“Há sempre alguma loucura no amor.
Mas há sempre um pouco de razão na loucura.” – Friedrich Nietzsche

Eram doses cada vez maiores. Não conseguia resistir. Percebi que quanto mais usava, mais sentia a necessidade de repetir. Estava em um beco sem saída. Dormia pensando nela e acordava da mesma forma. E os sonhos nunca deixavam a desejar: cada um mais louco que o outro. Não via saída, a não ser abandonar o mundo conhecido como “normal”, e mergulhar definitivamente naquele universo com o qual flertava desde criança.

Os dias de 2005, em Juiz de fora, eram cinzentos. Mesmo iluminando o mundo lá fora, ainda assim parecia que o sol não conseguia fazer bem o seu trabalho. A rua Espírito Santo, no centro da cidade, era um corredor por onde caminhava, muitas vezes, sem rumo. Quase sempre, eu repetia a rotina que mais me agradava. Saía pelo portão do prédio, subindo a rua na direção da praça Antônio Carlos, para buscar um pouco mais daquilo que poderia aliviar minhas dores emocionais. Voltava de lá com as mãos sujas, mas não tinha saída. Era o único jeito que tinha encontrado para evitar o pior.

Subia as escadas duras, contando os degraus. Acho que já tinha até dado nomes para cada um deles. Esperava não encontrar ninguém pelo caminho. Abria a porta apreensivo, olhando para os lados. Batia a porta atrás de mim como se fechasse um caixão. Estava em meu mundo sombrio; pronto para outras viagens. Lá estava eu, de novo, sobre a cama desarrumada, disposto a embarcar em mais uma jornada ao único lugar onde tudo é possível.

As folhas estavam cheias e eu não conseguia parar. A cada tentativa, eu tinha que colocar algo para fora. Era inevitável. Exalava, sem parar. O chão, as paredes, o teto e a janela para o viaduto eram concretos demais para mim. Precisava de uma saída para toda aquela aspereza. Mais uma vez, e, de novo. O dia se consumia, e a fumaça tomava conta do apartamento; minha mente, em frangalhos, era uma explosão completamente nua.

Quando acordava, via o resultado do que havia acontecido na noite anterior. Taças tingidas de vermelho, resquícios por todos os lados, e a dureza da realidade apertando o meu pescoço com a sua terrível força. Levantava daquela cama, com o peso do mundo sobre meus ombros. O único pensamento era de que precisava viver aquilo tudo de novo. Não tinha saída; assim que era possível, as folhas estavam em minhas mãos, à espera daquilo que só eu mesmo poderia colocar nelas.

Aquele ano foi sombrio. Tenebroso, diria. Pensei que não suportaria o fardo que pesava sobre mim. Cada dia e cada noite eram apenas vielas cheias de pensamentos estranhos. Uma multidão habitava aquela Pompéia, rodeada pelo Vesúvio, prestes a sentir sua língua quente, e encontrar o seu fatídico destino. Ela, porém, estava lá, com as suas mãos estendidas, como uma prostitua barata, esperando que mais uma vez eu dissesse sim. Nem sempre era doce, batia com força, às vezes, sussurrava, algumas, mas sempre estava por perto, apostando que, de alguma forma, eu cederia aos seus encantos.

Em 2005, quase desisti de seguir em frente. Foi um ano difícil. Mas, sempre que voltava da rua com os livros que pegava na Biblioteca Municipal de Juiz de Fora, tinha novos motivos para tentar de novo. Cada nova leitura servia de combustível para escrever poemas que eram não mais que vômitos existenciais. Entre uma leitura e outra, sacava uma folha do caderno para bombardear as linhas com o que travava minha garganta. Amores, perdas, dúvidas, lamentações, etc., eram as ervas que queimavam sobre o papel, e me enchiam de uma energia estranha.

A imaginação salvou minha vida. Se não pensasse desse jeito estranho, como faço todos os dias, talvez não estaria aqui escrevendo essas linhas. Ela me dizia para tomar doses cada vez maiores de experiências; exigia que buscasse a “não conformidade”. Mas, o que seria isso? Ela nunca me respondeu. Dizia apenas “não desista”. Não sei o que isso queria dizer também; mas aqui estou, anos depois, ainda brigando com ela, mesmo sabendo que é a única responsável pelo meu futuro. Afinal, relações tranquilas não mudam o mundo e não criam histórias dignas de serem contatas.

Somos todos sufocados por algum sentimento. Acabamos pegando atalhos, na esperança de aliviar a dor, sem nunca perguntar porque sentimos aquilo, e como poderíamos resolver o problema. A criatividade humana é um castigo, uma sentença da qual não podemos nos desvencilhar. Se não damos vazão aos nossos talentos, eles se acumulam, como água parada. E todos sabemos o que acontece depois. Pagamos preços muito altos por não acreditar em nossas capacidades criadoras.

É só não ter medo do que passa na sua mente.

Contaminá-la com produtos feitos para fugir à realidade, vai apenas tornar a sua imaginação cada vez mais pobre. Claro que não somos e não precisamos ser santos, mas abusar de atalhos em busca de respostas para nossas inquietudes servirá apenas para voltar ao mesmo lugar de onde partimos. Vazios. Usar a nossa imaginação nua e crua pode ser um jeito revolucionário para conhecer versões muito mais interessantes de nós mesmos. Daí, um mundo totalmente novo poderá surgir. Basta imaginar… sem medo de despir a mente e mostrar para todos o que você tem aí dentro.

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