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O preço da criatividade 2

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O papo rendeu e seria impossível não compartilhar a segunda parte desse evento. Muita gente se interessou a sentar à mesa e participar com a gente da discussão do tema Criatividade. Então, se você tem uma mente inquieta e aprecia drinques, petiscos e uma boa troca de ideias, o nosso bar virtual está aqui: CRIATIVIDADE A SÉRIO. Seja bem-vinda(o)!

Quando o garçom veio saber se estava tudo bem e se queríamos mais alguma coisa, decidimos pedir outra rodada e esticar o tempo naquele espaço. Dessa vez tomei a arma das mãos do Felipe e comecei a atirar. 

— Cara, olha só; pra você, quais são os principais desafios para quem estuda o tema Criatividade?

Dava pra ver um brilho novo nos olhos dele. É um assunto que adora falar sobre.

— Costumo me divertir bastante ao ler em revistas, blogs e sites as benditas dicas para estimular a Criatividade, uma vez que, no fundo, são extremamente genéricas ou não querem dizer absolutamente nada. É quase um discurso político. Chamo isso de “conhecimento de superfície”. Com a temática em alta, pipocam diversos sabidos do assunto com dicas infalíveis para você ser mais criativo, juntamente com suas próprias definições de Criatividade, temperadas com bastante marketing/PNL e cobertura de chocolate para dar uma aparência vistosa. Claro que, à medida que se compreende a natureza esquiva da Criatividade, esse tipo de definição pode se disseminar rapidamente, até por não necessitar de uma comprovação. Assim, o conhecimento de superfície é um desafio para quem estuda Criatividade, pois muitas vezes acabam se sobrepondo ao real conhecimento para o público no geral, que é bombardeado por esse conhecimento de fácil digestão e acaba por tomar aquilo como verdade. A própria Criatividade possui seus dilemas e encruzilhadas, mas acaba por ter mais uma barreira a vencer por conta dos contos de fada que inventam. Complicado.

— Sim, é verdade. Muito legal o lance do “conhecimento de superfície”. Agora, pra mim a Criatividade tornou-se algo valioso nos dias de hoje; a despeito dos mitos, o que poderá acontecer com a criatividade em um mercado que a exige cada vez mais?

Zamana alcançou o copo vazio e o balançou na minha direção. Sim, claro, se quer rir tem que fazer rir. Peguei a garrafa e reabasteci o receptáculo de onde pareciam sair todas aquelas ideias. Só que não! Mas, enchi assim mesmo. Depois de um gole, a coisa recomeçou.

— É natural que surjam novos mitos a respeito da Criatividade, que se tornarão os desafios de amanhã para sua real compreensão. Hoje em dia, tem-se a ideia de que ninguém sabe ao certo como a criatividade acontece, mas o “criativo” (como são chamados agora) é uma espécie de profeta, dotado da extraordinária capacidade de aceder ao inconsciente coletivo, onde supostamente pairam todas as possíveis ideias que aguardam para serem “descobertas”. Ele, que é um porta-voz da Criatividade na terra, é capaz de se conectar com outra dimensão onde o fenômeno mágico da criação acontece e, apesar de estar além da sua compreensão o porquê disso acontecer, é através de si que essa sabedoria é canalizada e se concretiza em forma de uma ideia magnífica no nosso plano terreno. Claro que por 3 parcelas de $99,90 você pode aprender com os maiores especialistas da área como se tornar um profeta criativo também. (Aposto que neste momento você está procurando onde pode colocar seu email e comprar agora o curso, que tem até certificado!).

Sim! Definitivamente, o álcool está fazendo efeito. Quando começa o sarcasmo sempre vem uma chuva de granizo logo atrás.

— Tá bom. Então me diga o que pode acontecer se a criatividade se tornar um produto comercial ou uma ideia filosófica, explorada por gurus e empreendedores mal intencionados?

Dessa vez, antes de atirar de novo, já tinha enchido a sua caneca para evitar reclamações desnecessárias, já que a minha curiosidade é mais importante que os caprichos do meu parceiro.

