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As três maneiras de se viajar no tempo (nas histórias, claro)

Todos nós, em algum momento, já nos imaginamos viajando no tempo.

Quem não gostaria de saber o que irá acontecer no futuro? Ou quem nunca pensou em voltar ao passado para corrigir algum erro – ou comprar um almanaque de esportes em 1955 com todos os resultados para se tornar bilionário apostando nos times que irão ganhar?

– I understood that reference!

O fato é que, no mundo real, por enquanto, você só conseguiria realizar o primeiro desejo; ok, precisaria de uma nave espacial muito, muito, muito rápida pra isso.

Um parênteses no tema principal. Todos nós conseguimos viajar para o futuro 1 segundo por segundo (tum dum pxxxx!), mas, em 1955, Einstein formulou sua teoria que estabelecia uma relação entre espaço, tempo e gravidade. Fazendo breve uma longa história, quanto mais rápido você se movimentar, mais lentamente o tempo passa para você; o que significa que, ao retornar ao ponto de origem, menos tempo se passou para você, não para os outros. Logo, você está com a mesma idade, no futuro. Lembra do filme Interestelar? Neste aspecto não há ficção. Este texto da Revista SuperInteressante de 2013 traz uma explicação bem didática sobre a relação espaço-tempo.

A comprovação desta teoria – lembrando que “teoria científica” é diferente de “teoria” no sentido popular -, pode ser vista nos necessários ajustes dos relógios dos satélites de GPS, usados para medir o tempo de resposta de um sinal enviado a um aparelho na Terra, em função da velocidade com que orbitam o planeta. A diferença, neste caso, é de 45 microsegundos por dia; parece pouco, mas isto significaria um erro de 10 quilômetros a cada dia, ou seja, você olha seu GPS amanhã e ele indica que você pode estar na Torre da Liberdade ou no Central Park. Em 10 dias você não sabe mais se está na Avenida Paulista ou comendo coxinha de frango com catupiry em Sorocaba.

The Time Machine (H.G. Wells)

Mas, voltando à vaca fria viagem no tempo em narrativas ficcionais. Entendendo que a passagem de tempo é relativa ao indivíduo e que, até o momento, não há nenhuma teoria que viabilize a viagem ao passado, como as narrativas de entretenimento (filmes, games, livros), com a devida licença poética que lhes é permitida, tratam as consequências e paradoxos da viagem no tempo?

Não falo aqui da construção de narrativas com cronologia reversa ou não linear, mas da real incorporação de um viajante do tempo (personagem ou objeto) na trama.

Antes de mais nada, temos como premissa que uma narrativa sempre acontece aos olhos de alguém, do(s) personagem(ns) ou do espectador, um ser onipresente mas nem sempre onisciente até que a história lhe revele o que precisa ser revelado no momento certo.

Viagens ao futuro são relativamente simples de serem usadas em narrativas, pois nada mais retratam o desenrolar natural do tempo na ausência do protagonista e/ou apresentam o universo ficcional narrativo. Quando, em Planeta dos Macacos (1968, 2001), descobrimos que – SPOILER ALERT – eles não estavam em outro planeta, mas em uma versão futurista da Terra ou em A Máquina do Tempo (1895, 1960, 2002), o único choque é a curiosidade sobre a sequência de eventos que levou o mundo àquela situação, algumas vezes usada como plot twist.

Porém, o mais ‘divertido’ são as viagens ao passado. Ah, o poder de alterar linhas do tempo, moldar o futuro, já ocorrido, à sua vontade.

Nestas situações, a sequência de acontecimentos, criada com o propósito de retratar o desenrolar de um enredo, geralmente utiliza a interferência do viajante no tempo como força-motriz da relação de causa e consequência. Não faria sentido incorporar a viagem no tempo simplesmente para introdução de um personagem ou evento que não influenciasse diretamente o resultado daquela narrativa.

A tratativa da causa-consequência da viagem no tempo nas narrativas, de modo geral, pode seguir três modelos básicos de construção:

(1) Linha do tempo única e não persistente (Dynamic timeline)

Neste cenário, a narrativa está focada no presente, não importa quando ele esteja acontecendo; “esquece-se” o futuro original a partir do momento em que novos eventos do, então, passado estão ocorrendo. O impacto da viagem no tempo é vista apenas quando do retorno do protagonista (ou da narrativa) a um futuro alterado. Em alguns casos, a timeline dinâmica impacta o próprio viajante do tempo e cria paradoxos existenciais; neste modelo, ao matar meus avós, impeço meu nascimento, logo, como cheguei ao passado para matar meus avós?

