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O lado sombrio da mente

“Uma pessoa comum maravilha-se com coisas incomuns;
um sábio maravilha-se com o corriqueiro.”
— CONFÚCIO

Qual foi a última vez que você enviou uma carta manuscrita para alguém? Nunca, eu acho. Essa é uma prática que está em completo desuso. Pessoas acima dos 30 anos talvez tenham tido a chance de passar por isso. Sentar e escrever com as próprias mãos um texto no qual expressamos nossos sentimentos. E não se engane, há emoção, e muita, no tipo de caligrafia e em como o texto é construído. Os detalhes contam muito sobre o autor de uma carta tradicional, registrada em tinta e papel.

Muito do que sabemos hoje, é possível por causa de cartas trocadas entre personagens importantes da nossa história. No futuro, quando historiadores pesquisarem esse nosso tempo, ou seja, o berço da tecnologia conectada, será possível fazer uma leitura clara e real do que estamos fazendo?

E-mails são enviados instantaneamente. Usam tipologia (fontes de letras) padrão. E, devido ao volume e ao estresse da pressa, quase sempre são resumidamente superficiais, e, em muitos casos, beiram à impessoalidade. No passado, era longo o tempo necessário para uma carta chegar ao seu destino. Algumas vezes, o cenário descrito tinha mudado e a mensagem havia perdido parte de seu propósito. Por esse motivo, imagino eu, havia todo um cuidado com o que seria dito; afinal, as emoções do destinatário, e a sua resposta, é claro, estavam em jogo.

Com o passar do tempo, a tecnologia facilitou o processo de envio de mensagens, tornando-o cada vez mais rápido, e, com isso, eliminando a necessidade de formalidades, tornadas desnecessárias. O telégrafo, por exemplo, era um meio sofisticado para a sua época, mas limitado no volume de informações a serem enviadas. Por isso, custava caro o envio de um telegrama, que cobrava pela quantidade de letras. Começava aí a era do “estritamente necessário”.

Mesmo depois do Fax, e da Internet, que facilitaram o processo, democratizando cada vez mais o envio de mensagens, nos acostumamos com a ideia de ficar ali na superfície, onde tudo parece mais fácil. Podemos escrever o quanto quisermos, mas preferimos os grunhidos comuns do dia a dia, só para facilitar; afinal, tempo é dinheiro. E o pacote de dados expira mais rápido que a leitura desse texto.

Recentemente, tropecei por acaso em um documentário sobre o famoso desconhecido Stanislaw Szukalski (xúcausqui, em bom “polonês”); um escultor que se atreveu a zoar o poderoso fuhrer alemão, pouco antes de deflagrada a segunda guerra mundial. No filme, que é uma bela produção da Netflix, um sorridente velhinho de quase noventa anos é gravado falando de suas ideias. A maioria delas muito estanhas. Szukalski viveu entre os Estados Unidos e a Polônia durante a primeira metade do século XX. Autodidata, surpreendeu professores, criando seu próprio alfabeto, quando ainda era criança. Brigou com o primeiro mestre escultor, o que o levou a investir na própria carreira, sem seguir regras. Decidiu escrever sua história, com as próprias mãos. O que lhe custou muito caro.

O artista que chegou a ser chamado de Michelangelo do século XX, terminou seus dias sozinho, numa casa simples, cravada no meio de um dos subúrbios de Los Angeles. Mas, antes disso, foi convidado pelos nazistas a criar uma peça que refletisse a grandeza de Hitler, o que foi respondido com um rascunho do chanceler alemão dançando balé, com a devida indumentária feminina. Talvez esse tenha sido o motivo dos nazistas escolherem a Polônia para iniciarem o seu maldito projeto de dominação do mundo. Mas, essa é apenas uma ideia boba desse escritor. Szukalski, entre altos e baixos, entre idas e vindas de sua terra natal, ficou rico e famoso, pobre e odiado, terminando seus dias num canto esquecido da Califórnia.

Mas, nada disso o abalou. Nem mesmo o fato de suas grandes criações terem sido destruídas durante a segunda grande guerra. De volta aos Estados Unidos, continuou firme no propósito de tornar a sua arte algo real, de inquestionável originalidade. Claro que isso acabou colocando seu nome orbitando o lado errado da lua, onde não se vê nada. Viúvo, continuou escrevendo suas teorias, incansavelmente, mesmo sofrendo o peso da idade e a solidão que nunca lhe soltava a mão. Até que um estudante curioso resolveu lhe fazer uma visita. Anos de amizade, mais de 200 horas de fitas gravadas e 30 anos até que alguém resolvesse trazer à luz sua história.

Para saber qual a sensação, você terá de assistir o documentário. Impossível descrevê-la usando apenas palavras. Principalmente nessa fonte Garamond, a minha preferida!

