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Em tempos de inteligência artificial, a curadoria musical ainda pede humanidade

máquina alguma será capaz de tornar o homem obsoleto quando o assunto é música, sobretudo no que tange a curadoria

Narrativas distópicas costumam colocar máquinas e homens em lados opostos, em batalhas por vezes sanguinolentas, cujo objetivo final é a aniquilação completa do “adversário”. Longe desses típicos enredos hollywoodianos, a realidade se revela de uma maneira bastante distinta: a inteligência artificial, que já é uma realidade, não trabalha para dominar o mundo — muito pelo contrário.


No campo musical, por exemplo, computadores estão auxiliando produções internacionais a fim de ajudar artistas a encontrarem a tão sonhada “batida perfeita”. Lá em 2016, a primeira música inteiramente composta por inteligência artificial foi lançada ao público — você pode ouvir abaixo.

A presença da inteligência artificial no mercado fonográfico é tamanha e tão marcante que o SXSW deste ano destina uma roda de conversas apenas para o tema, mas sem nenhuma pretensão de alarde. Ali, o papo vai ser mesmo sobre como máquina alguma será capaz de tornar o homem obsoleto quando o assunto é música, sobretudo no que tange a curadoria.


Embora os algoritmos estejam avançados neste campo e apresentem uma curadoria muito acima do satisfatório, áreas que lidam com emoção humana precisam, obrigatoriamente, da sensibilidade que nos é particular e intransferível.


Além de nos colocarmos como “professores” dessas máquinas, que evoluem com os nossos dados e aprendizados, sabemos que pouco pode ser ensinado às máquinas sobre as sutilezas linguísticas, por exemplo, que nos permite metáforas, anedotas, figuras de linguagem e outras retóricas cruciais para uma música histórica.


Encarar a revolução digital como uma forma de viabilizar o acesso de mais pessoas ao mercado fonográfico, bem como a possibilidade de ter em mãos uma máquina capaz de auxiliar a análise de desempenho de uma trilha sonora, sugerindo algumas mudanças e balizando os resultados, é sempre um alento.


Da mesma forma, é infértil tentar frear a computação ou temer que ela tome o trabalho de compositores, produtores, músicos e artistas — a inteligência artificial, vale lembrar, repete padrões ensinados, enquanto a criatividade humana caminha justamente na direção oposta.


Na roda de conversa que acontece nas próximas semanas, em Austin, os participantes terão a chance de dialogar com líderes deste mercado e entender de uma vez por todas que o ser humano não responde a um computador, embora possa se aproveitar dele. Coração, afinal, é feito de carne e osso, uma equação nada previsível e incomputável.

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Written by Eloa Orazem

Sobreviveu ao retorno de Saturno, mas não o fez intacta: se (des)fez em pedaços ao longo do caminho, e agora tenta montar um quebra-cabeça pessoal que faça algum sentido. As dúvidas e as mudanças perdoam a carreira -- Eloá é jornalista há dez anos, e tem passagens por revistas, sites, televisão e rádio.

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