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Generosidade à flor da pele

O que faz ou o que falta para o povo brasileiro abraçar o voluntariado?
O que faz ou o que falta para o povo brasileiro abraçar o voluntariado?

Shows beneficentes, milhares de orações, doações recordes e uma mobilização social tocante: um dos efeitos colaterais de grandes tragédias é o florescimento da generosidade humana. Todo mundo, de alguma forma, se sente motivado a colaborar com vítimas de acidentes marcantes; do tipo que comove todo um país.

No fatídico incêndio do edifício Wilton Paes de Almeida, em São Paulo, por exemplo, a Cruz Vermelha Internacional recebeu 5 toneladas de doações, uma quantidade tão inédita que foi preciso recorrer a voluntários para conseguir avaliar e organizar o material arrecadado.

Mas se somos capazes de nos sensibilizar desta maneira, porque ainda há tantos males mundo afora? A pergunta que ficou no centro das discussões em dos últimos “Papo de Segunda”, no GNT, ressoou para além do mundo televisivo e, embora não exista uma única resposta para essa questão, como ficou comprovado no programa, há algumas teorias que merecem uma avaliação mais detalhada.

Uma das hipóteses é que o brasileiro tem por regra a solidariedade, mas tragédias de grandes proporções concentram atos de bondade por se tratar de uma situação extraordinária. Logo, qualquer acidente que “fuja da normalidade” provavelmente receba uma ajuda “acima da média” também, sobretudo que, ao praticar a boa e velha empatia, as pessoas se vêem na obrigação de ajudar quem sentiu ou sente na pele o que a maioria de nós não desejaria viver nos nossos piores pesadelos.

Por ter embasamento teórico sólido, uma outra teoria tem ganhado cada vez mais adeptos: a caridade, sobretudo a brasileira, nunca esteve tão em alta, mas não se fala muito nisso, então se esvazia o sentimento de quantidade.

O próprio IBGE registrou um aumento de 13% da população voluntária entre 2016 e 2017. Fechamos o ano passado com 7,5 milhões de pessoas exercendo algum tipo de trabalho voluntário. O crescimento do índice, como era de se esperar, foi maior entre as mulheres: 5,1 delas, contra 3,5 deles.

Apesar da expansão do número de voluntários, caiu o tempo dedicado à caridade. Em 2016, os entrevistados investiam, em média 6,7 horas por semana em atividades beneficentes; no ano passado, a duração dessas ações caiu para 6,3 horas semanais.

Fatores como aumento do trânsito e sobrecarga no trabalho devem ter levado ao encolhimento deste fator, mas não significa que o brasileiro esteja perdendo sua veia solidária.

Apesar das ponderações, vale lembrar que o Brasil sequer passa perto de figurar na lista dos países mais generosos do mundo, que há anos é liderada por Myanmar. Os estudiosos acreditam que o alargamento da classe média, aliada à religião predominante: o budismo, sejam a razão pelas quais o país figura entre os primeiros.

Mas, apesar das considerações dos analistas, vale lembrar que alguns países notoriamente conhecidos por suas ações sociais não têm vínculos tão estreitos com a espiritualidade e a religião, como a Nova Zelândia, o Canadá, a Suécia e outros.

Se questões religiosas fizessem algum efeito neste sentido, aliás, o Brasil deveria ser muito mais solidário, uma vez que reúne em suas terras crenças diversas e, cá entre nós, algumas bastante rigorosas. Essa distância entre fé e boas ações poderia, aliás, nos tornar uma nação hipócrita, uma vez que não estaríamos colocando em prática o que aprendemos em igrejas, templos e centros.

Religiões à parte, outro fator que precisa ir para a conta é a educação: há pesquisas mostrando que em lugares onde a educação é mais estruturada, o trabalho voluntário também é maior e isso poderia explicar a baixa adesão a ações sociais do brasileiro.

Mas enquanto os argumentos vão e vem, pensando pró e contra a cada momento, uma nova realidade pode alterar toda a equação, empresas estão incentivando que seus funcionários pratiquem algum tipo de trabalho social, chegando ao ponto de ceder algumas horas pagas desses colaboradores à instituições beneficentes.

No final das contas, independentemente de como, quando e porque uma pessoa resolve praticar a solidariedade, a maior beneficiada é ela mesma, já que boas ações tendem a ter um efeito positivo mais longo em quem pratica a ação do que em quem recebe.

O que prova que, numa dessas raras exceções da vida, o voluntariado é uma situação onde todos saem ganhando, literalmente.

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Mentor

Escrito por Eloa Orazem

Sobreviveu ao retorno de Saturno, mas não o fez intacta: se (des)fez em pedaços ao longo do caminho, e agora tenta montar um quebra-cabeça pessoal que faça algum sentido. As dúvidas e as mudanças perdoam a carreira -- Eloá é jornalista há dez anos, e tem passagens por revistas, sites, televisão e rádio.

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One Comment

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  1. O brasileiro não é solidário nada. Trabalho voluntario é bom para currículo, boa parte desse aumento pode ter certeza foi por isso. (Brasil) Um dos países mais corruptos do mundo, sim, e não falo apenas de políticos.
    Acho o que eleva os números de doação é a população imensa, tanto na própria cidade de São Paulo e do Brasil. Queria ver a proporção com Miamar.
    Lembro da tragedia da Chapecoense, um jogo Brasil x Colômbia para arrecadar fundos para as familia. Estádio parcialmente cheio (deveria estar lotado), e lembro dos narradores observarem isso e criticarem o brasileiro com relação a ajudar o outro em tragédias. Tomamos um banho de generosidade dos colombianos. Duvido muito que o brasileiro fizesse o mesmo se um avião com time de futebol estrangeiro caísse por aqui.

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