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Time: Person of the Year 2018

No último dia 11 a revista TIME divulgou suas edições especiais voltadas à personalidade do ano. Costumeiramente divulgadas no final do ano, as edições de 2018 trazem os “Guardiões na Guerra Pela Verdade”, ou, mais especificamente, os jornalistas que cumprem seu papel colocando a veracidade das notícias acima de tudo, como homenageados. Em um contexto em que estratégias de comunicação extremamente nocivas vem ganhando força, essa homenagem se mostra mais do que necessária: é vital para mostrar a importância de uma classe que mantém a população informada e consciente das notícias pelo mundo todo.

https://www.youtube.com/watch?v=Hsq7CuaLoaw

Ainda para justificar a escolha da TIME, um relatório feito pelo Comitê de Proteção aos Jornalistas (CPJ) divulgado esse ano mostra que pelo terceiro ano consecutivo o número de jornalistas presos ao redor do mundo passa de 250. O relatório, realizado desde 1990, registrou que em 2018 251 jornalistas encontram-se encarcerados, contra 262 em 2017 (recorde histórico) e 259 em 2016.
O estudo ainda mostra que os países com maior número de jornalistas detidos são Turquia (68), China (47) e Egito (25), sendo que, do total, 70% dos presos enfrentam acusações por agirem contra o Estado. Vale ressaltar ainda que o censo considera os que estavam encarcerados desde o dia 01/01/2018, não incluindo jornalistas presos e libertados no decorrer do ano. O levantamento inclui somente os profissionais encarcerados sob custódia do governo e não contabiliza os desaparecidos ou mantidos em cativeiro por organizações não estatais.
Representando esse tipo de perfil de jornalistas como um todo, as quatro capas variantes da TIME foram muito bem representadas, trazendo exemplos do mundo todo.

Jamal Khashoggi

Jornalista natural da Arábia Saudita, morava nos EUA e colaborava com o jornal Washington Post. Ganhou as manchetes no mundo todo ao ser assassinado em outubro desse ano no consulado de seu país em Istambul, na Turquia. Jamal era conhecido por ser um forte crítico ao governo saudita (especialmente do príncipe coroado Mohammad bin Salman, que supostamente ordenou seu assassinato) ressaltando a falta da autonomia da imprensa em países árabes. Em seu último artigo publicado, “O que o mundo árabe mais precisa é de liberdade de expressão” ele diz que “O mundo árabe precisa de uma versão moderna da antiga mídia internacional para que os cidadãos possam ser informados sobre eventos globais. Mais importante, precisamos fornecer uma plataforma para vozes árabes.”

Jornalistas da Capital Gazette

No dia 28 de junho o terrorista Jarrod Ramos abriu fogo contra a redação do jornal Capital Gazette, em Annapolis, estado americano de Maryland, deixando cinco mortos e dois feridos.
Logo em seguida após o atentado, em um esforço para relatar os fatos do ocorrido, jornalistas sobreviventes da redação montaram um esquema improvisado em um estacionamento de um shopping próximo a fim de fechar a edição do dia seguinte, trazendo a notícia do massacre.
O terrorista em questão registrou um processo de difamação contra Eric Hartley, ex-jornalista e colunista do grupo Capital Gazette, e contra Thomas Marquardt, na época editor do grupo, de acordo com documento judicial. Ainda segundo esse documento, o terrorista havia assediado uma mulher pelo Facebook e posteriormente foi declarado culpado de assédio pela justiça. Mesmo com recurso do terrorista na época, o tribunal decidiu que o conteúdo do artigo era verdadeiro baseado em registros públicos, e em 2015, uma corte superior de Maryland confirmou a decisão.

Maria Ressa

Jornalista filipina, Maria Ressa é ex-repórter de sucursais da rede CNN e criadora do site de notícias Rappler. Crítica ferrenha do governo de seu país natal, especialmente em relação a chamada ‘Guerra as Drogas’ praticada pela atual administração (que segundo Tribunal Penal Internacional (TPI), já deixou aproximadamente mais de 12 mil mortos desde 2016). O atual presidente, Rodrigo Duterte, inclusive anunciou a retirada de seu país do tratado do TPI após novas denuncias de assassinatos em março desse ano.
Tentando minar a atuação jornalística de Maria, o governo filipino tem acusado o site de notícias Rappler de fraude fiscal (cuja fiança de 60 mil pesos, cerca de R$ 4.500, foi paga pela jornalista no dia do lançamento da edição da revista TIME que a trouxe na capa), e também já tentou, sem sucesso, cassar a licença de funcionamento do mesmo.
A investida do governo contra o Rappler intensificou-se após uma série de reportagens divulgadas mostrando o presidente Duterte e seus aliados utilizarem contas falsas em redes sociais e pagamento a ‘trolls’ para enviarem mensagens em massa a fim de manipularem a opinião pública.

