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Iphone, Wonderland e Tyler Durden

Antes de apagar definitivamente, a luz piscou 4 vezes.

Não podia fazer nada. Fim do expediente, às 16h54, naquela sexta-feira. Sempre que acontece, a luz demora a voltar. Sem energia elétrica, foi-se a Internet, a TV e a iluminação. Sorte que ainda sobrava um restinho do dia claro, numa tarde fria e chuvosa, com sua luz fraca, refletida nas casas à frente da minha janela.

Então, a solução era encontrar a caixa de velas e manter a casa iluminada, até a eletricidade voltar. Lembrei da minha infância, quando mudamos para a casa que meu pai construiu. Não havia energia elétrica no bairro, então ficamos meses vivendo sem vidros nas janelas e à luz de velas, como num sofisticado evento ao ar livre.

Trinta anos depois, o efeito me soou um pouco diferente. Na época, foi divertido para uma criança de 9 anos “acampar” por alguns meses, experimentando a brisa da cidade alta, brincando com as estranhas sombras criadas pela trêmula luminosidade da chama de uma vela, além dos sons vindos da vizinhança que ainda era desabitada; uma mata fechada que guardava mistérios que ampliavam intensamente a minha imaginação.

De volta àquela fatídica sexta-feira, fui obrigado a achar uma forma de alimentar meu tempo, já que sem energia era impossível qualquer tipo de escape da realidade. A chuva estava forte, então não dava para sair a pé. A Internet do celular oscilava fortemente e não conseguia chamar um Uber. Então me vi condenado a curtir o silêncio do meu lar.

O dia se despediu com um último suspiro de luz cinza, quando consegui achar a caixa de velas. Acendi e a coloquei sobre a impressora, à direita da minha mesa de trabalho. Fiquei alguns instantes olhando pra ela e, de repente, comecei a deslizar a tela, assistindo ao feed de notícias, com velhas imagens daquele passado distante.

Como um pedacinho de fogo é capaz de iluminar tanto a nossa mente?

Estendi a mão e tirei o Clube da Luta, que já tinha se cansado de pedir para ser lido. Trouxe a vela para mais perto e comecei a leitura. Mais de meia vela depois, já havia terminado um capítulo inteiro, quando a luz resolveu voltar.

Alegria? Talvez.

Estar imerso, ali, no silêncio, igual a um monge da idade média, me fez sentir como Guilherme de Baskerville, em O Nome da Rosa, quando encontrou o caminho secreto da biblioteca para a torre proibida. Desligar do “mundo” por um pedaço de tempo me ajudou a perceber que parece que existem duas realidades: uma eletrônica, que funciona apenas quando está ligada à tomada, e outra, paralela, que dá suporte para a primeira, mas que quase não aparece, como se fosse um cenário de apoio; onde apenas comemos, bebemos, dormimos e defecamos.

O coelho apressado levou Alice para o buraco. A menina que não entendia porque o mundo era como era, perguntava se a vida poderia ser diferente. A busca por identidade nos faz tomar decisões precipitadas, seguir caminhos esquisitos e conhecer gente estranha. Lembro quando matava aula na época do ensino fundamental. Adorava escapar de fininho, e ir para a biblioteca. Mas afinal de contas, quem mata aula numa biblioteca? Enfim, era um tipo de buraco para Wonderland.

Para mim funcionava muito bem. Odiava a sala de aula.

Fugir da realidade em busca de respostas é a saga do sapiens. Essa fome o fez partir do seu berço na África e dominar o mundo. Atualmente, “todas as respostas” parecem estar nas palmas luminosas de nossas mãos. Cedemos às suas afirmações, de cabeças inclinadas, como devotos ou prisioneiros, prestes a ter as cabeças cortadas.

Olhamos para nossos dispositivos eletrônicos como Alice olhava para o buraco que a levaria ao “País das Maravilhas”. Ela tinha pressa, e não lhe faltava incentivo. Nosso mundo moderno tem pressa e muitos buracos luminosos, com imensas setas indicando onde devemos jogar nossos sonhos. Hoje, a Apple é a empresa mais valiosa do planeta. Um trilhão de dólares. Se fosse um país, seria a 17ª economia do mundo.

Como uma empresa consegue um feito desses? Seguindo seu exemplo, outras marcas estão vindo logo atrás. O mundo será governado por empresas particulares?

Não sabemos, mas os números estão aí para provar que, assim como o Novo Mundo foi descoberto e administrado por empresas que financiaram as grandes navegações, em busca de países e maravilhas, parece que o novo milênio será governado por empresas que vão nos fazer viajar, sem sair do lugar, pagando caro por cada experiência.

Estamos com pressa e hiperconectados. Correndo, à espera de um milag… digo, da nova versão de nossos smartphones.

Como dizia Tyler Durden: As coisas que você possui acabam possuindo você.

Espero que essa nova revolução nos ajude a conhecer melhor a nós mesmos. Que voltemos dessas viagens com uma visão melhor da realidade. Que a tecnologia nos ajude a encontrar mais sensibilidade, e que ao tocarmos regiões desconhecidas da nossa realidade interna, sejamos capazes de entender a urgência de validar nossas necessidades humanas, aquilo que nos torna o que somos de verdade.

Estaremos sempre em fuga, isso é um fato. Faz parte da nossa natureza. Só espero que a tecnologia nos ajude a não mais fugir de nós mesmos. Há beleza no ser humano, e as nossas invenções deveriam ser um atalho até ela, e não o contrário.

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Contributor

Escrito por William Barter

Autodidata em busca de novas perspectivas na aplicação da criatividade. Consultor de marketing e autor do livro "Imaginação: A Arma Mais Poderosa do Universo". Idealizador do projeto Crie & Ative, que oferece cursos e palestras sobre criatividade em escolas e empresas.

Anos de UoDStory MakerContent Author100 Posts Mr. Postman!

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