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O preço da criatividade

Essa é a primeira parte de uma conversa que aconteceu em algum lugar virtual, no meio do oceano Atlântico. Um colóquio que não tinha data para acontecer, mas que, definitivamente, ocorreria de qualquer forma.

Em uma mesa de bar perdida no meio do nada, duas mentes inquietas começam um bate papo despretensioso, que buscava entender os rumos da criatividade no mundo. Felipe Zamana serve os copos e dispara, sem cerimônia, o primeiro tiro:

— Olha só. Tava pensando aqui: o consumismo é um crescente problema em nossa sociedade, e com ele aparecem cada vez mais produtos de procedência duvidosa no mercado, incluindo o conceito de criatividade; você vê essa comercialização da criatividade como uma coisa positiva ou negativa?

O cara parece curioso, e eu presto atenção. Termino o gole de cerveja, antes de jogar a bola de volta por cima da rede.

— Há bem pouco tempo, o tema “criatividade” pertencia apenas às esferas artísticas. Mas, agora, com a ascensão vertiginosa da tecnologia e a crescente perda de empregos para as chamadas inteligências artificiais, vemos que a demanda pela habilidade criativa se expande na mesma proporção. É um processo natural que soluções baratas para uma demanda tão grande comecem a surgir de todos os lados. Sempre que uma nova disruptura abala o mercado, mudando processos culturais, aparecem os “mercadores de soluções”. Esses personagens não são necessariamente vilões. Eles podem trazer boas ideias, mas nem sempre é o que acontece. É apenas uma reação natural à uma necessidade premente, imediata e que exige respostas rápidas. E não seria diferente nesse nosso momento histórico, em que as coisas viajam à velocidade da luz. Hoje em dia, acreditamos que não dá para esperar muito por nada. Muitos empregos vão deixar de existir em breve, e muitos outros que ainda nem foram criados serão definidores para o mercado que desabrocha neste exato momento. A criatividade será comercializada, sim, inevitavelmente, como a educação formal é há tempos, o que que vem minando a sua credibilidade. A ditadura do mercado é implacável. Já é possível perceber que grandes empresas exigem pessoas criativas, a despeito de suas formações acadêmicas. Algumas criaram suas próprias escolas de formação, por não mais acreditarem na capacidade dos modelos tradicionais. Esse movimento já é suficiente para nos alertar sobre a falácia de uma criatividade que pode ser ensinada, via métodos prontos, e até mesmo medida e avaliada. A comercialização dessa nova habilidade tão valiosa acontecerá, mas estaremos apenas engrossando as filas de desempregados se continuarmos acreditando que algo tão poderoso e individual possa ser comprado pronto.

Eu me ajeito na cadeira, e largo o copo na extremidade da mesa, à espera de que ele não fique mais vazio. Do outro lado, ele fica lá, olhando pra mim, com uma interrogação nos olhos, como um fogo que não tem data para terminar. De repente, algo sai da sua boca. Um tiro.

— Entendi. Então vamos pensar um pouco mais: hoje, através da internet, qualquer pessoa pode se expressar e difundir suas ideias e opiniões; o que podemos aprender com os “gurus” da criatividade?

Percebo que a conversa vai durar.

— A internet deu voz a uma legião de imbecis, disse Umberto Eco. De certa forma, eu concordo com ele. Difícil é identificar quem são essas pessoas. E é ainda mais complicado nos proteger delas. As vozes mais potentes nas redes sociais são de celebridades que normalmente defendem argumentos rasos, até mesmo como estratégia, para atingir o máximo de pessoas possível. Os tais gurus que você mencionou já estão aí, como sempre estiveram. Como Eco mesmo disse, um dia eles ficavam restritos às mesas de bar, vendendo o “seu peixe” para uns poucos dispostos a ouvir seus argumentos, mas, agora, têm o poder da Internet em seus dedos para tocar o mundo. O desafio para os bem intencionados é fazer o que um amigo me disse há 20 anos, quando nem mesmo existiam redes sociais como as conhecemos hoje. Ele defendia a ideia de uma busca seletiva, e o desafio seria ter capacidade para selecionar com inteligência o que desejamos ver, ouvir e sentir. Claro que soa meio utópico, mas não vejo outra forma mais saudável, mesmo sendo tão complexa. Vamos achar botões piscando em todos os cantos de nossos computadores e dispositivos eletrônicos dizendo “seja criativo, clique aqui”. O que fazer nessas horas, já que estamos e estaremos cada vez mais desesperados para não nos tornar irrelevantes? Esses “gurus” poderão nos ensinar o que não aprender, e isso já será muito útil em uma cultura entulhada de mensagens que, na maioria das vezes, não querem nos dizer muita coisa, a não ser, é claro, que você digite o seu número do cartão de crédito.

