que a empresa teria demitido-o? No pé em que está atualmente, cansativa e desinteressante, “demitir” Kevin Spacey não chega a ser exatamente uma ousadia.

    • Será que sim? Será que não?.. Oq importa é que, como foi dito no texto, ela foi lá e mandou o cara embora. Isso é oq importa. Foi isso oq aconteceu. Ficar viajando nos “serás” é bobagem.

    • Marcos, de “serás?” eu não entendo.
      Sei que a NETFLIX estava com outro filme com o Spacey já em pós produção, chamado GORE, uma biografia, e decidiram cortar também.
      Um filme em pós produção significa toda grana investida em sets de filmagem, diretor, produção, atores, locação, roteiro…. e nem vão lançar.
      A SONY também, uma grande marca, decidiu cortar o mesmo Kevin Spacey de um filme já pronto (que inclusive pode ser um grande concorrente ao Oscar), vão regravar todas as cenas dele com outro ator.
      Então eu não sou tão cético assim quanto à coragem do branding ir na contramão da lógica meramente financeira e apostar em decisões que levem conta os valores da marca acima de tudo. É abrir mão de um retorno imediato, assumir um custo de curto prazo para garantir valor de longo prazo. Isso é branding corajoso.

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