— A Criatividade já se tornou um produto comercial, como expliquei anteriormente. Tarde demais. O problema é a coitada da ideia filosófica que é negligenciada. Nesse ponto, bom seria se os gurus comercializassem uma ideia filosófica, pois promoveriam o questionamento. A filosofia só faz perguntas, não dá respostas. Por outro lado, os gurus oferecem soluções práticas, desconsiderando a complexidade e a individualidade de cada um. Ai o que acontece? A fórmula funciona meia-bomba ou nem funciona, e a pessoa passa o resto da vida acreditando que não é criativa. E quando realmente se deparar com alguém que sabe do assunto, está toda lascada e cheia de bloqueios que nem Freud conserta. Mais trabalho para nós.

Eita, o cara ficou nervoso.

— Para quem estuda a criatividade e desenvolve projetos nessa área, você acredita ser possível estimular e desenvolver essa habilidade em adultos? — Nem esperei esfriar a última resposta.

— Engraçado você me perguntar isso, porque para mim a resposta é óbvia. As crianças são criativas por natureza. Não é preciso ensiná-las a ser, elas simplesmente são. Entretanto, conforme crescem, são podadas por todos os lados possíveis, e isso culmina em adultos inférteis em Criatividade. A partir daí, é preciso preparar o terreno todo novamente, para que volte a dar frutos.

Já deu pra perceber que o assunto mexe com o espírito dele. Não é à toa que mudou de país e de continente pra ir em busca de repostas para esse tema que tanto o incomoda. Pra não perder o momento, aproveitei pra jogar uma última pergunta, afinal, esse papo já tá longo e precisamos voltar à realidade.

— Felipe, tô pensando aqui: com a ascensão das IA’s, qual será um possível futuro para as escolas e o tipo de alunos que elas formarão para um mercado em constante mudança?

Dessa vez, parece que ele curtiu mais a pergunta. Secou o copo, me deu aquela olhada de quem vai saltar de um avião com o seu paraquedas favorito e destrinchou.

— Meu amigo, essa é uma excelente pergunta. Não que as outras não sejam, mas você entendeu o que eu quis dizer. As IA/máquinas chegaram para ficar, isso é fato; e como muitos estudiosos estão dizendo por ai, funções e profissões com atividades repetitivas serão realizadas pelas máquinas, que fazem isso bem melhor, cobram bem menos e não saem de férias; pelo menos por enquanto. Vai saber. Em todo caso, a escola como conhecemos hoje deixará de existir (aliás, já deveria ter deixado!) e dará lugar para uma escola que foca e estimula tanto o pensamento quanto a nossa querida amiga Criatividade. Os jovens vão aprender como se adaptar, criar e inovar, além de outras habilidades e competências essenciais para um futuro digital e “smart”. Além disso, já podemos observar que em sala de aula os professores competem contra os eletrônicos a atenção dos alunos – e aqueles professores que ficaram no século passado estão perdendo de lavada. Os que decidem se atualizar, tem algumas opções, mas comento duas: usam as tecnologias a seu favor, integrando o uso desses equipamentos eletrônicos no dia-a-dia do aluno, com recursos como a gameficação, por exemplo; ou assumem o papel de orientador, que propõe um desafio e auxilia o aluno nesse processo de descoberta, permitindo que ele seja o protagonista de sua própria aprendizagem. Eu particularmente sou fã desta segunda opção, pois já demonstra um desmame do modelo de ensino anterior, criado no século XIX. Claro que essa relação aluno-orientador é semelhante ao que os filósofos gregos faziam com seus discípulos, mas funciona lindamente bem, uma vez que ensina os alunos a pensarem. Penso, logo crio, não é mesmo? 

 O garçom já começava a dobrar as mesas; então era hora, sim, de partir. Cada um pegou o seu caminho de volta pra casa, mas não sem antes deixar marcado um novo encontro, quando poderemos falar mais sobre a nossa amante em comum: a Dona Criatividade. Em breve, muito em breve…

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Contributor

Escrito por William Barter

Autodidata em busca de novas perspectivas na aplicação da criatividade. Consultor de marketing e autor do livro "Imaginação: A Arma Mais Poderosa do Universo". Idealizador do projeto Crie & Ative, que oferece cursos e palestras sobre criatividade em escolas e empresas.

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