Sim, os olhos do meu amigo ainda diziam que faltava alguma coisa. Então, era hora de abrir o peito e esperar novo disparo.

— Tudo bem. Então me fala mais desses “gurus”; você acha que eles acabam por criar e comercializar seus próprios modelos de criatividade? Qual o impacto desses modelos baratos de criatividade nas pessoas e nas empresas? Como podemos identificar e nos prevenir desses falsos profetas da criatividade?

A nova rajada vinha no meio de um gole mergulhado na espuma da cerveja. Eu hesitei um pouco, mas não pude evitar as palavras que me saiam.

— De forma geral, as empresas contratarão pessoas com diplomas de “curso de criatividade”, mas vão perceber que o mercado exigirá pessoas com uma capacidade que não pode ser ensinada: a imaginação. Os cursos de criatividade têm foco na habilidade de solução de problemas. Legal. De verdade. Mas, pessoas realmente criativas não somente resolvem problemas que já existem, elas percebem outros que ninguém ainda tinha visto. Como dizia meu amigo Arthur Schopenhauer, “talento é acertar um alvo que ninguém acerta; genialidade é acertar um alvo que ninguém vê”. De muitas formas é fácil identificar falsos profetas. Se a resposta que oferecem puder ser colocada numa caixa bonitinha, com a sua própria marca estampada, e vendida como a solução de todos os seus problemas, bastando para isso um ou alguns pequenos depósitos mensais, têm fortes chances de ser charlatanice. Não acredito numa criatividade pronta e acessível, pura e simplesmente. Explosões criativas no mundo quase sempre são frutos de necessidade e colaboração. É um processo cultural. Se há uma necessidade e as pessoas são estimuladas a colaborar, livremente, pelas vias superiores como mercados e governos, inevitavelmente haverá o desabrochar de múltiplos processos criativos. Por exemplo, a guerra une as pessoas e não dá tempo de vender cursos de criatividade. Todo mundo precisa dar o seu melhor, pois a sua sobrevivência depende disso. Gosto da ideia de criatividade do Roberto Menna Barreto. Para ele, somos criativos sempre que há um cão feroz correndo atrás da gente. Quando está tudo bem e funcionando, por que gastaríamos a nossa preciosa energia cerebral? Nesse momento crítico, no qual vemos um bando de “mercadores de soluções” baratas espalhados pelas avenidas digitais da vida, a melhor saída é acreditar que a minha criatividade não sairá das mãos de outras pessoas, mas de uma busca pessoal, quando podemos descobrir mais do mundo com nossos próprios meios, sem atalhos fáceis.

Imediatamente, levei novo baque. O cara não se cansava…

— Tá certo! Então você acredita que o nascimento desses novos modelos baratos podem contribuir para o estudo da criatividade?

Me instigava a questão que pairava sobre a mesa. Em poucos instantes, não consegui segurar o gosto de pólvora solto no céu da boca.

