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A hora e a vez do desejo delas

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A série “Desnude”, que estreia nesta segunda (05), no GNT, não é só sobre erotismo ou sexualidade das mulheres: é sobre a liberdade feminina. Isso fica explícito na tela, em cenas nas quais elas são as protagonistas, mas também por trás das câmeras, na equipe, na produção, no roteiro, e na sensibilidade com que o tema, um super tabu, é tratado.

Basta olhar para o time de profissionais envolvidas na idealização e execução do projeto, dividido em 9 episódios e um documentário, que conta os bastidores do trabalho: Carolina Jabor, diretora; Anne Pinheiro Guimarães, parceira de Jabor na criação e direção; Marina Franco, roteirista e figurinista; Renata Brandão, CEO da Conspiração Filmes; e uma equipe que inclui atrizes conhecidas por causar impacto com seus trabalhos.

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Diretoras e equipe da série se reuniram para celebrar a pré-estreia
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Da esquerda para a direita: Anne Guimarães, Renata Brandão e Carolina Jabor. Desnude é uma série idealizada e executada por mulheres.

A atriz Paula Burlamaqui ficou empolgada com o convite da diretora para participar de um dos episódios da série, e acha que é preciso falar sobre desejos da mulher – ainda que por ficção -, mas sem palhaçadas.

“Acho bacana se falar de sonhos eróticos, de desejos, porque mesmo estando no século 21 isso ainda é tabu. Eu acho muito louco, porque colocam Nathalia Timberg e Fernanda Montenegro de casal [as atrizes formavam um par na novela “Babilônia”], aí você fala ‘caramba, que legal’. E uma semana depois eles têm que mudar a história porque o público não aceitou. Que caretice, né?! Eu acho que a série ‘Desnude’ é todo mundo se desnudando, mesmo, os desejos, as pessoas falando isso sem babaquice, sem tabu. Porque, pelo amor de Deus!, as mulheres se masturbam no banheiro, têm desejos, estão com o marido, olham pro garçom e pensam ‘que gostoso!’”, comenta Paula.

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Paula Burlamaqui na pré-estreia de Desnude

Fantasias para desconcertar e repensar

Os dois episódios exibidos na última quinta (01) impregnaram o ar com a sensualidade. O tom da série ficou evidente nas reações das pessoas, principalmente homens, que se ajeitavam nas cadeiras a cada frame mais “quente”. As expressões faciais já demonstravam que a conversa, ali, vai ser diferente. A série abre caminho para o imaginário e suas sutilezas, e assume o ponto de vista feminino como orientador de toda a trama. Renata Brandão reafirma esse propósito:

“A gente está num movimento, já há alguns anos, de consolidar a produção e a distribuição de conteúdo feito por mulheres em todas as áreas do entretenimento. E a sexualidade era importante que a gente descortinasse, já que é um assunto tão importante pra gente e visto de uma maneira tão masculinizada. Principalmente o erotismo. Hoje é um tema que está aí, mas que precisa ser tratado pelo olhar da mulher. O desejo da mulher é diferente do desejo do homem, e a gente precisava retratá-lo dessa maneira.”

Mas nem de longe esse trabalho se restringe a cenas de sexo. Há espaço para os assuntos que permeiam o universo de mulheres e homens em algum momento da vida, como casamento, maternidade, traição, fantasias. Mais do que isso, entretanto, “Desnude” é o reconhecimento e a representação do quanto a mulher é protagonista do próprio desejo.

“O interessante da fantasia é que a mulher pode ser livre. A sexualidade feminina é muito reprimida, até por ela mesma. Na nossa pesquisa descobrimos que algumas mulheres acham que fantasiar é uma traição, e a gente quer provar em alguns episódios que o pensamento não é uma traição. Por isso o viés da fantasia, que possibilita contar histórias diferentes, de formas diferentes, com mulheres muito diferentes”, explica Anne Guimarães.

O ator Du Moscovis, que participou do primeiro episódio exibido na noite, concorda que outras discussões são possíveis a partir da série.

