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A parábola da criatividade

A gente vê o tempo todo que as pessoas preferem atalhos para atingir o que muitos chamam de sucesso. Ironicamente, no dia a dia, para evitar desconforto, a maioria prefere também o caminho mais trilhado. Quando optam por um atalho, quase sempre é um que representa a certeza absoluta para atingir o objetivo almejado.

O conceito de sucesso é ambíguo.

De acordo com qualquer bom dicionário, “su.ces.so” seria um substantivo masculino: aquilo que sucede; acontecimento. Resultado, conclusão. E, para a maioria das pessoas, a parte que realmente interessa seria: êxito, resultado feliz. Em alguns casos, na cultura brasileira, até um parto pode ser chamado de sucesso.

Sucesso vem da sucessão de eventos. O que acontece logo em seguida do que estávamos fazendo. O resultado, não importa se bom ou ruim. O problema é que somos viciados no artificial gostinho doce da tal felicidade. Temos dificuldade em lidar bem com resultados que não se parecem com o esperado. Amassamos a folha e a lançamos em uma parábola, direto na lata de lixo.

A nossa cultura, de forma geral, lida mal com o que chamamos de insucesso. Temos dificuldade para reciclar ideias que não deram certo.

O erro constrange.

Se a nota for menor que 10, a gente berra. Se o quadro não agradou a crítica, o machado entra em ação. Se o texto não gerou muitas curtidas, abrimos uma garrafa de cachaça. Se o layout fez o cliente torcer o nariz, metemos um estilete na cartolina. Se a música gerou vaias, quebramos o violão no meio do palco. Se o nosso candidato não ganhou, choramos amargamente de punho fechado em riste.

A vida continua, inevitavelmente.

Cada papel amassado contém o DNA de um sucesso. Um fato simples que sucede os anteriores, e que pode se tornar algo grande se observado por outras perspectivas. A criação depende muito mais de como olhamos para a vida do que de nossa bagagem intelectual e acadêmica. O repertório que sempre facilita o verdadeiro “sucesso” em projetos criativos depende das emoções que investimos durante a nossa busca.

Da Vinci tinha o hábito de fazer longos passeios fora da cidade, na esperança de entender como a natureza funcionava. Os detalhes fascinavam o cara. Leonardo perdia um tempão observando a construção da sombra, o movimento da água numa cachoeira e como um pássaro voava. E não pense que acabava aí. Quando voltava para a cidade, era hora de observar as pessoas. Cacoetes, trejeitos e manias povoavam seus famosos cadernos de anotação.

O mestre italiano, nascido em 1452, bem no meio da janela histórica que chamamos hoje de renascimento, chamou a atenção de todos na época e de nós, 566 anos depois, simplesmente porque o número de obras inacabadas e rascunhos excede o que ele conseguiu entregar aos seus clientes. Claro que suas obras finalizadas são magníficas, enigmáticas e irretocáveis, mas o que impressiona o mundo da arte até hoje era o seu perfeccionismo. Ele anotava tudo, e tudo servia de inspiração. Seus rascunhos eram tão cheios de graça que tornaram-se tão ou mais valiosos que suas obras oficiais. Pergunte isso ao Bill Gates, que pagou 30 milhões de dólares por um dos cadernos de Da Vinci.

Publicitários leem muita literatura sobre publicidade; marqueteiros sobre marketing; jornalistas sobre jornalismo; artistas plásticos sobre história da arte; médicos sobre medicina, feministas sobre feminismo, etc. E isso está super correto. Entretanto, o nosso trabalho torna-se muito melhor quando exploramos novas possibilidades, quando olhamos para o outro lado da janela. Experimentar vai fazer os nossos rascunhos parecerem imbecis, às vezes, mas não amasse e jogue a folha fora. Esse pedaço de papel pode conter a chave para um evento futuro que ainda não sabemos. Aposto que você já correu atrás da faxineira quando lembrou que naquela folha descartada tinha algo que acabou salvando o dia (e o seu emprego).

Não há certeza para o sucesso, assim como não há certeza para nada. A previsão do tempo já provou isso muitas vezes. Ninguém casa pensando em divórcio, ninguém compra um carro pensando em acidentes, ninguém escreve um livro pensando em colocá-lo na gaveta apenas para si mesmo (se bem que alguns já fizeram isso). Enfim, antes de fazer aquela parábola com o seu rascunho, pense o quanto ele pode ser útil.

Não existem atalhos para o sucesso, simplesmente porque ele é apenas o que acontecerá logo depois do agora. Então, matematicamente falando, o que acontecerá daqui a pouco depende apenas das nossas decisões, sejam elas quais forem. A maioria dos nomes que marcaram a história positivamente fizeram coisas estúpidas em suas épocas; isso é um fato. O criativo é um alquimista por essência — segue insistindo na combinação de ideias e na colaboração com outras pessoas para transformar folhas de papel em pedras preciosas.

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Veteran

Escrito por William Barter

Autodidata em busca de novas perspectivas na aplicação da criatividade. Consultor de marketing e autor do livro "Imaginação: A Arma Mais Poderosa do Universo". Idealizador do projeto Crie & Ative, que oferece cursos e palestras sobre criatividade em escolas e empresas.

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