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“Jeremias: Pele” e o amadurecimento das HQs no Brasil

“Nós precisamos parar de chegar atrasados na vida das pessoas”.

Algumas histórias em quadrinhos me emocionaram de verdade nesta minha vida.

“Jeremias: Pele” é a mais recente.Apesar do diminutivo no nome, histórias em quadrinhos não são e nunca foram sinônimo de pequenez ou de roteiros infantilizados. Além do universo dos super-heróis (complexo e profundos, sim) e da temática infanto-juvenil que, de fato, aborda, o formato dos desenhos em tiras tem sido explorado para levantar reflexões e discussões sérias.

Assuntos como homossexualidade, traumas, doenças, condições humanas, migração e tantos outros estão lançando mão desse recurso da comunicação para contar histórias relevantes – temos muitos exemplos, como o clássico dos anos 90 “Maus – A História de um Sobrevivente”, escrita e desenhada por Art Spiegelman, que ganhou um Pulitzer e o prêmio American Books Awards por narrar de maneira brilhante a história verídica de um homem judeu que venceu o holocausto e hoje vive (com seus traumas, é verdade) nos Estados Unidos.

De lá pra cá, o mercado de quadrinhos só amadureceu, tanto em termos estéticos como narrativos. E embora a generalização venha muito da produção norte-americana, é um orgulho testemunhar uma revolução do mercado nacional com o lançamento de uma obra tão importante, como a “Jeremias: Pele”.

Aposta do ótimo selo Graphic MSP, o quadrinho vai fundo na questão do racismo ao mostrar o dia-a-dia de um garoto “qualquer”, bom aluno e bom filho, mas que tem que galgar uns degraus a mais na escada do sucesso por conta de seu tom de pele. Negro, o protagonista Jeremias nos conduz por uma trama de dor, injustiça e muita superação.

Roteirizada por Rafael Calça e desenhada por Jefferson Costa, ambos negros, a arte teve seu lançamento celebrado na Universidade Zumbi dos Palmares – o que é de uma simbologia tremenda.

“É o primeiro lance mais forte, mais foda que tem no quadrinho brasileiro, porque tem uma projeção importante; uma projeção alta. Mas não é a primeira vez que se faz um quadrinho falando de assuntos importantes”, relembrou Calça em entrevista concedida ao Jornal Empoderado durante as festividades de estreia. “Da mesma forma que a gente tem esse espaço e essa visibilidade (…), procure outros artistas negros, que tem uma porrada para ler. Que isso seja a porta de entrada para falar de assuntos mais interessantes. Chega de super-heróis quebrando o planeta, vamos falar de outros assuntos”, conclui Calça.

Para os representantes da MSP, o lançamento de “Jeremias: Pele” é motivo de grande orgulho, pois defendem que era necessário abordar a questão do racismo de outras maneiras, e sabem bem o que essa história pode revolucionar.

“Quem tem um pingo de empatia e consiga se colocar no lugar do outro, vai se emocionar”, prevê (corretamente) o Sidão (Sidney Gusman, editor da MSP e – como eu – um dos maiores entusiastas da história do Jeremias).

Para Maurício de Sousa o lançamento dessa história é importante por diversos motivos e o maior deles é revelado no prefácio assinado pelo criador da Turma da Mônica: “’Pele’ me ajudará, inclusive, a corrigir uma injustiça histórica: apesar de ser um de meus primeiros personagens, o Jeremias nunca havia protagonizado uma revista sequer. E o faz, agora, em grande estilo.

Quem também deixou seu registro na obra foi o rapper Emicida, que escreveu o texto da quarta capa, onde diz que “a ausência de referências positivas nos rouba o direito de imaginar, estabelece um teto para nossos sonhos. Minhas lágrimas correram pelo rosto ao ler ‘Jeremias – Pele’. Eu a vivi inteira tantas vezes”.

Já é o preferido do ano.

E, de verdade, vale a leitura (e vale levar para amigos, filhos, afilhados e etc…).

Tira – só um pouquinho – o celular e o tablet do colo das crianças e as deixem folhear um desses (vão gostar, prometo).

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Escrito por Gustavo Giglio

Updater, sócio do UoD, diretor de marketing/novos negócios.

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