Nos anos 90, a Microsoft contratou a melhor equipe disponível na época para criar o que seria a obra prima das enciclopédias. Infelizmente, o milionário investimento não deu certo. Especialistas das mais variadas áreas, muito bem remunerados, não foram capazes de criar uma ferramenta de pesquisa acessível e confiável. O projeto Encarta tinha falhado. Vinte anos depois, a Wikipedia realizou o que parecia impossível. Pode não ser perfeita, mas a enciclopédia online está disponível em diversas línguas, sem custo, para a todos que desejarem consultá-la. Milhares de pessoas trabalham, todos os dias, para mantê-la atualizada, e parece que está funcionando. O pagamento pelo seu trabalho? Aparentemente, o simples prazer de contribuir, de colaborar, de participar de algo que acreditam ser grande o bastante e digno o suficiente para contar com a sua devoção.

Já é sabido que as pessoas não trabalham por dinheiro.

Para a maioria das pessoas trabalho ainda é uma espécie de castigo. Um atalho para conseguir recursos que serão, assim, convertidos em suas verdadeiras paixões. Claro, cada um vê o mundo de maneira diferente, e investe seu tempo e o suado dinheiro da forma que mais lhe apraz. Nossos motivos são íntimos e pessoais. Uns colecionam quinquilharias diversas, outros preferem carros antigos; uns se contentam apenas com viagens extravagantes, outros ainda se satisfazem apenas com bebidas caras, e ainda tem gente que é apaixonada por livros; a lista é tão grande quanto a imaginação humana seria capaz de se esticar.

Pagamos caro para ter acesso ao que amamos, e não resistimos à sedução de exibir nossas paixões. Somos viciados em compartilhar o que nos emociona.

O ser humano é um evangelista nato.

Quando assisti ao filme Mãe, do diretor Darren Aronofsky, percebi nitidamente isso. A alegoria feita pela obra sobre a história do homem, de uma possível perspectiva divina, é muito impactante. O que fazemos quando estamos apaixonados? Perdemos a noção do valor do dinheiro, dos limites físicos, da vergonha própria e da alheia, flertando, muitas vezes, com a morte, num balé afiado, no qual esbarramos o tempo todo com os limites da insanidade. Construímos reinos, destruímos cidades, arrasamos exércitos, queimamos milhares de livros, detonamos bombas atômicas, lançamos sondas espaciais, perseguimos e humilhamos pessoas consideradas inferiores, e também movemos céus e terras para reverter muitas de nossas atitudes, mesmo as mais terríveis.

A fé humana é o combustível mais poderosos do universo.

As musas gregas eram responsáveis por inflar a mente de seus devotos. Na época, imaginava-se que as nove deusas seriam capazes de alimentar a criatividade de quem as buscava com real dedicação. O ato criador precisava se valer das benesses derramadas do Olimpo. Sem isso seria impossível trazer algo à existência no mundo dos mortais. Essa ideia persiste até hoje, de muitas formas. A grande maioria das pessoas ainda acredita que o ato criativo é um dom. E isso recebe reforço de muitos canais de comunicação que insistem em deificar aqueles que “chegam lá”, como se fosse um lugar restrito aos deuses e seus seletíssimos agraciados.

Yuval Noah Harari defende que dominamos o planeta porque somos capazes de cooperar, mesmo sem conhecer uns aos outros, desde que acreditemos nos mesmos valores, ou que nos seja oferecido o valor dinheiro como elo. O mais interessante é que muitas das grandes conquistas da humanidade foram conseguidas através de algum tipo de doação. Se acreditamos em uma ideia e doamos nosso tempo, dinheiro e tudo o mais que for possível. Impérios se ergueram e caíram porque as pessoas deixaram de acreditar em ideias antigas, e começaram a desejar fortemente outras coisas. Resultando em mudanças drásticas na forma como viviam suas vidas. Mudam as ideias, caem os paradigmas e as coisas precisam se reorganizar. As pessoas se juntam com aquelas que pensam igual a elas, para oferecer segurança e conforto até que outra onda de mudanças venha e coloque tudo abaixo.

As pessoas cooperam para o bem e para o mal. As pessoas se juntam para muitas coisas, desde salvar um gatinho ou até mesmo construir uma pirâmide. Elas só precisam de motivos, de inspiração. Não aquela vinda de deusas moradoras dos montes gregos. A energia que une as pessoas é tão avassaladora que acabamos legando sua origem a algo divino. A energia que move uma pessoa que está apaixonada por algo ou por alguém beira a loucura, a mais completa sandice. Por isso atribuímos traços espirituais aos seus efeitos.

Quando acreditamos estar no caminho certo, nada consegue nos deter.

Sozinhos ou no meio de uma cruzada, lutando contra moinhos imaginários ao lado de nossos fiéis escudeiros ou no alto de um arranha-céu; dormindo na fila para ser o primeiro ou virando noite sobre livros e tubos de ensaio, não importa, sempre estaremos sob a influência do que chamamos de coração: o verdadeiro pai da criatividade. Essa que é filha da única musa digna de toda e qualquer devoção: a vida!

Imprevisível, a vida dinamita nossa imaginação das mais diversas formas, moldando o mundo ao nosso redor enquanto forja nossos pensamentos, uma escolha de cada vez, combinando as ideias que curtimos e, principalmente, as que compartilhamos.