Wa Lone e Kyaw Soe Oo

Os repórteres Wa Lone e Kyaw Soe Oo foram presos na noite de 12/12 de 2017, após se encontrarem com dois policiais que, segundo eles, lhes entregaram documentos supostamente confidenciais relacionados ao massacre de muçulmanos rohingyas (minoria muçulmana do país, vítima de restrições à liberdade de circulação e confisco de terras) em 2017. Os dois jornalistas investigavam a morte de dez homens da minoria rohingya, envolvendo soldados e a polícia em Inn Din, no estado de Rakhine. Na noite da prisão de ambos, os repórteres encontraram-se em um restaurante da capital e sentaram-se à mesa com dois agentes com quem não tinham contato prévio. Lá, os militares lhes entregaram documento para que, minutos depois, Wa Lone e Kyaw Soe Oo fossem detidos. O encontro era uma emboscada para apanhar os dois jornalistas.
Desde então, ambos foram condenados a sete anos de prisão, acusados de violarem a lei de segredos oficiais de Mianmar.
O massacre investigado pelos jornalistas de dez meninos e homens rohingyas aconteceu durante uma operação repressiva do exército nacional que começou no mês de agosto do ano passado. Desde então, mais de 700 mil pessoas dessa etnia fugiram para Bangladesh, Malásia, Índia, Nepal e EUA.

A era da pós-verdade
Recentes marcos sociais serviram como palcos para divulgação de notícias falsas voltadas a manipulação da opinião pública, disseminadas com o auxílio da internet e das redes sociais: a eleição de Donald Trump nos EUA e o plebiscito do Brexit, no Reino Unido, foram as principais.
O termo “pós-verdade” foi usado pela primeira vez em um artigo da revista “The Nation” dos EUA, em 1992, mas popularizou-se somente em 2016, quando a Oxford Dictionaries (departamento da Universidade Oxford responsável pela publicação de dicionários) elegeu o termo como a palavra do ano da língua inglesa. O termo, por ser novo, ainda não possui uma definição ‘finita’, mas basicamente pode ter seu significado interpretado como o processo pelo qual as emoções e convicções pessoais passam a ter mais relevância que fatos objetivos (especialmente nas escolhas políticas). Ou seja, a veracidade dos fatos perde espaço para a opinião em si. A falta de convicção nas fontes de informação (como por exemplo, representantes políticos) resulta em indiferença, comodismo. E, em seguida, abre espaço para a conivência. Dentro desse cenário, em que teoricamente todos protegem um interesse particular e não a veracidade dos fatos em si, as pessoas se apegam as notícias que correspondem as suas expectativas e visão de mundo.
No Brasil, as eleições de 2018 foram marcadas por exemplos práticos da definição acima, com cerca de 12 milhões de pessoas compartilhando fake news em todo o país somente em junho deste ano, segundo levantamento do Grupo de Pesquisa em Políticas Públicas para o Acesso à Informação (Gpopai), da Universidade de São Paulo (USP). Recentemente, as vésperas do anúncio da TIME de personalidade do ano escolhida para o ano de 2018, o presidente eleito Jair Bolsonaro circulou como o nome escolhido pela revista por alguns de seus apoiadores, indo diretamente contra o posicionamento da mesma em sua homenagem aos jornalistas que lutam pela verdade.

Imagem falsa de que Bolsonaro seria o homenageado do ano pela TIME

No contexto da pós-verdade, mesmo quando representantes públicos e pessoas em geral são desmentidas, alguns ‘militantes’ continuam a repassar suas próprias versões dos fatos, conforme seus interesses. É possível ressaltar que a simplicidade do que é falso faz mais sentido para uma parcela da população do que o complexamente verdadeiro. Nesse cenário, chamadas como a da TIME sobre o tema se tornam extremamente importantes, ressaltando como muitos profissionais dedicam suas vidas a fim de divulgar a veracidade das informações que consumimos todos os dias.

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Expert

Escrito por Estevan Sanches

Publicitário, movido por tentar compreender as diferentes relações sociais que movem o nosso mundo. Membro no conselho do Centro Acadêmico 4 de Dezembro da ESPM.

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