— É claro que, a escola tradicional, mesmo que bem intencionada, acabou matando a criatividade. De muitas formas. E isso já foi provado até pela ciência. Caso contrário, o mercado não estaria desesperado em busca de pessoas criativas. A escolarização chegou a níveis tão altos, mas não há pessoas qualificadas para o que esse momento exige tanto. Estamos em busca de mais e mais estudo e formação, sem encontrar uma resposta plausível para um patente e inexplicável deslocamento profissional. A alta demanda de pessoas criativas vai encher as ruas e a Internet de soluções baratas. Na época da bolha de tecnologia dos anos 90 explodiram cursos de informática. Eram caros, e viviam lotados. Hoje, ninguém precisa se formar em cursos como aqueles. A tecnologia tornou-se acessível, intuitiva e, mais que isso, presente em quase tudo o que fazemos. O problema é que a criatividade é uma habilidade inerentemente humana, individual e única para cada ser humano. E, na maioria das vezes, vem à tona se o caminho estiver devidamente pavimentado e se houver um propósito que a justifique. Talvez esses modelos baratos nos lembrem que a natureza humana não pode ser comercializada. Então, daí, poderemos achar novas formas de estimular o espírito criativo, dando mais liberdade às crianças, quando ainda em seus primeiros anos, no máximo de potencial que possuem, guiando-as rumo a uma sociedade que estará, sim, repleta de máquinas controlando quase tudo, claro, mas teremos mais gente jogando menos lixo nas ruas, nos rios e nos oceanos, cuidado da natureza, eliminando diferenças sociais que beiram a tragédia, além de criar cidades menos distantes de nossas necessidades mais básicas como frágeis seres biológicos. O estudo da criatividade passa não apenas por técnicas de concentração e exercícios. Conectar as disciplinas em projetos práticos, nos quais as crianças possam desenvolver ideias de inovação para necessidades reais seriam bombas atômicas em seus espíritos criativos. Basta ver os países que evoluíram com seus sistemas de educação como a Finlândia, Estônia e Singapura, deixando superpotências como Estados Unidos, Rússia e Espanha no chinelo. A criatividade não pode ser ensinada, apenas estimulada.

Meu amigo, depois de outro gole, me olhou com aqueles olhos inquisidores e não me deu trégua.

— Cara eu ainda tô meio curioso. Você acha que a criatividade pode se tornar uma peça indispensável no nosso dia a dia? E mais; como ela pode influenciar nossas decisões? Ah; e qual o impacto dessas “decisões criativas” na nossa felicidade e satisfação pessoal?

Sim, ele não sossegava, e eu não poderia deixar essa questão sem uma resposta. Seja ela qual fosse.

— A automação vai gerar um tipo de ditadura das máquinas. Cada vez mais, teremos um mundo repleto de funcionalidades 100% digitais, baseadas em algoritmos, a fim de dinamizar o dia a dia na maioria das metrópoles mundiais, e que, inevitavelmente, vão chegar a todos os cantos do planeta. Com isso, vamos precisar cada vez mais de pessoas com a capacidade de fazer aquilo que as máquinas ainda não são capazes de fazer: imaginar. Criar cenários impossíveis. Cenários caóticos. Quanto mais imaginação, mais a necessidade de máquinas com poder de processamento suficiente para avaliar a possibilidade de execução dessas ideias estranhas. As máquinas evoluem para sustentar a nossa capacidade de ter ideias. Quando veio o desejo de chegar à lua, não tínhamos capacidade computacional superior a um smartphone básico de hoje em dia. Mas, de uma forma quase mágica, chegamos lá. E essa decisão gerou infinitos desdobramentos, agilizando o desenvolvimento de tecnologias que não seriam possíveis hoje sem ela. A máquina mais poderosa do universo ainda é o cérebro humano. Buscamos um jeito de copiá-lo, usando métodos artificiais, mas ainda sem sucesso. Enquanto isso, podemos usá-lo para tornar as máquinas uma piada, meios de entretenimento, enquanto temos tempo para construir novas outras das quais, talvez, um dia, não possamos mais rir.

A segunda parte desse encontro pode vir a ser publicada, em breve. Mas, não há nenhuma certeza disso. Se você leu esse texto, agradeça ao caos desse universo. Se tem algo a dizer sobre isso, diga. Não guarde para si o que pode mudar a vida de alguém.

Na verdade ela já está no ar. Vai lá, se tiver um tempinho…

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Contributor

Escrito por William Barter

Autodidata em busca de novas perspectivas na aplicação da criatividade. Consultor de marketing e autor do livro "Imaginação: A Arma Mais Poderosa do Universo". Idealizador do projeto Crie & Ative, que oferece cursos e palestras sobre criatividade em escolas e empresas.

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