Toda matéria que começa descrevendo uma nova plataforma que vai revolucionar a televisão (ou o rádio, a internet, o jornal, a revista…) tende a ser um pouco exagerada. Por isso optei por dizer que o app “quer” mudar a maneira que vemos televisão, e não que ele “vai” – uma vez que, num mercado impermanente tão amplo e complexo, uma coisa não necessariamente substitui a outra. Netflix, plataformas de VOD, Amazon Prime, Popcorn time estão aí para provar justamente isso.

Mas a história é: o diretor Steven Soderbergh (vencedor do Oscar de melhor diretor por “Traffic” – em 2000 e indicado a melhor Melhor Roteiro Original por “Sexo, Mentiras e Videotape” – em 1989), é o responsável pela criação do Mosaic, um app interativo para smartphones que nasceu dentro do seu loft, no Chelsea, depois de muitos cartões, notinhas e post-its coloridos colados nas paredes, numa tentativa de criar uma história, tipo um seriado, diferente de tudo que já fora feito antes.

A estrutura do Mosaic contém uma minissérie de mais de sete horas de duração a respeito de uma morte misteriosa. Até aí, nada de novo, certo? A diferença é que os espectadores têm ação dentro da história, podendo escolher a ordem em que vão assistí-la de modo que, ainda assim, tudo faça sentido. Ou seja, a obra tinha de ser meticulosamente planejada para que nenhum detalhe fosse revelado tarde ou cedo demais. O script do diretor somou, ao todo, mais de 500 páginas, e foi escrito apenas quando a história, na sua cabeça, já estava totalmente pronta.

Tudo começou por conta de uma frustração de Soderbergh, que acreditava que o sistema de Hollywood estava parado, sem novidades na estrutura geral há décadas. Ao mesmo tempo, Casey Silver, ex-chefe da Universal Pictures, trabalhava numa nova maneira de contar histórias. A dupla se encontrou em 2012, durante a divulgação do primeiro filme de “Magic Mike”, e avançaram juntos na ideia de usar a tecnologia disponível nos smartphones e aplicativos para permitir que os espectadores interagissem mais com os personagens das histórias às quais estavam assistindo. Soderbergh estava interessado, porém cauteloso: não queria que isso virasse uma espécie de game.

O contato da dupla continuou e, mais tarde, chegaram ao conceito de uma história habilitada para smartphones, desenvolvida e lançada pela empresa de Silver, que permite que os espectadores decidam de que maneira eles querem assistir aos “seriados”. As possibilidades dentro dele são muitas: dá pra assistir só alguns minutos da história de um personagem, ou assistir todas as versões possíveis, correr para o final, enfim. Tudo foi pensado para agradar diferentes perfis de público – desde aqueles que querem uma tecnologia inovadora para curtir o seu entretenimento diário até aqueles que querem somente uma nova história para acompanhar.

Foram três anos de trabalho. O projeto acabou ficando tão ambicioso e pesado que a equipe percebeu que, para que ele realmente saísse do papel, seria necessário mais dinheiro. Então, levaram o Mosaic à HBO, em busca de um aporte financeiro, e conseguiram – o canal investiu em torno de 20 milhões de dólares na novidade, contanto que ela fosse exibida na emissora – isso deve acontecer agora em janeiro, em seis episódios. A título de comparação, cada episódio de Game of Thrones custa cerca de 15 milhões. 20 milhões para uma série inteira, então, não parece tanta grana assim.

Aqui, o trailer:

Durante a filmagem, que ocorreu entre 2015 e 2016, até os atores foram surpreendidos, pois nenhum deles tinha consciência do tamanho do seu papel – era impossível saber quem era protagonista, antagonista, vilão ou mocinho. Soderbergh apenas lhes dizia: “seu personagem está dizendo a verdade” ou informações básicas do tipo.

Definir o Mosaic ainda é um desafio. Seria ele um aplicativo? Um seriado? Um filme dividido em capítulos? Mais interessante que o nosso saudoso “Você Decide”?

É um experimento de fato ambicioso, que pode funcionar de forma excelente como um teste do que está por vir. Para o diretor, é o começo de uma nova maneira de ver TV. Para o público, é mais uma opção de entretenimento dentro de uma gama que se renova e se reinventa a cada dia. Aparentemente, só temos a ganhar (e gastar).

UPDATE: infelizmente, o app ainda não está disponível para o Brasil.