Esta semana, a Nike enfrentou (e ainda enfrenta) protestos e boicotes por parte do público. O motivo: sua última campanha, estrelada pelo jogador de futebol americano Colin Kaepernick. A Nike não seria a Nike se fizesse diferente. Antes de elucidar os motivos, é preciso entender o contexto.

Em 2016, numa já polarizada América, Kaepernick começou a protestar antes dos jogos, durante a execução do hino nacional americano. Ao contrário dos outros jogadores, ele não colocava a mão sobre o peito, mas se ajoelhava ao soar dos primeiros acordes de “The Star-Spangled Banner”. Segundo o jogador, o gesto era um protesto contra o racismo e o assassinato de negros inocentes ocorrido nos EUA.

“Não vou me levantar e mostrar orgulho pela bandeira de um país que oprime o povo negro e as pessoas de cor”, disse à época.

O gesto, claro, dividiu opiniões.

Corta para 2018: em uma nação ainda mais polarizada, comandada por Donald Trump, a Nike resolve utilizar Kaepernick como protagonista de seu anúncio comemorativo da campanha “Just do it”, que está fazendo 30 anos. A peça, publicada pelo jogador em suas redes sociais, traz a seguinte frase sobre seu rosto do atleta: “Acredite em algo, mesmo que isso signifique sacrificar tudo” (veja aqui). O que faz muito sentido, já que o atleta está há mais de um ano fora da NFL.

Mas a Nike não seria a Nike se não optasse por isso. Apesar dos protestos e da queda das ações da empresa na bolsa, o assunto não sai da mídia mundial. O debate iniciado por Kaepernick ganhou novos rumos. Nada mais adequado, afinal, o “Just Do It” sempre esteve aí para fazer pensar. Exemplos?

Se você deixar as mulheres praticarem esportes, elas terão menos chances de terem câncer de mama. Quem disse? A Nike. Num anúncio de 1995.

Uma pessoa vivendo com HIV corre 10 maratonas por ano. Quem disse? A Nike, num anúncio de 1991.

Aliás, o próprio anúncio de estreia do slogan mostra que um idoso de 80 anos tem muito mais disposição do que alguns millennials viciados em mídias sociais que vemos hoje em dia (e que, certamente, estão protestando contra a marca).

A Nike sabe em quais conversas entrar. A tomada de posição favorável a Kaepernick não é tiro no pé, é tiro pensado para acertar no alvo. A marca renovou o patrocínio do atleta. O motivo? Mesmo fora dos gramados, Colin virou ícone, inspirou outros a protestarem e, obviamente, faz muito dinheiro para a empresa. Aliás, ele terá uma linha de produtos com seu nome (sucesso garantido já que, em 2017, a camiseta oficial do jogador foi a única de um atleta fora da liga a entrar no ranking das 50 mais vendidas).

Há diversas publicidades. Algumas te seguem com cookies, outras te impactam na TV e as mais relevantes te fazem pensar. As clássicas campanhas de Benetton, o comercial “Hitler“, os recentes clássicos de Chipotle e as investidas de O Boticário são apenas alguns exemplos disso. Se uma marca não te faz pensar, desconfie. Talvez, ela queira apenas vender.

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