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Red Sparrow e o preço de ser especial

Nas artes plásticas elas eram retratadas como belas donzelas, mas na Odisséia os adjetivos destinados às Moiras eram outros: sinistras, desprovidas de intelecto e quase cegas. Esses seres tão pouco cativantes, na obra de Homero, teciam o destino dos homens – as bênçãos e os revezes chegavam a cada um por “acaso” mesmo: elas costuram o fio da vida sem muito refletir ou enxergar.

Bastava alguém se destacar da multidão, sair da mediocridade mesmo, para que as Moiras que, lembrando, são QUASE cegas voltassem sua atenção para aquele ser acima dos padrões. A partir daí, elas teciam um destino “sob medida” para o indivíduo em destaque. E isso não é nada bom.

Pense em todas as pessoas que se destacaram muito na história da nossa humanidade: em algum momento, esse homem ou essa mulher tiveram que enfrentar algum sofrimento “desproporcional”; tiveram que sentir na pele uma tragédia igualmente acima da média.

Ouvi essa reflexão numa aula de filosofia e o ensinamento voltou à tona ao rever o ótimo filme Red Sparrow, dirigido por Francis Lawrence e protagonizado por Jennifer Lawrence.

Jennifer Lawrence

No filme, JLaw é Dominika, uma jovem bailarina russa que tem que cuidar de sua mãe doente. Ela, que sempre quis ser especial, viu seu sonho junto ao Bolshoi e os palcos ruir depois de um acidente que lhe rendeu placas e pinos nas pernas.

Sem a ajuda direta do governo, que detém o ballet de Bolshoi, Dominika se vê obrigada a encontrar outras formas de continuar zelando por sua mãe. Aí então entra seu tio linha-dura na jogada: ele, que é do serviço secreto russo, a convence a se tornar uma espiã, a fim de ajudar a Rússia a se tornar a maior potência mundial, ultrapassando os americanos.

Em um dos primeiros diálogos marcantes do longa (são vários), ela explica que ser bailarina era algo que a fazia sentir diferente dos demais e que gostaria de continuar assim, enxergando a si como um ser especial.

Como era de se esperar, as Moiras teceram um destino só para a moça: torturas, dramas psicológicos e muitos traumas surgem no caminho da moça, que nos conduz por uma narrativa adulta, calçada na complexidade da psique humana – “as pessoas são quebra-cabeças incompletos, descubra a parte que falta e seja essa parte”, você ouvirá em diferentes momentos do enredo.

Poder, ganância, lealdade, sexo e patriotismo permeiam essa história que nos leva a Moscou, Viena e Londres, em viradas de narrativa imprevisíveis.
Não recomendado para quem sofre de ansiedade, o longa cumpre a nobre missão de ser catártico: ao acompanhar a “avaliação” comportamental de cada personagem e entender a necessidade deles, é possível traçar um paralelo com nossos desejos, medos e traumas, bem como aplicar essa “ferramenta” em quem nos cerca.

Com cortes secos e viradas constantes, a narrativa tem a agilidade dos novos tempos, mas não desmerece o caráter atemporal das grandes cidades que lhe servem de cenário, sobretudo Moscou, a capital da Rússia, onde se passa boa parte do filme.

Também embarcamos nas relações construídas ao longo da história, torcendo por uns e por outros, mas desconfiando de todos – as mentiras e verdades contadas para ambos os lados se confundem, e por algum tempo mocinha e vilã parecem dividir o mesmo corpo.

Esse “detalhe” de que a protagonista é uma mulher forte, aliás, é outro ponto que distancia esse filme dos demais. Jennifer Lawrence já até parece acostumada a encarnar personagens assim, e aqui o faz com a propriedade que só quem detém uma estatueta do Oscar parece ter. Baita papel corajoso.

O elenco ainda pouco explorado por Hollywood acompanha a grandiosidade da protagonista: Joel Edgerton e Matthias Schoenaerts entregam performances surpreendentes, sem exageros – ocupam as cenas na medida certa.

Por pouco mais de duas horas, seguimos com os olhos e o coração a trajetória de uma garota especial, mas que diferente de todos os outros que se sentem assim, está disposta a enfrentar as consequências (e as dores) que isso implica. Recomendo fortemente. Você encontra o filme nos serviços de streaming (como o Telecine Play).

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Escrito por Gustavo Giglio

Updater, sócio do UoD, diretor de marketing/novos negócios.

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