Já avançado em idade, ele ainda não tinha perdido aquela energia que os jornais antigos registraram sobre sua juventude. Uma inquietação que pessoas criativas normalmente têm. Mihaly Csikszentmihalyi (que nomezinho, viu!) comenta em seu livro Creativity: The Psychology of Discovery and Invention, que pessoas aplicadas ao seu potencial criativo, embora nem sempre conscientes, estão sempre criando pontes no mundo das ideias. Para ele, é a insatisfação com a rigidez das coisas que torna possível grandes avanços criativos.

Existe um movimento pelo mundo que prega o aprendizado da escrita manual. A tecnologia está facilitando as coisas, e praticamente não precisamos escrever quase nada hoje. Mas, para essas pessoas, é importante manter a arte da escrita viva, já que a ciência vem provando o seu valor. Estudos feitos pelas universidades de Indiana e da Califórnia mostraram que escrever à mão envolve partes do cérebro que a digitação e o envio de mensagens não conseguem, melhorando a maneira como as pessoas processam e recuperam informações.

A tecnologia está fazendo um excelente trabalho, mas é preciso cuidado nas escolhas rápidas que fazemos, na ânsia de não perder o bonde da história.

Francielly Barbosa, a menina do açaí, mostrou que ideias geniais precisam, sim, de uma forte dose de insatisfação. Moradora de Moju, uma cidade a 70 km de Belém, ela se sentia incomodada com a situação de seu bairro, apinhado de barracos que mal se sustentavam sobre o inquieto chão, que era uma mistura de aterro, lixo e caroços de açaí. A estudante levou a ideia para o simplório laboratório de sua simplória escola, onde, com o apoio de seus professores, encontrou uma solução para as trêmulas casas de seus vizinhos. As sementes viraram mistura química, que fez o papel de cimento na composição de tijolos que podem ser feitos com o material que sobeja em todos os quintais daquela região. Problema resolvido, usando a própria questão como combustível para solucioná-la. Bastou apenas uma pessoa se incomodar e agir.

Não precisamos jogar fora nossos computadores, e voltar a escrever cartas uns para os outros. Precisamos de uma boa dose de Thaumázein. Em grego, capacidade de se deslumbrar, de se espantar com descobertas. Algo que veio da filosofia antiga. Essa palavra esquisita é o espírito que nos torna pessoas inquietas, em busca de respostas. O mundo digital nos tirou a chance de escrever textos com o charme inquestionável que há numa folha de papel riscada de tinta e símbolos. Não conseguimos esconder nossas emoções quando usamos nossa própria caligrafia. As letras nos condenam. O que é difícil acontecer em um e-mail padronizado. Acredito que podemos “escrever” melhor, se houver mais curiosidade e disposição para encontrarmos beleza no corriqueiro do dia a dia.

A sabedoria não é boba, e pode usar a tecnologia para se emancipar. Há beleza desenhada com bits e bytes. O que importa não é o meio, mas, sim, a mensagem. Szukalski era um artista inveterado, turrão e cheio de ideias estranhas, algumas até demais. Mas não perdeu o bonde da história. Escreveu suas teorias em grossos volumes que ele mesmo colou página a página, usando um alfabeto próprio, mesmo que ninguém quisesse lê-los.

E, o mais interessante, não se sentiu nem um pouco incomodado quando colocaram uma câmera diante dele. O misantropo, que quase terminou seus dias sozinho, abraçou uma tecnologia que lhe parecia estranha, mas que também o deslumbrava. Ver a si mesmo na televisão, depois de gravadas as imagens, soava como um milagre. Talvez o que tenho tornado sua obra eterna.

Hoje, suas cinzas dormem na ilha de Páscoa; local onde imaginava estar as origens da humanidade.

As facilidades do mundo moderno tornam tudo mais fluido; mas acabam, de alguma forma, apagando luzes em importantes espaços de nossas mentes. Nos fazendo amantes da conveniência. Muitos cantos escuros de nossa imaginação guardam surpresas capazes de revelar animais fantásticos. Precisamos apenas de um fio de luz para liberar esse poder. “Dia gar to thaumazein hoi anthropoi kai nyn kai proton erxanto philosophein”, diz Aristóteles, em A Metafísica — Pelo espanto os homens chegam agora e chegaram antigamente à origem imperante do filosofar.

Francielly e Szukalski enviaram uma carta ao futuro. Criaram seu próprio alfabeto e escreveram com sangue, suor e açaí. O eterno questionamento, inerente à natureza humana, pode nos fazer experimentar o deslumbramento em descobertas incríveis. Sejam em sementes de frutas ou numa casa cheia de baratas e esculturas inimagináveis, habitada por um velhinho esquisito, dono de uma história tão interessante que nenhum livro se atreveu a registrá-la. Mas, lembre-se: nada está livre do poder da Internet. Absolutamente, nada!

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Escrito por William Barter

Autodidata em busca de novas perspectivas na aplicação da criatividade. Consultor de marketing e autor do livro "Imaginação: A Arma Mais Poderosa do Universo". Idealizador do projeto Crie & Ative, que oferece cursos e palestras sobre criatividade em escolas e empresas.

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