“Nosso episódio, por exemplo, lida com as fantasias de um casal hétero. Mas existe uma discussão ali sobre uma relação duradoura: como é que a gente resolve e repensa uma relação longa no meio de tanta coisa que aparece nas nossas vidas? Você ama aquela pessoa, você curte, tem projetos de longa distância, mas como é que a gente faz para percorrer esse caminho de uma forma saudável? Eu percebo uma proposta também de uma reconfiguração de um casamento gay, mas, fundamentalmente, discutindo como se preservar e viver um casamento longo. As fantasias existem, os desejos existem, e como a gente lida, da forma mais saudável para o casal, com isso tudo?”, questiona.

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Parte do elenco que esteve na pré-estreia e Anne Guimarães. “Desnude” terá 9 episódios e um documentário que conta os bastidores do projeto.

Recalibrar o olhar para o foco feminino

No debate que rolou após a exibição, ficou ainda mais clara a intenção da equipe em deslocar o foco da narrativa para o ponto de vista da mulher. “Essa coisa de ser agente do desejo é muito bonito de ver”, afirma Clarice Falcão, protagonista de um dos episódios exibidos naquela noite.

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Clarice Falcão é protagonista do episódio “Indomável”, um dos exibidos na pré-estreia

A atriz compartilhou, ainda, um pouco do que sentiu ao gravar as cenas: “Foi um exercício maravilhoso. Somos criadas com muitas regras em relação ao sexo, diferente dos homens, que vêem este como um momento de liberdade. Pra mim foi um grande passo vindo da desconstrução dessas regras. Foi muito doido, mas foi muito doido de um jeito muito bom. Botar o sexo num lugar de liberdade, e não de amarras”, conta.

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Debate levantou pontos sobre o olhar antes e depois da série.

Conhecida por seus clipes que dão voz a questões importantes como o assédio e o preconceito contra a mulher, a atriz e cantora acha que já há um caminho trilhado, mas muito a se fazer. “Se for olhar a Internet, ainda tem muitos comentários maldosos direcionados à mulher”, lembra. Carolina Jabor reitera e comenta que sabe que pode haver alguma resistência à temática. “Mas espero que seja uma resistência relax (rs). Precisamos contribuir para falar sobre esse assunto”, diz.

Quando perguntada se a série era feita para as mulheres, Renata Brandão foi categórica: “É uma série feita sobre o desejo feminino por mulheres, mas o ideal é que a gente consiga atender todo mundo. A gente sabe que o padrão do erotismo feminino e masculino é diferente, mas a gente acha que eles vão também se impressionar vendo pela nossa lente.”

Du Moscovis afirma que não se sentiu intimidado, mas que desde o momento em que recebeu o convite da diretora Carolina Jabor para fazer a série já sabia qual era a proposta: ouvir a voz delas.

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Du Moscovis protagoniza o primeiro episódio da série junto com Gabriela Carneiro

“Eu entrei no jogo, na brincadeira, porque a proposta da Carol veio de uma forma muito clara: é um programa feito por mulheres, pensado por mulheres, concebido e executado por mulheres. O protagonismo é das atrizes, e a gente está te chamando pra fazer um episódio (rs). Então desde o começo, quando fomos fazer a leitura do episódio, deviam ter, sei lá, 14 mulheres e eu e o menino do olho azul que faz comigo esse episódio. E obviamente existia um ‘domínio’ e uma voz ativa delas, até porque eram elas que estavam propondo e dando ideias. E aos poucos, e de uma forma muito gentil, a gente começou a falar um pouco”, conta.

“Desnude” é um convite para explorar outros vieses e prestar mais atenção ao que muitas vezes não é dito sobre o desejo da mulher (inclusive por elas mesmas). A série vai ao ar no GNT a partir de 05 de março, às 23h30, e estará disponível no GNT Play.

 


Este conteúdo é produzido a partir de uma curadoria feita pelo Update or Die na grade de programação do canal GNT. Compartilhamos nossas impressões e desdobramentos sobre diversos temas, usando os programas que mais nos chamam a atenção como ponto de partida.

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Escrito por Thaís Santana

Jornalista, consultora, pisciana e empreendedora. Conseguindo sobreviver apesar das angústias e ansiedades, escrevendo sempre que dá.

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