À parte dos paradoxos, narrativas que optam por este caminho, geralmente fazem uso do ‘efeito borboleta‘ para despertar a surpresa no público – não por acaso o filme homônimo de 2004 é um bom exemplo disso, assim como De Volta para o Futuro (1985) <3. As infinitas combinações após as interferências no passado como predecessoras de inimagináveis resultados dão toda a liberdade possível ao roteirista para criar qualquer combinação de eventos e resultados. O fato do viajante do tempo ter chutado uma pedra na rua em 1962 pode ter causado uma invasão alienígena em 2020, desde que os pontos entre um evento e outro sejam bem conectados. De todas formas, apenas um futuro importa, aquele que acontece do ponto de vista do protagonista.

Mesmo histórias que brincam com loops temporais, como o cláááássico Dia da Marmota Feitiço do Tempo (1993) ou Contra o Tempo (2011), No Limite do Amanhã (2014) e ARQ (2016), tem a quebra do loop como saída do conflito; e uma linha do tempo distinta (ou não?) daquela que deu início às repetições temporais.

(2) Linha do tempo persistente (Fixed timeline)

Este é um modelo que costumar ‘bugar‘ algumas pessoas. Neste padrão, o passado já esperava que alguém do futuro viesse para gerar os eventos que resultaram no futuro que conhecemos. É quando nada muda, pois a mudança já estava prevista na linha do tempo.

Tal mecanismo é geralmente usado no momento de revelação das narrativas, no final do segundo ato, e frustra (propositadamente e com efeito positivo) as expectativas do público ao demonstrar que todo o esforço para mudar o passado foi em vão e/ou que justamente este esforço foi o causador do fato que fez com que o viajante do tempo precisasse retornar ao passado. Filmes como 12 Macacos (1995), Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban (2004) e Interestelar (2014) são bons exemplos desta linha.

(3) Linhas do tempo múltiplas (Multiverse)

Ultimamente este modelo tem se tornado popular devido à incorporação do conceito de multiverso, vindo da cosmologia física (não! não tem nada de auto-ajuda, esoterismo e ‘você pode mudar seu DNA se pensar positivo‘!).

O termo multiverso surgiu em 1895 na ficção, mas, no início da segunda metade do século 20, passou a ser encarado como uma possibilidade física real. Nele, múltiplos universos (ou, para nosso contexto, múltiplas histórias) acontecem simultaneamente. A cada decisão para cada um dos atores do universo, uma nova linha é criada e os acontecimentos a partir deste ponto de inflexão derivam a partir de cada possibilidade (sim, em algum multiverso moro em uma casa com cerquinha de madeira com minhas cachorras e minha esposa, Alessandra Ambrósio).

Múltiplas linhas do tempo resolvem boa parte dos paradoxos temporais ao assumir que não existe apenas “um eu”. Logo, se eu voltar ao passado e matar meus avós, nada muda, simplesmente criei uma nova linha do tempo e “pulei” da minha linha anterior a esta. Caso retorne ao futuro, estarei vinculado a esta nova linha a que pertenço.

A narrativa, neste caso, pode focar-se em uma das linhas ou contar a coexistência das demais, e podemos encontrar bons exemplos em Mr. Nobody, Alta frequência (2000) e Star Trek (2009).

Considerando que o storytelling tem a liberdade (se assim desejar) de não se prender às possibilidades científicas, cada modelo traz suas vantagens e desvantagens, cabendo ao roteirista/escritor entendê-las para conduzir sua história em um caminho crível, ainda que dentro do universo narrativo, claro.

E como entusiasta de linhas narrativas, me dêem mais dicas de filmes / livros / jogos que incorporem a viagem no tempo. Quem sabe você já tinha me contado isso… então, se você não contar, o que será do futuro? Bom, comenta aí…

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Escrito por JC Rodrigues

JC Rodrigues (jcrodrigues.net) é mestre em Comportamento do Consumidor (com estudos sobre carros autônomos e seres artificiais), palestrante, especialista em storytelling, negócios digitais e impacto da tecnologia no comportamento humano.
Professor de Storytelling e do MBA em Comunicação Digital na ESPM, tem uma pug chamada Maya, publicou quatro livros sobre comportamento e tecnologia e, durante crises de ociosidade, escreve artigos despretensiosos a respeito da interação entre o ser humano e máquinas.

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